Todo Pai Vira um Gato quando o Filho Some

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Filho a gente cria para o mundo! Quantas vezes você já ouviu isso quando demonstrou sinais de preocupação com a segurança deles?

Diferente do que se estabeleceu como verdade absoluta, os pais também sentem o sumiço dos filhos, mas insistem em preservar uma imagem de tranquilidade como forma de tentar equilibrar as relações familiares e assim dar serenidade à mãe, que expressa de forma mais aguda sua preocupação. Mas como um pai lida com esta bipolaridade?

Nos primeiros anos de vida do filhos, os pais se sentem seguros porque há uma notória dependência. Da fase do colo até a pré-puberdade, eles não vão a parte alguma sem que os pais saibam onde, que os pais levem ou que os pais busquem.

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Mas aí vem a puberdade e a adolescência e a tranquilidade desmorona. Passam a ir para a escola sozinhos, pegam transporte coletivo, táxi, van, carona, vão a inúmeras festas e nem sempre é possível você levar ou buscar e tampouco eles desejam isso.

Lembro que, na minha adolescência, a única forma de “comunicação móvel” era o Orelhão, com o agravante que não era possível ligar para ele e nem saber se estava perto de um, ao menos um que estivesse funcionando. A cartela de fichas do Orelhão era tão indispensável quanto a atual preocupação com a carga da bateria do celular.

Hoje, ter filhos em uma grande cidade requer estratégias quase militares, planos de contingência confiáveis e uma boa dose de equilíbrio emocional para segurar a barra de si, e da mãe.

Acontece da seguinte forma:

Antes deles saírem para uma balada você pede o contato de pelo menos dois amigos, checa a bateria do celular, se estão conseguindo fazer e receber ligações, combina uma hora para chegar em casa, deixa dois ou três telefones de cooperativas de táxi, checa documentos, dinheiro, coloca na carteira toda a sorte de símbolos religiosos, instala aplicativos de localização familiar, liga periodicamente para checar se está tudo bem e na hora combinada de chegar em casa, nada.

Você então, com uma leve apreensão, liga para ele, mas cai em caixa postal. Nervoso, liga para os dois contatos: um não atende e o outro fala sonolento que se desencontrou do seu filho, e inclusive já está em casa, dormindo. Corre para o localizador, que indica GPS desligado. Pânico! Começa então a ligar e a mandar mensagens para amigos que não estavam na lista inicial. Então, cria-se a RAPAI (“Rede de Apoio aos Pais Aflitos e Infartando”), que mobiliza famílias madrugada adentro tentando ajudar a localizar o jovem desaparecido. No desespero, você já começa a vasculhar o Twitter em busca de notícias sobre acidentes, e inevitavelmente, acaba achando, o que aumenta a aflição. Como um pai sábio e experiente, esconde da mãe para não piorar a situação.

O sentimento de impotência é dominante. O desânimo te dobra os ombros. A mãe começa a chorar e a lhe culpar. O Rivotril é teu maior aliado, mas você não aceita e se mantém frio, firme e calculista. Quase um James Bond em missão especial. As aparências enganam. Por dentro, pensamos no pior.

Aí, do nada, você escuta aquele som mágico e sublime da chave entrando na fechadura da sua porta, a maçaneta girando e seu filho entrando com a cara mais serena que a de um monge após meditar por horas e perguntar porquê, afinal, estamos acordados àquela hora?

Após a bronca descomunal, que ele julga exagerada, injusta e desnecessária, ele explica que emprestou o celular para um amigo (que não estava em nenhuma lista), se desencontrou dele e resolveu voltar de ônibus mesmo.

Mas como não imaginamos isso???!!!

Aí então ele vai para a cama dormir como um anjinho enquanto o alto nível de adrenalina em nosso corpo impede qualquer tentativa de uma soneca.

Isso explica o porquê de recebermos uma quantidade imensa de corações dos nossos filhos pequenos quando fazem trabalhos de arte na escolinha: assim como os gatos, a cada situação como esta, um coração se vai.

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Quando são os Pais que se Perdem em Cavernas

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Há algumas semanas, doze meninos de um time de futebol da Tailândia e seu treinador foram resgatados de uma caverna após permanecerem presos por 17 dias. Esforços do mundo todo foram reunidos para que todos saíssem bem e voltassem para suas angustiadas famílias, que aguardavam do lado de fora os seus meninos.

Mas, e quando são os pais que, de forma consciente ou não, ficam aprisionados em seu mundo, enquanto os filhos tentam de todas as formas romper as barreiras que os separam?

O ritmo de vida em que vivemos tornou o tempo um bem tão precioso quanto o próprio alimento. Nossa geração aprendeu a ser multitarefa, até para acompanhar as gerações Y e Z, que já nasceram com essa habilidade. O horário de trabalho tornou-se algo subjetivo. Os smartphones expandiram o alcance das responsabilidades e, a qualquer momento e em qualquer situação, podemos ser atingidos por um e-mail ou uma mensagem instantânea cobrando ou avisando de algo supostamente inadiável.

Quando todos à sua volta estão correndo, parar não é uma opção viável.

E mesmo quando o trabalho não é prioritário, o volume insano de informações despejados pela internet vão empurrando os pais para dentro da caverna, como que encurralados pela corrente que inunda os espaços vazios da existência.

Aos filhos restam duas opções: permanecer do lado de fora da caverna, na esperança de um resgate da consciência ou entrar em sua própria caverna, e aguardar que os pais percebam o silêncio incomum, e mergulhem para salvar a infância e a própria paternidade.

  • Papai não pode brincar agora, tem que resolver problemas de adulto

  • Papai não pode ler pra você agora, tem que trabalhar no computador

  • Papai não pode ir ao parque com você, tem que fazer compras

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Cavernas existem muitas, de vários formatos, de várias profundidades.

Algumas tão escuras que nem é possível enxergar a dor da própria solidão paterna.

