E você achava mesmo que as bolhas eram feitas de sabão?

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Passeando de bicicleta pela orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, subitamente me vejo envolvido em uma nuvem de bolhas de sabão. Com os olhos ardidos, encostei e parei para observar a origem de uma das mais clássicas manifestações da infância ingênua.

Na beira da ciclovia, uma criança mergulhava o “pirulito” no pote de sabão e se preparava para mais um enxame de pureza. Encheu de ar os pulmões, e suavemente soprou. Dezenas de pequenas bolhas se espalharam pelo ar: algumas esbarravam nas pessoas, outras caíam e estouravam no chão enquanto outras buscavam o céu, onde explodiam em pequenas gotículas refletidas pelos raios do bonito Sol que fazia naquele domingo.

Apesar de alguns automatismos, que tiraram toda a graça, pois não dependem mais do sopro infantil para produzir o efeito, a brincadeira é a mesma desde muito tempo.

Se você reparar bem, não é tão banal como parece. Após o sopro, todas as crianças em volta se envolvem em um balé inebriante tentando de todas as formas estourar as bolinhas. Riso solto, gargalhadas em profusão, infância em estado bruto, até que a última bolha estoure ou se eleve acima de onde os pequenos e frágeis braços estendidos não conseguem mais alcançar. E então a brincadeira recomeça até que todo o sabão se acabe. Ou então…

– Paaaai!!! O sabão derramou!!!

O olhar melancólico observava o líquido espalhar a espuma inútil sobre o gramado, permitindo que o canto dos bem-te-vis se impusesse sobre os gritos mudos das crianças, cessando de repente a efervescência dos primeiros anos de vidas delicadas.

Mas bastou que os dedos com sabão enxugassem os olhos marejados para que a algazarra voltasse como vento de outono.

– Tá ardendo! Tá ardendo! Sopra pai! Sopra!!

Agachado na mesma altura que tinha quando espalhava bolhas pelo mundo, o pai sopra suavemente os olhos que piscam incessantemente como asas de uma borboleta que acabou de sair do casulo, e então tira da bolsa um pote cheio com o precioso líquido.

– Paaai! Você trouxe mais?!

E então, o ar carregado de inocência, pureza e simplicidade volta a encher novamente bolhas envoltas de sabão, a girar e refletir em formas multicoloridas todo o mundo ao seu redor, e a explodir e espalhar o pólen da receita primordial pelo mundo.

Subitamente, percebo na pele que o sabão se transformou em encantamento, e sinto renascer dentro de mim a infância que há muito havia se perdido.

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Por que os Pais Gostam Tanto de Fotografar os Filhos?

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Tudo começa com o vídeo da ultrassonografia feita no início da gravidez, e que é exibido animadamente para parentes e amigos, ainda que poucos consigam distinguir dentre as formas confusas, o perfil de um bebê. Mas isso é apenas o início de uma longa série de gravações que o pai fará ao longo da vida de seus filhos.

Sou do tempo que os registros eram feitos em rolo de filme em câmera fotográfica, de 12, 24 ou 36 poses. Sou do tempo que era impossível saber se o obturador já teria se fechado quando aquela pose memorável fora arruinada pelo movimento abrupto e sempre inesperado de sua criança. Sou do tempo em que era preciso esperar vários dias para saber se o momento mágico seria eternizado em papel fotográfico ou registrado na nossa memória, como toda mãe sempre fez.

Festas, eventos escolares, passeios, viagens, brincadeiras no play, dormindo, comendo ou mesmo sentado na privada. Toda uma vida registrada, como se fosse o Show de Truman, interpretado no cinema por Jim Carrey.

A família até que tolera a mania esquisita e raramente censura, salvo quando os esforços para que a fotografia saia boa supera os limites do bom senso, da boa educação e da civilidade.

– Para de fotografar e assiste!

Como se eu não estivesse vendo, ainda que através das lentes de minha inseparável câmera…

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Mas, porque temos tanta necessidade de guardar as lembranças dessa forma? Para explicar o motivo de meu estranho comportamento como pai, numa autocrítica rara, criei algumas teorias:

  • Por orgulho, adoramos mostrar as gracinhas de nossos filhos para quem não pôde testemunhar.

  • Por vaidade, queremos deixar evidências de nossos melhores momentos como pai para nossos descendentes.

