A Arte de Relaxar em um Hotel Fazenda

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Carnaval chegando, crianças e pais estressados, aulas recomeçando e pensamos: – Puxa, seria ótimo se fossemos para um hotel fazenda para dar uma relaxada! Juntei a família e planejamos quatro dias inesquecíveis de paz, tranquilidade e lazer. Bem, pelo menos foi o que planejamos.
Afinal, o que esperar de um hotel fazenda em uma cidade tão calma que as serestas cantadas por violeiros pelas ruas são a atração mais frenética?
Enfim, após dezenas de perguntas se já estávamos chegando, duas paradas de emergência na beira da estrada para atender a demandas inadiáveis do filho e quilos de farelos de biscoito até nos cantos mais inacessíveis do carro, finalmente chegamos às nossas férias relaxantes. Pensei comigo mesmo: Vai valer a pena!
Você sabe bem que uma viagem de carro com criança tem tanta aventura quanto um rally Paris-Dakar. Por isso mesmo, chegar a um lugar com tantas oportunidades de lazer após uma viagem estressante soa como encontrar uma churrascaria rodízio após um jejum de 24h. Tudo que queremos, é sossego!
Logo na recepção fomos recebidos por uma sorridente recepcionista, que nos mostrou em um cavalete a programação do dia seguinte:

Sábado

  • 08:00 – Alvorada FelizFomos acordados (de forma nada feliz) por um animador com um apito e uma corneta, dando sentido militar ao termo “Alvorada”.
  • 09:00 – Saída para a Trilha da FormigaMe iludi achando que o nome se relacionava a algo pequeno e rápido e não aos insetos predominantes no caminho.
  • 10:00 – Voleibol na areiaSimulei de forma descarada uma contusão antes do final do 1º set para pelo menos sair com a honra de pé.
  • 11:00 – Aulão de HidroginásticaUma verdadeira obsessão! A animadora com um maiô de bolinhas forrado de espuma despertou meu inconsciente e automaticamente encolhi a barriga.
  • 12:00 – Almoço com a Bateria do SalgueiroA gostosa comida do forno a lenha sacolejava em meu estômago como uma passista na Sapucaí.
  • 13:00 – Caça ao TesouroResume-se a uma correria louca atrás de algo que poucos sabem dizer exatamente o que é.
  • 14:00 – GincanaMomento em que ficamos sem um sapato, o cinto ou o relógio.
  • 15:00 – Corrida de saco / Ovo na colherSabe aquela foto que você não queria que aparecesse no Facebook?
  • 16:00 – Futebol de veteranosSeria ótimo se alguns “veteranos” já tivesse parado de jogar há mais de 20 anos.
  • 17:00 – Baile de CarnavalHora de vestir a camisa do time de coração e cair na folia.
  • 18:00 – Cavalgada pelo caminho históricoEsqueceram de dar comida para meu cavalo, que acabou empacado no capim da beira da estrada.
  • 19:00 – Jantar com o Circo do PimpãoPimpão não tem culpa, mas eu só queria um jantar romântico à dois…
  • 20:00 – BingoIndefectível,  onipresente e chato. Bem, pelo menos meu filho ganhou um abajur.
  • 21:00 – Passeio até o Portal da Cidade, com SerestaMuito agradável! Mas fiquei deprimido porque sabia cantar a maioria das músicas.
  • 22:00 – Término das atividades de hojeAh! Sério? Agora que eu estava me animando?
Se isso foi no sábado, fiquei imaginando que na quarta só me restariam cinzas.

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Claro que adotei algumas estratégias para, digamos, driblar os animadores, como me esconder atrás das árvores, fingir dormir na rede à beira do lago, simular dor de cabeça ou simplesmente namorar. Eles entendiam e até estimulavam. – Aê Tiozão! Aproveita que nós cuida do filhote!
– Pai! Pai! Pai! Posso ir? O animador tá chamando!!!
– Pooooode filho… Vai láááá… E divirta-se!
– Mas… Você não vem, pai?!
– Vou sim… Depois… Bem depois…
Ele me olhava desapontado, o animador me olhava decepcionado e minha esposa me olhava incrédula.
Aí eu virava pro lado, fechava os olhos e balançava a rede.
Vocês podem me perguntar qual a vantagem de pagar tanto para ficar dormindo? Bem, o sossego não tem preço.
Superada a neura inicial do filho se perder no meio do mato, cair no lago ou ser pisoteado por uma vaca, passamos a curtir a natureza. E eles adoram! Ter espaço para correr, brincar, rolar sem as limitações de um playground, ter contato com animais que só conheciam quando saiam da panela e interagir com muitas crianças sob a coordenação de um animado animador é muito bom! Eles terminam o dia felizes e exaustos, prontos para dormir. O colo é lugar comum e eles nem se lembram como foram parar na cama.