Algumas tão inundadas que para atravessá-la é preciso que haja cumplicidade e entendimento da sobrevivência mútua.

Algumas tão perigosas que abrigam toda a família, ainda que com seus membros isolados em suas próprias grutas.

Os filhos, em suas diferentes fases, têm diferentes formas de fazer os pais saírem de suas cavernas.

Crianças, por ingenuamente ignorar as responsabilidades de um adulto, exigem atenção imediata e urgente. É o conhecido paipaipaipaipaipaipaipaipai. Nesta idade, permanecer na caverna, nem com anestesia geral. Se não for possível atender, abaixe-se, fique da altura dele e explique da maneira mais simples possível que não vai dar pra brincar com ele naquele momento, mas prometa que fará mais tarde. E cumpra a palavra. Eles vão se lembrar! Esteja certo disso!

A adolescência é a fase mais perigosa porque é muito comum eles irem para a caverna. E cabe ao pai ter a percepção e a sensibilidade de que algo não está legal e mergulhar na essência deles para oferecer oxigênio, luz e alimento. Se ambos estiverem em suas distintas cavernas, o adolescente corre o risco de entrar no labirinto sem fim e acabar encontrando uma saída que pode ser a entrada para uma caverna inóspita, com possibilidade remota de salvamento. Muito cuidado!

Quando o filho já é jovem, o pai presume que eles estão independentes, minimizando a importância e a influência paterna. E aí, mergulham sem bússola em cavernas, isolando-se em suas preocupações ou em seus devaneios filosóficos da meia-idade. Felizmente, os jovens ficam bem incomodados com essa alienação consciente e constantemente jogam cordas para resgatar os pais, em um rapel que aprimora a confiança e as relações pai-filho.

Então, amigo pai, não perca a dádiva que recebeu isolando-se em desculpas envoltas em tecnologia. Guarde o seu smartphone, silencie seus grupos do WhatsApp, seus e-mail´s, suas notificações das redes sociais. Deixe para ver seu filme ou sua série do Netflix quando eles estiverem fora ou dormindo. E chame eles para torcer juntos pelo seu time de coração.

Brinque sem pudor no chão, infantilize seus padrões amadurecidos e totalmente inúteis para o universo das crianças. É somente entre você e ele. Não há vergonha, não há necessidade de explicações ou satisfações para mais ninguém.

Você já foi uma criança, mas ele nunca foi um adulto, então rejuvenesça!

Sua saúde e seu estado mental agradecem, e sua vida será muito mais feliz de se viver.

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Como levei meu pai para passear no Sol?

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Tive o privilégio de assistir ao vivo o lançamento da Apolo 11 e a descida de Neil Armstrong em solo lunar em 20 de julho de 1969. Lembro-me até hoje da antiga televisão preto e branco, da família reunida e da emoção que tomou conta de meu pai ao testemunhar o evento histórico que marcou minha infância e criou laços espaciais que persistem mais que o tempo de vida de uma estrela.

O espaço sempre fascinou meu pai. Em tempos sem internet, as fotos das revistas Manchete, Cruzeiro e de jornais eram cuidadosamente recortadas e guardadas. Convivi com enciclopédias, muitas delas, e programas científicos de TV. Sim, eu poderia simplesmente me interessar por futebol, heróis Marvel ou programas de auditório (muito populares naquela época). Mas o amor de meu pai pela astronomia me contagiou como o impacto de um meteoro, e cresci olhando as estrelas, chegando ao ponto de colar adesivos de astros fluorescentes no teto acima de minha cama para que, ao apagar a luz do meu quarto, tivesse a ilusão de adormecer deitado na grama ao relento sob um estonteante céu estrelado.

Na década de 70, a conquista da Lua foi um terreno fértil para previsões alucinantes sobre o futuro. Pena que a maioria delas nunca se concretizou… Os livros de Arthur Clarke, a série Jornada nas Estrelas e muitos outros seriados que focavam na ficção científica ocupavam minhas horas e meus pensamentos. Quis ser astronauta, astrônomo e engenheiro espacial, mas a realidade me levou aos computadores.

Mas é claro que não só de ciência vivi minha infância e juventude. Sempre que podia, meus pais me levavam para passear. E passear com a família era tudo de bom! Conhecer lugares novos, pessoas diferentes, andar de carro! Como eu gostava de passear de carro! Cresci, me tornei um adulto mas lamento não ter tido muitas oportunidades para retribuir os passeios que me proporcionaram tanta alegria.

Se pudesse, levaria meu pai para passear nas estrelas, mas ele as conheceu bem antes que eu entendesse o sentido da saudade.

Em fevereiro deste ano, Willian Shatner, ator que protagonizou o inesquecível capitão Kirk da série Jornada nas Estrelas, veio à  público convocar os amantes do espaço a embarcar na nave Parker Solar Probe, que será lançada pela NASA em 31/08/18 em uma missão para desvendar os segredos do Sol. Mas de que forma eu, um cidadão comum, relativamente leigo, brasileiro, de meia idade, cujo voo mais alto foi a bordo de uma cabine pressurizada de um avião comercial, poderia embarcar em uma nave do tamanho de um ônibus em direção ao Sol sem um filtro solar com FPS suficiente para não cozinhar como um frango de padaria?

Simples: tendo meu nome convertido em bits e gravado em um chip de memória, desses que usamos em nossos smartphones. Ah! Mas assim não tem graça, dirão alguns. Pois 1.137.202 pessoas não pensaram assim, e terão seus nomes levados para mais perto do Sol do que outra nave jamais chegou.

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Foi então que percebi que esta seria uma oportunidade única para levar meu pai para passear no espaço! E assim, o inclui na lista.

Estar novamente junto dele, ainda que sob a forma do entrelaçamento de bits formadores de nossos nomes gravados eletronicamente em um chip, ainda que friamente possa parecer uma abstração inútil, ainda que nossas digitais não se encontrem fisicamente, poderemos, simbolicamente que seja, compartilhar pensamentos de Luz na paixão que nos uniu em torno do espaço sideral, e juntos sonhar com o impossível.