  • Por insanidade, tememos esquecer o passado, e usamos as fotos para rememorar o inesquecível.

Como se fosse possível armazenar toda uma infância em uma simples caixa de sapatos…

Atualmente, a velha câmera de rolo foi substituída pela câmera digital, que está sendo substituída rapidamente pelo celular. Não imprimimos mais as fotos: as esquecemos na “nuvem”, em algum computador do Google em algum lugar do planeta. E esta facilidade alimentou o vício e multiplicou a níveis exorbitantes a quantidade de fotos que tiramos dos filhos. Não ficou bom? Apaga e tira de novo. Filmamos horas e horas, em alta definição, em slow motion, capturamos movimentos, momentos e emoções que nunca mais serão repetidos, mas raramente assistimos.

É duro perceber que os melhores momentos que me recordo ao longo de toda minha vida como pai são aqueles em que não estava com uma câmera na mão, porque ao constatar que as lembranças não poderiam ser eternizadas pelos neurônios artificiais, meu cérebro tratou de armazenar a ternura em forma de saudade, e sensibilizar minha alma e meus genes, perpetuando as lembranças da paternidade em sua mais verdadeira e pura essência.

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Dia de Apresentação na Escola

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As apresentações feitas pelas crianças na escola nunca são fora do horário comercial. Daí a correria que temos que realizar sempre que recebemos a convocação. Largamos reuniões no meio, corremos pelas ruas, pegamos táxis, para enfim chegarmos suados, esbaforidos, mas felizes por não nos atrasarmos.

Assisti às mais diversas apresentações: teatrinho, dia dos pais, carnaval, festa junina, balé, judô, música e até mesmo de dia das mães. E sempre de posse da indefectível câmera fotográfica, tão criticada pelas mães, mas companheira inseparável do pai coruja.

E então, no meio do imenso tumulto de pais, vislumbrei meu filho se preparando para a exibição. Enquanto vestia sua fantasia, recheada de papel crepom, procurava com olhinhos ansiosos a figura familiar na platéia.

O encontro dos olhares é um momento mágico! Como por encanto, o sorriso sereno brota em seu rosto enquanto suas ruguinhas de preocupação desanuviam. Como que imbuído de uma autoconfiança, assume o seu papel na pecinha teatral, certo de que estava sendo observado (e fotografado) pelo seu pai.

A vontade de acertar e corresponder às expectativas sobrepõe a ansiedade e o nervosismo, natural e compreensivo, enquanto olhares esguios a confirmar a presença do pai durante a apresentação são percebidos e correspondidos.

Ocorre que nem todos os pais podem (ou desejam) participar de todos (e são muitos) momentos de exibição. E as crianças sentem. Muito! Percebia várias delas buscando tristemente o pai na platéia até o final do ato, sem sucesso. Mesmo assim, se mantinham firmes, pois sempre havia uma testemunha de seu desempenho.

– Você gostou, papai?

A pergunta, feita em tom excitado, não esperava uma resposta crítica, lógica ou pragmática. É apenas uma formalidade emocional para que o abraço de gratidão encontre o abraço de felicitação.

O que importa se ele esqueceu a fala, se pisou na fantasia e a palmeira despencou, se trombou com o coleguinha e o cenário desabou ou se teve uma crise de choro e foi retirado do palco pela Tia cenógrafa-música-diretora-coreógrafa?

No final, damos parabéns, dizemos que estava ótimo e que ele foi muito bem!

Não estamos mimando, estragando ou impedindo seu amadurecimento como ser humano.

É simplesmente orgulho puro e simples de pai.

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Brincadeiras que Ensinam a Entender a Vida

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Viajar ajoelhado no banco do carro, virado para o vidro traseiro, é uma das coisas mais gostosas que boa parte de nós já fez quando éramos crianças. Experiências ingênuas, como estas, nos ensinaram muito mais do que poderíamos imaginar. E contribuíram de forma definitiva para a formação de nossa maturidade.

A aceitação inesperada das mudanças de rumo, os desvios entre os carros e pedestres, os prédios que surgem de repente, imponentes, e vão diminuindo de tamanho até sumirem na próxima esquina, o Sol bailando ao sabor das curvas, o reflexo das nuvens nas vidraças dos prédios, tudo isso enquadrado no para-brisa traseiro, formam um passatempo delicioso e inebriante.