Bora passear, pai?

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Para saber mais sobre esta missão da NASA acesse http://parkersolarprobe.jhuapl.edu/

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Quando os Filhos Saem de Casa

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No caminho de minha casa para o trabalho, eu passo por um rio chamado Joana. Dentro dele, ocasionalmente, repousa em suas águas rasas uma graciosa garça. O nome dela é Daisy. Ei! Espera! O que uma garça com nome da namorada do Donald tem a ver com um blog sobre paternidade? Calma, eu posso explicar.
 Quando eu era uma criança, sempre que chovia muito forte, eu corria para a janela torcendo para que o rio que passava próximo à minha casa enchesse. Curiosamente, ninguém da minha família e nem da vizinhança compartilhava de meus desejos. Era compreensível. As águas que vinham do Rio Joana traziam muitos transtornos e sempre havia a apreensão que as casas fossem invadidas pelas águas. Mas, repito, eu era apenas uma criança, meus propósitos eram ingênuos e minhas preocupações eram restritas ao meu pequeno e novo universo.
Olha, lembro-me como se fosse hoje a minha excitação ao ver as águas avançarem lentamente sobre os paralelepípedos, vinda de várias direções, acompanhada por relâmpagos e trovões, lembrando a clássica cena de Mickey no filme Fantasia. Nem pensar em esquecer…
E eu, totalmente alheio às preocupações domésticas, corria para construir barquinhos de papel, que jogava pela janela. Muitos barquinhos!
– Sai da janela menino! Vai se resfriar e molhar todo o quarto! Ordenava minha mãe. Mas eu nem escutava. Aquela era o meu momento, minha responsabilidade! E eu não abriria mão de exercer minha infância de jeito nenhum!
Além do mais, meus barcos eram fortes! E eu os construía com grande paciência, capricho e carinho. Havia tanto amor neles quanto é possível caber em uma pequena embarcação de papel. De meu porto-janela do andar térreo, os lançava às águas de forma que flutuassem suavemente e seguissem seu rumo para um destino incerto, esticando-me todo para acompanhar até onde a vista alcançava, para ter certeza que seguiam com segurança, ainda que longe dos olhos de seu construtor.
Mas isso já faz muito tempo. Hoje já não crio mais barquinhos de papel, crio filhos para o mundo. Mas, quando chega a hora deles deixarem a casa paterna, nosso coração se contrai doído como se quiséssemos reter o sangue de nosso sangue dentro de nossas próprias veias, para só soltar se o nosso amor fosse junto.
E os motivos são os mais diversos: pode ser por causa de um intercâmbio, pode ser por causa de uma faculdade em outra cidade, em outro país. Pode ser por causa de um trabalho que acontece longe, que acontece tarde, ou que simplesmente, acontece.
E o filho amado faz a mala, e quando nos damos conta, estamos na rodoviária, no aeroporto ou na porta de casa nos despedindo.
– Vai ser melhor pra ele!
– Vai ser bom pro seu currículo!
– Vai ser mais seguro dessa forma!
Pensamos nele porque se pensarmos egoisticamente em nós, pais, a tristeza será a substituta inútil a nos cobrar a ausência inaceitável.boat-2847737_1280É claro que em tempos de internet, não precisamos mais esperar dias por uma carta e nem economizar saudade em caríssimas ligações interurbanas ou internacionais. Não raro, a comunicação acaba se tornando mais efetiva do que antes: Redes sociais, Whats App e até e-mail, que a Geração Z ignora solenemente, são meios para saber se está tudo bem, acalmar nossa conflituosa consciência e nos dar a certeza, sempre duvidosa, de que tomamos a decisão certa.
Ansiados, os reencontros são sempre emocionados, cheios de perguntas, cheios de saudades, cheios de abraços e beijos sufocantes.
Nos tornamos balões cheios de amor enquanto nosso filhos, alfinetes.
Queremos compensar o tempo longe, ficando mais tempo junto. E passamos a valorizar pequenas coisas, que antes eram pura rotina: um café juntos, um filme na TV, perder a hora do trabalho olhando o filho dormir na cama improvisada, no antigo travesseiro, com o pijama que já não cabe.
Como é bonito o sono dos filhos que saem de casa…
Hoje, quando passo pelo Rio Joana, fico feliz quando Daisy está lá, atenta, linda, como a esperar que meus antigos barcos de papel desçam o rio e a levem para onde estão os melhores peixes. Mas, mesmo quando o ônibus corre todo o leito do rio e não a vejo, no meu íntimo sei que construí a melhor embarcação que um pai pode conceber. E sei que na ausência do barco do pai, os filhos acabam criando asas, e sob elas, seu próprio destino.
Voa Daisy! Voa, e vai ser feliz!!!

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A Fonte da Juventude fica nas Montanhas

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15 anos! Uma idade linda na vida de uma menina! Quando minha filha debutou, dei a ela duas opções: ter uma festa, que duraria apenas algumas horas, usaria um vestido uma única vez na vida, dançaria com um “príncipe” que nunca seria seu namorado, se esqueceria de tudo dois anos depois, apesar de gravar um vídeo que jamais seria visto, e ainda teria gente criticando a comida, reclamando dos brindes e falando mal do seu penteado, ou então, ir à Disney. Ok, ok, ok, fui um pouquinho egoísta, mas precisava curar a frustração de minha infância. Além do mais, foi ela que escolheu!

Quando você conta para as pessoas que vai conhecer a Disney, ocorre um fenômeno inusitado: são poucos (muito poucos) aqueles que lhe incentivam a se divertir nos brinquedos, aproveitar os passeios e ser feliz nos parques. A maioria prefere lembrar a você que soube que o cunhado da prima do namorado de uma amiga do tio, um pouco mais novo que eu até, resolveu arriscar andar em uma montanha russa e teve um AVC, um infarto e uma síndrome do pânico, tudo ao mesmo tempo, ficando com sequelas irreversíveis.

Vamos lá, minha experiência mais incrível em um parque havia sido no Tivoli Parque da Lagoa, onde a emoção da montanha russa perdia feio para o Carrossel da Disney. Então, pra que isso, eu pergunto?

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Quando um pai resolve participar de “eventos radicais” junto com os filhos bate uma dualidade imensa: ao mesmo tempo que queremos mostrar para os filhos que somos sim corajosos, que queremos sim nos divertir junto com eles e que, afinal de contas, não fui à Disney para ficar sentado em um banquinho comendo sorvete do Mickey, bate um receio danado de que já não tenho mais idade para tais emoções, e que todas aquelas histórias horríveis que me contaram, mesmo depois do embarque, eram um aviso para que eu não me metesse à besta.

Tivemos uma vida inteira para nos alimentar de temores, medos e consciência dos perigos. Aprendemos o que nos faz mal, o que engorda, o que provoca doenças, o que faz a pressão, o colesterol, os triglicerídeos e a glicose subirem, sabemos direitinho como são os sintomas das doenças, de um ataque cardíaco, de uma pedra no rim, de um derrame e sabemos as causas e as consequências. É a cultura do medo!

As crianças, ao contrário, só querem saber de se divertir. Isso antes que os pais, a escola e os documentários da TV a cabo incutirem em suas mentes ingênuas os riscos de ser feliz.

E, definitivamente, a Disney é um lugar projetado para você ser feliz. Impossível ficar indiferente à magia e à fantasia. Impossível ignorar a alegria transbordante no ar. Impossível não retribuir a um aceno do Pato Donald ou um abraço do Pateta.

Então, ou você vira um chato ranzinza, ficando o tempo todo de mau humor, reclamando das muitas filas, do calor, do preço da pipoca e dos gritos das pessoas que estão deliciosamente sofrendo, ou você encara, vence os medos e aproveita a vida!

E foi isso que eu fiz! É claro que não se esquece 50 anos de medo incutido de um momento para outro. Mas ao me envolver no clima, “voltei a ser criança” como se tivesse tomado água da fonte da juventude, e assim, encarei os fantasmas e embarquei em uma das muitas montanhas-russa. No trajeto insano, deixei cair temores, frustrações, pânicos, fobias, precauções e inseguranças. A rede não segurou e as perdi irremediavelmente… Coisas de adulto, nada de importante. Saí mais leve, mais jovem e mais feliz!

Quando entramos em um parque como a Disney, ganhamos um passaporte com uma licença para ser criança novamente. E isso não é ruim, de forma alguma! Ao contrário, saímos de lá mais maduros, porque aprendemos a conciliar as responsabilidades e a maturidade de um ser adulto com o arrojo e a leveza da juventude.

Valeu Mickey!

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Que investimento é esse cujo retorno vai para outra pessoa, sem liquidez imediata porém com alta rentabilidade? Por que acreditamos tanto nos resultados sem que haja evidências de que é um bom negócio? Vale mesmo a pena investir em algo que não temos certeza se será de fato resgatado no futuro?

Quando eu tinha 10 anos de idade, ganhei de meu pai o primeiro kit da coleção Os Cientistas. Era composto de uma caixinha de isopor, contendo uma série de objetos para que eu realizasse as principais experiências de Sir Isaac Newton, junto com um livreto contendo uma breve biografia. O poder daquela obra quinzenal vendida em banca de jornal era tão intenso que despertava inventividade, criatividade e curiosidade nos pequenos cientistas do início dos anos 70. Não era barato, custava caro! E ainda aumentava de preço de tempos em tempos. Mas meu pai investiu até onde foi possível, e lembro-me até hoje de sua frustração ao me dizer que não teria mais como comprar a coleção, mas na época, uma criança, não entendi o sentido de sua tristeza.

Meu pai também era muito querido pelos vendedores de enciclopédias, e também adquiria semanalmente fascículos de obras fantásticas, que depois eram encadernadas à mão. E eram muitas, sobre várias áreas do conhecimento humano, com papel de primeira, conteúdo de alto nível e ilustrações que despertavam em mim fascínio e encanto.

Astronomia, medicina, biologia, química, história, física, biografias… Todo o Google cabia na estante lá de casa!

Mas qual o sentido de se investir em conhecimentos tão diversos sem saber qual deles viria a ser o propósito de vida, a carreira e a base do sustento dos filhos?

Qual a importância em se adquirir um enorme espectro de cultura mesmo sabendo que apenas uma fração dela será útil no futuro?

Até que ponto a diversidade de informações favorece a escolha de uma linha única de pensamento?

Pois ao me oferecer um universo amplo de cultura, meu pai permitiu, fortaleceu e despertou em mim o livre arbítrio e o discernimento para que eu seguisse o caminho que eu julgasse mais adequado.

E nesse mar fértil de cultura eu escolhi o barco que entendi que me levaria a um porto seguro. E foi então que, novamente, meu pai voltou a investir em minha cultura, com um objeto de grande estímulo e que foi fundamental à minha escolha de carreira.

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Hoje me pergunto que sacrifícios ele teve de fazer? Do que ele abriu mão? Quanto custou para a vida dele me oferecer a cultura para o meu futuro? Jamais saberei…

Mas aprendi que quando assumimos o papel de pai, temos o dever de investir nos filhos. E o melhor investimento do mundo sempre será a cultura que oferecemos a eles. De todas as formas!

Em um mundo de informação farta, precisamos ser criativos e não nos acomodarmos, afinal “pra que que vou me preocupar em dar acesso à informação se na internet já tem tudo?”