Ao ter esta perspectiva inusitada do mundo que nos cerca, vivenciamos uma rebeldia inocente, e sempre mal compreendida pelos nossos pais. Enquanto estamos absorvidos e embriagados por esta vivência, a mãe com sua mão protetora ampara nossas costas, sem tocá-la, em um gesto carregado do pressuposto que uma freada brusca me acordaria subitamente de meu sonho, e me faria acordar em seus braços carinhosos.

Aceitar os caminhos por onde passamos sem ao menos esperá-lo, sem tempo para querer, sem espaço para escolher. Não poder ver vindo, e então passar. Não saber por que paramos e tampouco porque voltamos a andar. Não saber quem nos acena, e nem porque acenamos de volta.

Ter tempo de apreciar casais se enamorando, os passos cadenciados e solidários do casal de idosos, a migração em V dos pássaros que buscam o verão, o cãozinho que passeia na cadeira de rodas, uma folha seca na última valsa antes de tocar o chão, toda uma vida que passa onde somos coadjuvantes no papel de inocentes.

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Detalhes que passam totalmente desapercebidos quando estamos absortos pela rotina e pelas preocupações. Isto se chama viver!

Desde crianças, aprendemos que a imprevisibilidade é algo natural, e nos acostumamos a encarar a vida dessa forma. Aprendemos a confiar em quem está nos guiando e nos deixamos levar por caminhos que desconhecemos. Aprendemos enfim, que para chegarmos onde queremos, muitas vezes precisamos passar por desvios, bloqueios, atalhos e pontes surpreendentes.

Conduzindo a Vemaguet, voz firme, sem espaço para contestação, meu pai dá o ultimato:

– Senta direito, menino!

Obediente a ele, volto-me para a visão frontal, a tempo de presenciar uma previsível manobra, sem surpresa. Pena…. Tivesse passado mais meia hora na perspectiva reversa e eu teria aprendido bem mais cedo a reconhecer os sinais, mesmo sem vê-los, e aprendido a respeitá-los e agradecê-los pelos destinos que a vida nos traz.

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A História do Anjinho que não Criou Asas

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Quando uma mulher descobre que está grávida, imediatamente assume o papel de mãe, o que já não acontece com o homem, que precisa de um tempo bem maior para assimilar a paternidade.

Dessa forma, quando ocorre a perda injusta, é ela que sofre o impacto mais agudo. Ao pai, que quase foi, resta a tarefa fundamental de ser forte para sustentar a vida que parece desmoronar.

Ela, e somente ela, poderá traduzir a essência do pânico diante do silêncio do ultrassom, a angústia de ter consciência que carrega dentro de si o filho que não será. Perder sem antes ter.

Mulheres são fortes, e nestes momentos precisam de um marido que ame no sentido mais incondicional possível! Diante da dor pungente da perda, o homem sofre, mas não pode expressar a tristeza abertamente. Se revolta, mas tem de manter uma falsa serenidade. Ele sabe que precisa amparar a esposa e lhe dar apoio e segurança. Para isso, chora silenciosamente, solitariamente, amarguradamente. Procura amparo em amigos, parentes, em Deus.

Compartilhar a dor é divino. A compaixão fortalece a união, e o casamento amadurece.

A fé traz o conforto, o alento e o suporte para a possibilidade de um futuro de sofrimento de uma vida que poderia ter nascido incompleta.

Ninguém sai incólume à essa experiência. Este casal será feliz porque soube entregar, confiar e aceitar. Em breve, uma nova vida será gerada no ventre dolorido, fruto do amor verdadeiro que transbordou de lágrimas, mas que sobreviveu para criar o filho que demorou a chegar, e que será para sempre amado e guardado pelo anjinho que não nasceu.

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Todo Pai Vira um Gato quando o Filho Some

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Filho a gente cria para o mundo! Quantas vezes você já ouviu isso quando demonstrou sinais de preocupação com a segurança deles?

Diferente do que se estabeleceu como verdade absoluta, os pais também sentem o sumiço dos filhos, mas insistem em preservar uma imagem de tranquilidade como forma de tentar equilibrar as relações familiares e assim dar serenidade à mãe, que expressa de forma mais aguda sua preocupação. Mas como um pai lida com esta bipolaridade?