E essa é a questão: ainda que meu pai comprasse um monte de enciclopédias, é óbvio que ele pré-selecionava o que julgava “bom para mim”. Hoje, não dá mais para selecionar o que eles buscam. A Geração Y se vira sozinha e corre atrás (a Geração Z corre na frente). Sem contar o que chega até eles sem que solicitem, via Redes Sociais, WhatsApp e outros meios. Mas podemos, desde a infância, direcionar, orientar e fornecer os caminhos da cultura. Quer saber como?

  • Comprando (e lendo para eles) bons livros infantis

  • Levando-os para participar de eventos culturais (arte em todas as possibilidades)

  • Viajando e explicando para eles a história e a cultura local

  • Dando a eles referências sobre pessoas notáveis e que fizeram diferença

  • Sendo uma referência, porque eles vão te copiar, quer você queira ou não.

  • Ensinando a usar a internet de maneira efetiva, isto é, separar o joio do trigo, e extrair o que é informação legítima

  • Comprando livros de várias áreas do conhecimento

  • Conversando e passando, de pai para filho, a bagagem cultural que você adquiriu ao longo de toda a sua vida.

Crianças adoram perguntar “por que?”. E acreditam sinceramente que você, pai, tem todas as respostas para todas as perguntas do Universo. Portanto, responda o porquê das coisas. Mesmo as mais estranhas (e serão muitas), mesmo as mais absurdas, mesmo as mais constrangedoras, mas responda (e não empurre a pergunta para a mãe).

Serão nossos filhos futuros Einstein, Lavoiser, Volta, Da Vinci, Arquimedes, Farady, Descartes, todos cientistas brilhantes que tiveram sua genialidade embutida em uma pequena caixa de isopor? Não há como saber.

A única certeza que temos é que, ao investir na cultura deles, mesmo sem vislumbrar, esperar ou mesmo ter retorno deste investimento, estamos acreditando que eles irão honrar o compromisso de assegurar e perpetuar a herança cultural para as futuras gerações.

Vamos investir?

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O que podemos aprender com as Gerações Y e Z?

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Sou um Baby-Boomer (quase X!), e pai de jovens das gerações Y e Z. Pelo menos é assim que fui enquadrado pelos estudiosos que classificaram as gerações baseado no período em que nascemos e pelas nossas características. Muitos já escreveram sobre os conflitos entre estas gerações, mas o que podemos aprender com estes jovens?

Em geral, os Baby-Boomers são aqueles que nasceram no pós-guerra até a primeira metade dos anos 60. Foram sucedidos pela Geração X, que enquadra os que nasceram na segunda metade dos anos 60 até o final dos anos 70 / início dos anos 80. Os Millennials (Geração Y) nasceram entre o início da década de 80 até a primeira metade dos anos 90, sendo sucedidos pela Geração Z, que vai até o final da primeira década do século 21.

Ou seja, a Geração Y tem hoje, em média, entre 22 e 35 anos, enquanto a Geração Z tem entre 8 e 21 anos. Então, é bastante provável que você seja pai ou mãe de um jovem de uma dessas duas gerações. Mas o que elas têm de tão diferente da nossa?

Jovens da Geração Y não têm muita paciência, e não teriam chegado a este parágrafo se os três primeiros não deixassem explícito qual o propósito deste texto. Eles buscam sempre dar um sentido às coisas e à própria vida, acreditando que tudo é possível. Por isso, sonham alto, porque não temem o novo.

Propósito! Propósito! Propósito! Esse é o mantra!

Millennials? Ainda estão comigo?

É um grande engano achar que, por serem impacientes, não terminam o que começam. A inquietude, o dinamismo e o imediatismo são a locomotiva (um termo bem Boomer, por sinal), que impulsiona tudo o que fazem. Tem foco no curto prazo e conseguem alcançar os objetivos simplesmente porque desenvolveram algo que as gerações anteriores achavam impossível: ser multitarefa.

E é por isso que você verá um jovem dessa geração assistindo um programa na TV ao mesmo tempo que acessa um canal no YouTube pelo notebook, passar a timeline no Facebook ou no Instagram (ou os dois juntos) no smartphone enquanto combina uma saída com os amigos no WhatsApp, escuta uma música no fone e te responde como foi a prova de Sociologia que fez na véspera. É difícil para nossa geração entender como isso é possível, mas não precisamos entender, simplesmente aceitar que, sim, para eles, é possível!

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Injustamente, são tachados de egoístas mas, pensar em si próprios não é ruim quando essa imersão tem como objetivo o autoconhecimento, fazer o que gostam, o que dá prazer e o que tem sentido. Sim, eles são fiéis ao que acreditam da mesma forma que os jovens dos anos 60 perseguiam e lutavam pelos direitos que supunham ser primordiais. Querem liberdade para escolher, buscam a realização pessoal, ter as rédeas, os valores e um estilo da própria vida. Bem razoável, não?

Tanto é verdade que não são egocêntricos, que é a primeira geração que se preocupa de forma determinada com as causas sociais, os desafios ambientais e a qualidade de vida. Tem foco no ser humano e desenvolvem atitudes sustentáveis para construir um mundo melhor para si e para as próximas gerações. Os jovens da Z e os Alpha (a partir de 2009) agradecem!

Afinal, eles nasceram convivendo com os grandes avanços da tecnologia, os computadores pessoais e a Internet. Muitos não conheceram o mundo sem a Internet. Por isso, são uma geração profundamente conectada. Dormem, acordam e tomam banho com um smartphone próximo. Não perdem tempo, como nós, pensando em uma solução. Buscam no Google, naturalmente!

Acontece que nossa geração fez algo sensacional e inexplicável para as que nos sucederam: fizemos uma faculdade sem o uso da Internet. Daí essa nossa mania esquisita de pensar antes de procurar no Google. Não se trata de orgulho besta, mas de hábito.

Em decorrência disso, confiam quase que cegamente na Internet e podem adquirir produtos sem um mínimo de prudência. Isso para nós que pensamos em todas as possibilidades de fraude antes de colocar o número do cartão de crédito em um site é uma agonia. Mas, aos poucos, vamos enfrentando e superando este medo, enquanto eles vão aprendendo a ter.

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O feedback é essencial em suas vidas, e vai desde a nossa opinião sobre a nova namorada (apesar de não perguntarem diretamente) até o que achamos sobre uma nova forma de investimento financeiro (que eles já fizeram).

Sim! Eles pesquisam, estudam e estão sempre encontrando novas formas de ganhar dinheiro. Diferente de nós, têm diversas fontes de renda, e dão um banho em nossa visão conservadora sobre economia simplesmente porque nós crescemos em um mundo de instabilidade financeira, inflação galopante e trocas constantes de moedas; um cenário que nos estimulou a guardar o dinheiro onde fosse mais seguro: de preferência em uma “caderneta de poupança”, e não em um banco virtual.

Estes jovens tem muitos valores, e não estou falando de dinheiro. A ética, a honestidade e o respeito são essenciais em sua visão da sociedade. Exigem respeito, igualdade e motivação para desenvolver suas atividades. São questionadores e não se deixam oprimir. Escutam e aprendem com os mais velhos, mas se sentem muito à vontade para nos ensinar e expressar suas posições sobre nossas atitudes, ainda que muitas vezes de uma forma ríspida e ácida. Sejamos humildes em aceitar.

No trabalho, valorizam e respeitam a competência, não a hierarquia. São líderes natos, apreciam o trabalho colaborativo, a transparência nas relações humanas e a comunicação que envolve um trabalho em equipe. São inventivos, criativos e inovadores ao oferecer ideias e soluções diferenciadas para resolver problemas. Gostam de trabalhar com metas, desafios e foco nos resultados. O ambiente tem de ser adequado para estimular a criatividade, flexível e alegre. A estabilidade dá tédio. Precisam de uma certa dose de incerteza para serem felizes, ou seja, é o oposto do que um Baby-Boomer desejava ao entrar para uma empresa, na qual pretendia se aposentar.

Assim, exigem reconhecimento baseado nos seus talentos. Se isso não acontecer, e rápido, vão embora sem nenhum tipo de apego à empresa onde trabalhou.

No entanto, uma pesquisa realizada este ano pela Deloitte com 8 mil Millennials em todo o mundo revelou que estes jovens estão procurando um trabalho que traga mais estabilidade, possivelmente reflexo da instabilidade econômica.

Claro que eles buscam o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, como todos nós, mas vão privilegiar a primeira. Fato: as necessidades familiares e pessoais são prioritárias frente às demais.

Algo que acho fascinante é que eles são protagonistas da própria carreira, não esperam que alguém ofereça treinamento para se desenvolverem. Buscam cursos online e aprendem tudo sobre tudo que tem um propósito e valor. E aí oferecem o seu conhecimento a quem precisa em troca de reconhecimento financeiro. Prático, não?

Um conselho: não tente se comunicar com eles da mesma forma que sempre fez com alguém da sua geração. Eles se sentem completamente à vontade nas redes sociais e é por elas que ocorrem as relações interpessoais (principalmente os jovens da Geração Z). Pediu ao seu filho para para te ligar? Espere sentado. Eles vão te mandar uma mensagem pelo WhatsApp, pelo Messenger ou pelo Telegram, mas nunca, nunca usarão o telefone (para eles, torpedo é uma arma)! E esperam sinceramente que você veja, em tempo real, suas mensagens sucintas.

– Porquê você não avisou que ia dormir na casa do seu amigo?

– Mas pai! Eu te mandei um “Zap”! Você não leu?!

Não, não leu simplesmente porque você estava dormindo durante a madrugada.

Somos muito diferentes, é fato. Mas acredito realmente que os jovens das Gerações Y e Z não têm que seguir o comportamento e valores das gerações anteriores. Somos nós que estamos vivendo na geração deles, e não o contrário. Então, é lógico que nos adaptemos à era atual, sem que para isso tenhamos que violentar nossos sagrados ideais.

Não é o caso de assumirmos uma fantasia de uma geração que não é a nossa. Ia soar falso, patético e hipócrita. Mas se captarmos a essência destes jovens, entender que eles são uma evolução da nossa geração, têm muito em comum com a nossa (quando tínhamos a mesma idade), aprender com eles e trocar experiências, teremos uma relação entre pais e filhos mais equilibrada, justa e com alto nível de respeito.

Isto sim é amadurecer com sabedoria!

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A Cadeirinha de Bebê Mudou sua Vida e Você nem Percebeu

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Quando eu era jovem tinha um método infalível para não cometer loucuras ao volante do carro: bastava esticar o pescoço e olhar o capô do carro. Esta visão me dava a noção exata de onde eu estava e o que poderia me acontecer em caso de acidente.
Mas então veio o primeiro filho, e junto com ele, a indefectível cadeirinha de bebê. E então, tudo mudou!

Presa ao banco traseiro, sua presença, mesmo sem o bebê, era visão obrigatória no espelho retrovisor. Isso, é claro, mudou meu comportamento ao dirigir. Já não era mais necessário ter a consciência de que estava dentro de uma caixa de aço, entre o motor e o tanque de gasolina. Bastava olhar pelo espelho retrovisor, o que é um ato contínuo a quem dirige, e lá estava ela, qual um Moai, misteriosa estátua da Ilha de Páscoa, a desafiar meus instintos, imponente e impassível, e a moldar minha nova forma de dirigir.

Já não havia mais espaço para discussões no trânsito, manobras arriscadas, freadas bruscas e sinais quase vermelhos. Lá atrás, um ser pequenino, frágil e deslumbrado como um ventilador ligado, com seu olhar curioso para um mundo que se renovava a cada curva, silenciosamente me dizia que precisava de mim. Mesmo com apenas dois dentinhos e uma linguagem simples, ensinou a responsabilidade a um homem que subitamente se descobre, pai.