Nos primeiros anos de vida do filhos, os pais se sentem seguros porque há uma notória dependência. Da fase do colo até a pré-puberdade, eles não vão a parte alguma sem que os pais saibam onde, que os pais levem ou que os pais busquem.

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Mas aí vem a puberdade e a adolescência e a tranquilidade desmorona. Passam a ir para a escola sozinhos, pegam transporte coletivo, táxi, van, carona, vão a inúmeras festas e nem sempre é possível você levar ou buscar e tampouco eles desejam isso.

Lembro que, na minha adolescência, a única forma de “comunicação móvel” era o Orelhão, com o agravante que não era possível ligar para ele e nem saber se estava perto de um, ao menos um que estivesse funcionando. A cartela de fichas do Orelhão era tão indispensável quanto a atual preocupação com a carga da bateria do celular.

Hoje, ter filhos em uma grande cidade requer estratégias quase militares, planos de contingência confiáveis e uma boa dose de equilíbrio emocional para segurar a barra de si, e da mãe.

Acontece da seguinte forma:

Antes deles saírem para uma balada você pede o contato de pelo menos dois amigos, checa a bateria do celular, se estão conseguindo fazer e receber ligações, combina uma hora para chegar em casa, deixa dois ou três telefones de cooperativas de táxi, checa documentos, dinheiro, coloca na carteira toda a sorte de símbolos religiosos, instala aplicativos de localização familiar, liga periodicamente para checar se está tudo bem e na hora combinada de chegar em casa, nada.

Você então, com uma leve apreensão, liga para ele, mas cai em caixa postal. Nervoso, liga para os dois contatos: um não atende e o outro fala sonolento que se desencontrou do seu filho, e inclusive já está em casa, dormindo. Corre para o localizador, que indica GPS desligado. Pânico! Começa então a ligar e a mandar mensagens para amigos que não estavam na lista inicial. Então, cria-se a RAPAI (“Rede de Apoio aos Pais Aflitos e Infartando”), que mobiliza famílias madrugada adentro tentando ajudar a localizar o jovem desaparecido. No desespero, você já começa a vasculhar o Twitter em busca de notícias sobre acidentes, e inevitavelmente, acaba achando, o que aumenta a aflição. Como um pai sábio e experiente, esconde da mãe para não piorar a situação.

O sentimento de impotência é dominante. O desânimo te dobra os ombros. A mãe começa a chorar e a lhe culpar. O Rivotril é teu maior aliado, mas você não aceita e se mantém frio, firme e calculista. Quase um James Bond em missão especial. As aparências enganam. Por dentro, pensamos no pior.

Aí, do nada, você escuta aquele som mágico e sublime da chave entrando na fechadura da sua porta, a maçaneta girando e seu filho entrando com a cara mais serena que a de um monge após meditar por horas e perguntar porquê, afinal, estamos acordados àquela hora?

Após a bronca descomunal, que ele julga exagerada, injusta e desnecessária, ele explica que emprestou o celular para um amigo (que não estava em nenhuma lista), se desencontrou dele e resolveu voltar de ônibus mesmo.

Mas como não imaginamos isso???!!!

Aí então ele vai para a cama dormir como um anjinho enquanto o alto nível de adrenalina em nosso corpo impede qualquer tentativa de uma soneca.

Isso explica o porquê de recebermos uma quantidade imensa de corações dos nossos filhos pequenos quando fazem trabalhos de arte na escolinha: assim como os gatos, a cada situação como esta, um coração se vai.

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O Penetra Justificável

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“Venha se divertir com muita música e brincadeiras. Deixe seu filho com nossos animadores às 17:00 e pegue às 21:00”.

O convite estava bem claro: não era permitida a entrada dos pais. Mas a angústia que sentimos toda vez que recebemos um convite nesses termos nos tira o sono e a paz.

Entendo que nem sempre é possível chamar todos os amiguinhos da escola, do prédio, da rua bem como parentes com os respectivos responsáveis.

Entendo que, sendo uma festa infantil, nada mais natural que somente crianças participem, além é claro dos parentes e amigos mais chegados.

Entendo também que crianças não estão nem aí para buffet de frios ou salgadinhos quentinhos e tampouco bebem cerveja.

Não se trata de discriminação, é pura necessidade.

Daí a opção natural pela festa “deixe agora e pegue depois”. Nada mais prático.