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Balbuciava seus sonhos de um dia jogar bola comigo, caminhar em comunhão nas areias relaxantes de Rio das Ostras, ouvindo ondas em conchas ou as colecionando do mar. Pedia-me, à sua maneira, para ensiná-lo a andar de bicicleta sem rodinhas, explicar o porquê das coisas e a jogar botão, damas e trunfo.

Não tinha o direito de decepcioná-lo. Se eu lhe faltasse, como se lembraria de mim? Que sobrecarga desumana seria jogada sobre a mãe? Uma injusta, desnecessária e irresponsável orfandade.

Lembro bem, que no carro de meu pai havia um porta-retratos com um imã que prendia no painel do carro (sim, pasmem, naquele tempo o painel era de ferro), com as fotos dos filhos acompanhado da mensagem “NÃO CORRA PAPAI”. Tinha o mesmo efeito psicológico da cadeirinha, quando era a mãe que acolhia o bebê no colo do banco traseiro, e não uma confortável e segura “poltrona de Boeing”.

Não Corra Papai

Mais tarde, quando a cadeirinha, de forma cerimoniosa, é retirada do carro, a sua sombra permanece por lá, a lembrar que a nossa saúde é importante para uma vida que precisa essencialmente de uma família.

E esta mudança não fica restrita entre as quatro rodas. Adotamos naturalmente uma nova postura em relação à vida, com mais cautela, reflexão e ponderação.
Mudamos nossa alimentação para algo mais saudável, evitamos os excessos, os esportes radicais e as atividades de risco. A academia passa a ser um lugar para ficar mais saudável, não mais para ficar mais bonito!

É por isso que as pessoas costumam dizer que alguém ficou mais calmo depois que o filho nasceu. Conversa! Na verdade, é medo de não poder acompanhar o crescimento, ser e estar presente nos momentos mais importantes da vida do filho e testemunhar seus genes se preservarem pelas gerações seguintes.

E ainda mais tarde, quando os baixinhos passam a ocupar o banco da frente e a disputar o rádio e a nossa paciência, o juízo adquirido ao longo de toda a infância se torna um incômodo insuportável para eles.
Reclamam que somos lerdos, não arriscamos, não cantamos pneu, nem buzinamos! Pais medrosos!

– Passa ele, pai, passa ele!
– Pra que botar cinto pai? Você nunca bate!
– Pai! Até aquele Fusca te passou!

Concordo que seria mais honesto explicar a eles que, sim, já fomos jovens arrojados, corajosos e até mesmo deliciosamente irresponsáveis, mas que, para protegê-los, adquirimos um juízo, uma sensatez, um equilíbrio e um bom senso, para que tivessem a chance de receber uma boa educação, exemplo de cidadania, civilidade e respeito ao próximo.
Mas achei que não entenderiam, e acabei botando a culpa no motor 1.0.

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Fé Cega, Faca Amolada

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A administração dos riscos que um filho corre ao longo de toda sua vida é uma responsabilidade de todo pai e de toda mãe. Evitar que ele se machuque, fique doente ou sofra é uma atitude que nasce assim que o cordão umbilical é cortado, como uma forma consciente de preservá-lo.

E nada simboliza mais esta preocupação que o uso de uma faca amolada pelo filho. É como se fosse um marco, um limite que separa a infância da vida adulta.

Desde bem pequeno vamos aumentando progressivamente as fronteiras do que pode e do que não pode. Somos o discernimento de quem ainda não o possui, a vigilância do possível e o juiz do risco aceitável.

Um equilíbrio sutil entre a liberdade que o fará amadurecer e o risco que o fará sofrer.

– Não! Não pode! Papai não quer! Faz dodói! É sujo! Vai cair!

A chupeta que pega do chão, o pequeno objeto que coloca na boca, a virada sobre o trocador, o líquido que não pode beber, os objetos pontudos, cortantes, ferramentas, vidros, quinas, o fogão aceso, o chão escorregadio, a friagem, a golfada dormindo, o travesseiro que pode sufocar, o brinquedo que pode desmontar, o buraco, o tapete, o escorrega, o balanço, a piscina, a multidão… São tantos os perigos que nem nos damos conta de como permanecemos em vigília 24 horas por dia.

Eles crescem, e quando nos damos conta, já aprenderam a usar a faca amolada sem perder um dos dedos. No entanto, o discernimento ainda se contrapõe ao livre-arbítrio. Supõem-se imune a perigos, subestimam os riscos, nos vêem como medrosos. Não podemos mais estar presente à maior de seus momentos. E então, abraçamos uma fé cega.

Mudam as estações, mas não as preocupações. Continuamos a testar os limites, e gradativamente vamos cedendo espaços, enquanto eles vão conquistando a liberdade tão desejada.

– Vai aonde? Vai com quem? Como vai voltar? Seu amigo dirige bem? Ele bebe? Vai voltar tarde? Se cuide hein, filho!

– Pai, porquê você não confia em mim? Eu me cuido, pai!

Sabemos disso, educamos para isso, protegemos até onde foi possível, mas agora eles já cortam o pão sozinhos…

– Pai! Vou acampar na Ilha Grande com a minha namorada! Beleza?

– Pai! Estou juntando dinheiro para pular de asa-delta! Beleza?

– Pai! Vou com uns amigos fazer intercâmbio na Austrália! Beleza?

– Beleza! Se cuide filho! E vai com Deus!

Fé cega, faca amolada.

É preciso saber a hora de recolher as amarras e deixar o barco solto, ao sabor do vento. Não se trata de deixar pra lá! Ocasionalmente, vamos informar a previsão do tempo, para que evitem as tempestades, redemoinhos e buracos negros do mar, mas estamos cientes que o barco é dele: o capitão que você ensinou a navegar.

Ao pai, é voltar os olhos com amor para a mãe e bora viver a vida, porque preservar um porto seguro é essencial para o barco que buscará a luz do farol quando as noites não tiverem a Lua como testemunha da paternidade.