Mas como podemos confiar a responsabilidade de nossos pequenos à animadores (ainda que treinados e competentes) sem ao menos realizar uma, digamos, perícia técnica no local da festa, além de uma análise curricular seguido de entrevista e apurados testes psicológicos nos recreadores?

Pode parecer paranoia. E é.

Nesses casos, o melhor a fazer é dar uma desculpa nada convincente à dona da festa tipo:

– Nossa! Viemos de tão longe…

– É que ele acordou meio resfriadinho hoje…

– Vou ficar só um pouquinho para ver se ele não chora… (e ficar até o final)

– Ele não está acostumado a ficar sozinho…

E aí então entrar com o filho, sentar num canto discreto de onde você possa, ao mesmo tempo, ver a criança e ser visto pelos garçons. Tudo com um ar totalmente constrangido pelo “mico” e pelos olhares reprovadores dos eleitos a participarem do evento que condenam minha fraqueza, imaturidade e incapacidade de prover aos filhos responsabilidade, liberdade, auto-estima, e tantos outros sentimentos que eles necessitam para sobreviver em um mundo de competição selvagem, pleno de concursos de admissão, disputas ferozes pelo mercado de trabalho e até mesmo na escolha do time da pelada.

Mas ele só tem 3 aninhos!!!

Mas, oh não, supremo vexame, a dona da festa vem em minha direção e me pergunta com ar piedoso se estão me servindo e ainda pede ao garçom para me levar um pratinho com os salgadinhos, não sem antes me recomendar:

– Fique à vontade, viu?

Soa como sarcasmo, mas é apenas uma formalidade burocrática.

Bem, pelo menos o animador não irá me chamar para participar das brincadeiras..

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A Lição que o Balanço Ensinou para Minha Filha

girl-996635_960_720 Domingo de sol, descemos eu e minha filha ao play. Eu, otimista mais uma vez com a possibilidade remota de ler o jornal e ela com uma pilha de brinquedos, bonecas e coisas com sentido particular. Você se identificou com esta situação?

Ao ver o parquinho, largou tudo e foi correndo em direção ao balanço, enquanto eu, resignado, repousava minha leitura no banco de cimento.

Ela subiu e segurou as cordas enquanto eu me posicionava às suas costas, pronto a empurrá-la. Foi quando, surpreendentemente, ela me disse:

– Não precisa me empurrar não, pai. Olha só! Eu aprendi a balançar sozinha!

Levei alguns instantes até me dar conta que eu não era mais necessário e fiquei ao seu lado, surpreso e com uma estranha mágoa. Ela reforçou minha nova situação e meu remorso.

– Pode sentar pai! Pode ler o seu jornal!

Surpreendido pela sua maturidade inesperada, lentamente me sentei ao lado do jornal, que permaneceu intacto.

– Olha pai como eu vou alto!

Fiz menção de me levantar e limitar sua liberdade porque temia pela sua integridade, mas me contive e me mantive em alerta para o caso de um acidente súbito. Aos poucos, fui relaxando e observando.

Que curioso! Quando eu a empurrava não percebia a beleza da brincadeira. Era um gesto tedioso e mecânico enquanto pensava nos problemas do trabalho, nas contas a pagar, nas notificações nervosas do smartphone e em todas as coisas que eu deixava de fazer para tão somente, empurrar. E agora que ela ganhara a independência, eu me sentia melancólico por não mais compartilhar de sua brincadeira…

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Então eu fiquei admirando ela subir e descer e ir para frente e para trás, em um gesto simples, mas eficiente com as pernas, e vi seus cabelos soltos balançando ao vento acompanhando a perspectiva variável chão-horizonte-céu-horizonte-chão.

Observei seus olhos cerrarem ao olhar para o céu brilhante contra o sol que franzia sua testa, e um delicioso sorriso surgir ao se perceber desafiando a gravidade quando raspava o chinelo no chão.

Como que entorpecido por um pêndulo, senti uma grande paz interior ao acompanhar o movimento inebriante, e senti que o tempo havia parado por alguns instantes em reverência à pureza infantil.

Foi então que me dei conta de que, através de uma simples brincadeira de balanço, minha filha havia aprendido a vencer seus medos, a ser independente e saber que sempre que a vida lhe empurrar para trás, ela usará suas próprias pernas para se superar e voltar a vencer sempre, para frente e para cima.

– Olha pai, como seu impulso me levou longe!

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Como me Preparei para Aceitar o Namorado da minha Filha

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Descobri que meu futuro genro é um roqueiro famoso. Seu nome é Justin, Justin Bieber. Minha filha de treze anos ficou noiva dele, mas ele ainda não sabe.

Pessoalmente fui comprar os ingressos quase seis meses antes e traduzi o cartaz que ela confeccionou com enorme carinho, por vários dias, onde o pede em casamento na esperança (certeza) que, dentre as milhares de jovens presentes na Praça da Apoteose, ele aceitasse o convite, e se casasse com ela. Como num filme da Disney.

Levar ao show? Bem, deixei esta honra para a mãe.

Posters na parede e no armário (Não! No teto não!), revistas, álbuns de figurinhas, livros, videoclipes, especiais sobre a vida deles, gritinhos e suspiros, muitos suspiros apaixonados. Este é o perfil de uma pré-adolescente apaixonada por um ídolo.

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A maneira como os pais lidam com a idolatria juvenil varia muito. A maioria simplesmente ignora, acha bobeira, frescura ou criancice. Eu resolvi levar a sério e passei a tratar o assunto como uma espécie de estágio para quando a paixão for por alguém bem menos famoso, ainda que saiba tocar guitarra.

Sei que, cedo ou tarde, isso vai acontecer, e aí então, a menina que hoje ADORA o abraço do pai, estará abraçando um sujeito cheio de espinhas, quem sabe cabeludo, com aparelho nos dentes e de sandália havaiana no meu sofá.

É preciso estar preparado para isso!

Ao aceitar e até de certa forma incentivar esta idolatria (não, eu não permiti que ela acampasse na entrada da Praça da Apoteose), estou amadurecendo o meu coração para o ciúme que virá. E virá!

– Pai, esse é o Bruninho. A gente tá ficando. Ele tem uma banda.

O aperto de mão, olhos nos olhos, durou muito mais do que o Bruninho gostaria e muito menos do que eu precisava para perceber que o estágio com o roqueiro Bieber não havia sido suficiente. Mas pelo menos deixou a mão dele dolorida por um bom tempo.

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É claro que sentimos ciúmes da nossa filha! Todo pai sente. E nem sempre nos esforçamos em disfarçar. Procuramos ser sociais, afáveis, conversar sobre assuntos em comum. Deus sabe como é difícil…

Se torcer pelo mesmo time, é um alento!

Se tiver o mesmo gosto musical, uma dádiva!

Se além de tudo isso, ainda tiver bom caráter, for estudioso e educado, um milagre! E eu incentivo o noivado.

Alguns até se esforçam para agradar “o tio”, “o coroa”, “o sogrão”. Alguns, poucos, conseguem.

Não vou negar: dói demais ver sua filha beijando outro homem que não seja eu mesmo. Pode até parecer egoísmo, possessividade ou imaturidade. Mas é só ciúme de pai em sua forma mais ingênua.

E aí vem o grande dilema: dar as costas pode ser tudo que eles querem.

Por tudo isso, precisamos treinar antes. E os ídolos, ainda que inacessíveis, intocáveis e inviáveis, ajudam ambos a amadurecer e a lidar com esta dolorosa divisão do coração. Vê-la em prantos, sem comer e sem dormir porque soube que seu “noivo” está namorando outra que não ela é tocante, mas a vida vai mostrar que esta experiência poderá ser valiosa mais tarde.

Com o tempo, ela aprenderá a distinguir a fantasia da realidade e a aprender que o amor é grandioso e pode assumir múltiplas faces, separando os sentimentos pelo pai daqueles que a fazem mulher.

Alguém sabe se ainda tem ingressos para o show de hoje à noite?

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Quem Escolhe o Time do Meu Filho Sou Eu!

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A decisão que leva um casal a ter um filho envolve muita reflexão, contas e um consenso absoluto. A decisão do time que ele vai torcer, ao contrário, é imediata, unilateral e acontece antes mesmo que ele exista ou tenha uma consciência.

Amigos, familiares e colegas de trabalho tentarão de todas as formas que o bebê tenha outro time, que não o de seu pai. E farão uso de métodos baixos, como dar de presente roupinhas fofinhas, toalhinhas, mamadeiras, chupetas, uniformes completos e até mesmo chuteiras com a marca de times adversários.

– Mas você vai mesmo jogar fora o presente que seu irmão deu para nosso filhinho?!