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Os 11 Estágios e Formatos de um Cordão Umbilical

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Estágio I – Nasceu!

Não havia como perde-lo de vista. Mesmo assim, o pediatra corta a ligação antes que nos acostumemos com a ideia.

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Estágio II – Colo

Dependem totalmente de nós. Impossível não saber onde ele está ou o que está fazendo. Até aqui, tudo bem.

Estágio III – Engatinhando

O início do fim da segurança. Podem ir a qualquer lugar, mas ainda dá para segui-los, apesar da velocidade surpreendente que alguns desenvolvem.

Estágio IV – Começando a ficar em pé

Se sustentam agarrando o nosso dedo, balançam feito gelatina e voltam ao Estágio III. Ainda sob controle.

Estágio V – Começam a andar

Ainda dependem de nós, mas não por muito tempo. Seguros pelas mãos, conseguem dar pequenas caminhadas, cansam rapidinho, e voltam ao estágio II. Descobrimos como dá trabalho evitar que se machuquem.

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Estágio VI – Andam sozinhos

Não precisam mais de nossa ajuda para se locomover, mas mesmo assim, seguramos suas mãos para que sigam na mesma direção que nós e não entrem na loja de departamentos enquanto piscamos os olhos Começa a fase do “Dá uma mão papai”

Estágio VII – Criança de Shopping

Você quer ver uma vitrine de uma loja enquanto ele quer ir aonde o dedinho deles aponta. É o início do período em que ele se joga no chão do shopping, faz pirraça, chora e faz com que todos os outros pais (que nunca passaram por isso) o julguem com um ignóbil e incompetente educador. A frase ganha tons dramáticos de urgência e ganha várias exclamações: “Dá uma mão papai!!!”

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Estágio VIII – Criança cansada

Seus objetivos já diferem quase totalmente dos da criança. Ela já não faz pirraça no chão do shopping, mas fica com ar entediado, suspira e segura a cabeça com as mãos em postura explícita de falta de paciência. É mútuo. A frase “dá uma mão papai” é substituída pela mão estendida, o que subtende que ela terá que procurar outro lugar para se refastelar enquanto fazemos nossas coisas.

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Estágio IX – Pré-Adolescente desbravador

Andam em bandos. Conhecemos seus amigos, onde moram e os pais dos seus amigos. Se vão a festinhas, levamos e buscamos (eles e os amigos). É a fase do pai taxista. Já não aceitam mais que segurem a mão. No máximo andam na rua esbarrando suas mãos nas nossas, em claro sinal de querer mostrar que não precisam mais de nós mas morrem de medo de nos perder de vista. São muito distraídos e nesta fase ensinamos a eles que o que para um carro é o freio, e não o sinal fechado.

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Estágio X – Adolescente indomável

Se você ainda leva na escola, pedem para parar bem antes ou bem depois. Nunca, em hipótese alguma, na porta. Nem pense em dar um beijo de despedida, vai ficar no vazio. Saltou do carro, vaza. Morrem de vergonha que você espere ele entrar. Imagina se os amigos virem! Vergonha é algo natural: da nossa linguagem, do nosso jeito de vestir, dos lugares que vamos, de que os pais se beijem, de andar junto, de praticamente tudo. Com muito esforço teremos o nome e o celular dos amigos com quem estão saindo. Esqueça a família deles. Não fazem nenhuma questão que os levemos às festas e boates. Mas ligam para que os buscamos, de manhã. Com sorte, não seremos confundidos com um Uber. Acreditamos sinceramente que sabemos onde eles estão. O diálogo é monossilábico, difícil e econômico nas palavras. Nesta fase, os pais aprendem muitas expressões e palavras novas, mas nem pense em usar com eles! O celular se torna um instrumento vital. Nos preocupamos mais com o nível de carga da bateria do celular deles do que com nossa própria saúde. Tentam de todas as formas romper com o cordão umbilical, e acham que conseguiram quando, na prática, simplesmente desistimos de tentar puxar.

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Estágio XI – Jovem independente

Com muito esforço teremos o apelido e o celular do amigo com quem está saindo, mas a multiplicidade deles inviabiliza qualquer cadastro. Muitas vezes saem pela manhã e voltam à noite, com sorte, tarde da noite. Se dizem que vão voltar cedo, acredite! Será quando o Sol nascer. Detestam que liguemos para saber se estão vivos. Continuamos a dar conselhos, todos ignorados com veemência, mas secretamente colocam o casaco e o guarda-chuva na mochila. Mochila que contém uma rica diversidade e é território privado. Nem pense em mexer! Aceitam participar de refeições com os pais, desde que paguemos. Até curtem participar de eventos juntos desde seja algo alinhado com seus princípios, que são muitos. Nós, pais, rejuvenescemos nesta fase. Ouvem as mesmas músicas que nós ouvíamos na idade deles, o que evidencia que os anos 80 foram muito, muito bons! Aceitam abraços, mas não se demore muito. Às vezes, o abraço é substituído por uma pisada no pé. Entenda que é uma espécie de carinho. O diálogo volta a acontecer e é rico. Nos ouvem, mas questionam, tem opinião crítica sobre quase tudo. Nos ensinam muitas coisas e precisamos ser humildes em ouvir, aprender e entender eles. Nos cobram atitudes, posições e confiança. O GPS é nosso maior amigo! O som das chaves deles abrindo a porta de casa com o dia amanhecendo é um momento sublime e tem forte efeito anestésico. Sentimos uma falta danada do “Dá uma mão papai”. E gostaríamos que eles também.

Uma amiga da família e grande psicóloga uma vez me disse que o cordão umbilical nunca é cortado, mas esticado. É preciso ser um pai sábio para saber dar corda ao cordão na medida exata, desatar os laços antes que se tornem nós e manter por ele um fluxo constante de comunicação.

No umbigo deles ficou apenas uma cicatriz. A ligação agora é puro amor paterno!

 

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