– Claro que não. Usaremos como pano de chão!

Um pai deve se imbuir do espírito de um guerreiro samurai para revidar toda e qualquer tentativa de mudar o time que ELE escolheu, afinal, ELE detém todos os direitos e ELE tem a prioridade na escolha, porque não dá para esperar que a criança cresça e escolha. Pra que correr esse risco desnecessário?

Time é coisa sagrada, e é hereditário. É inconcebível que um filho tenha um time diferente daquele que faz o pai sorrir e sofrer.

Cheguei a incentivar que meu afilhado tivesse o mesmo time do pai mesmo sendo diferente do meu quando percebi que forças poderosas tentavam ele com um terceiro time. Claro que meu time é melhor, mas priorizei a harmonia entre pai e filho e o equilíbrio do Universo.

Afinal, como ir ao estádio de futebol com camisas diferentes e sentar em torcidas diferentes?

Como torcer contra o time do filho ou o time do pai em duelos diretos sem que haja estremecimento nas relações familiares?

Como zoar sem magoar a paternidade?

Levar o filho pela primeira vez ao estádio ver uma partida de futebol é algo incrível, mas requer um ritual e passa por um longo período de convencimento da mãe, que exige que nós:

1) Não iremos a jogos com grandes torcidas adversárias.

2) Não iremos sentar próximo à torcidas organizadas (recomenda-se ficar entre ela e a torcida adversária).

3) Não iremos desgrudar os olhos dele nem mesmo durante os lances de gol.

4) Não iremos nos envolver em qualquer tipo de tumulto. Nem mesmo ônibus cheio na volta do jogo.

5) Não iremos ensinar novas palavras que ele possa repetir durante os encontros familiares ou nas aulas de catecismo.

É óbvio que não vamos a um jogo contra um time que perdemos 7 em cada 10 partidas. Escolhemos um no qual a probabilidade de sairmos felizes seja imensa (veja bem, eu não disse grande). É questão de sobrevivência. Se o filho perceber que o time que seu pai torce vive sendo derrotado, goleado e massacrado pelos adversários, nada no mundo o convencerá de que deve ser fiel a ele. E o desgosto virá, e ele será amargo como um jiló.

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Assistir um jogo de futebol em um grande estádio, cantar junto o hino do time, abraçar nosso filho quando o time faz um gol, fazer selfies com o gramado no fundo, vestir o mesmo uniforme, comer um cachorro-quente da Geneal e sair do estádio com a multidão exaltando a vitória são momentos únicos, felizes e inesquecíveis. E não é privilégio de meninos não! As meninas curtem tanto quanto, e são torcedoras surpreendentes!

Mas não exagere: é normal que os filhos testemunhem momentos de euforia e depressão do pai por causa do resultado de um jogo. No entanto, eles precisam perceber que o pai aceita as derrotas como algo possível, e comemora as conquistas sem precisar ficar inconsciente por efeito do álcool. Isso passa uma imagem de equilíbrio, e eles serão o seu reflexo.

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Por tudo isso, quando ele já estiver com idade suficiente para dividir o sofá e a pipoca com você diante de um jogo de futebol do seu time, aja com a maturidade que for possível numa situação destas. Eles vão te imitar. Lembre-se sempre disso!

É sabido que o futebol, assim como os demais esportes, são práticas muito semelhantes à situações da vida real. As crianças aprendem desde cedo que às vezes se ganha e às vezes se perde. Que é bom demais vencer e comemorar, assim como é chato quando somos derrotados e ficamos tristes. Aprendem que quando alguém ganha, alguém perde. Que é preciso estar muito bem preparado para ganhar mais do que perder. E que perder não é o fim do mundo, mas um sinal de que é preciso mudar o que está errado, e voltar a vencer.

Claro que passar estas lições durante um jogo é algo inviável, pois as emoções estão exacerbadas. Mas use o futebol como referência quando ele for mal em uma prova, da mesma forma que quando realizar conquistas. No universo infantil, conseguir andar sem as rodinhas da bicicleta pode corresponder a ganhar uma Libertadores da América.

A torcida por um time de futebol é uma paixão! Compartilhar este sentimento com seu filho, sua paixão, eleva a paternidade a um nível de comunhão. Torça, mas torça muito com e pelo seu filho! Ambos ainda te darão muitas alegrias!

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