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Para os pais, é um raro momento de tranquilidade para conversar, renovar o relacionamento e fazer planos. Pelo menos enquanto eles estiverem realizando atividades (ou seja, o tempo todo). Olhar nos olhos enquanto olhos treinados olham por nosso filho. Reduzir o ritmo, acalmar o espírito, perceber a respiração.
A natureza tem o mágico poder de recarregar nossas baterias e purificar nossa alma.
Impossível não ficar sereno após um bom cochilo na rede à beira de um lago.
Impossível permanecer estressado ao caminhar solitário por caminhos silenciosos.
Impossível não engordar depois de comer tanta comida saborosa, farta e caseira.
E assim, passado quatro dias, bate saudade antes mesmo de partir. Voltar à correria, à rotina, voltar ao cotidiano. É muito importante levar algo físico desses lugares: uma folha, uma pedra, um graveto…
Quando chegar em casa, deixe à vista, em um lugar de passagem, bem visível à todos.
Quando a vida estiver te levando como um trem que te carrega sem que saiba o porquê, como e nem para onde, pare e olhe para a lembrança que trouxe. Como por encanto, aqueles momentos serenos que passou no hotel fazenda voltarão à sua mente como um filme bom em que sua família atuou seguindo o roteiro original do Criador.
Mas, por favor, só não traga o apito do animador.

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O Inesquecível Primeiro Dia na Escola

boy-160168_960_720Foram meses e meses de pesquisa e peregrinação atrás de uma escola que fosse perfeita para nosso pequeno. Um lugar que reunisse qualidades e características tão variadas quanto o número de fraldas usadas no primeiro mês de vida.
Seria possível existir um lugar que tivesse:
  • Segurança
  • Professores pacientes, capazes e treinados
  • Acompanhamento de psicólogo
  • Projeto pedagógico
  • Alimentação adequada
  • Horário compatível com nossos afazeres profissionais
  • Espaço adequado para as atividades livres
  • Salas de aula bem iluminadas, arejadas e com poucos alunos
  • Bom preço
  • Material didático apropriado
  • Metodologia de ensino que não fosse nem rígida nem liberal demais
As entrevistas com as coordenadoras faziam parecer que cada escola visitada parecesse perfeita, mas felizmente a intuição e percepção materna reduziram o número para duas ou no máximo três.
Mas, enfim, a busca havia chegado ao fim! Encontramos a escola que mais se assemelhava aos nossos ideais, e é claro que tivemos de fazer vista grossa para certos aspectos antes considerados absolutamente relevantes para a escolha final.
De forma consciente, achamos até normal o escândalo que algumas crianças faziam para entrar na escola, se recusando veementemente a passar pelos portões como se representassem a passagem para uma dimensão habitada pelas figuras mais apavorantes do universo infantil.
Ignoramos também os gritos assustadores que vinham de uma sala de aula de artes sob o argumento nada convincente da coordenadora de que estavam ensaiando para uma pecinha de teatro da Bela e a Fera.
Fingimos que nem notamos a súbita e constrangedora entrada na sala da coordenadora de uma criança com os cabelos tomados de tinta verde de mãos dadas com uma professora à beira de um Rivotril.children-808664_960_720A expectativa era crescente à medida que se aproximava o primeiro dia de aula. A compra do material escolar sem faltar um item sequer (incluindo os quatro rolos de papel higiênico?!), e do uniforme com todos os itens possíveis, incluindo o casaco em pleno mês de fevereiro (“é que a sala tem ar-condicionado”).
Chegado o dia tão esperado, a memória da câmera quase se mostrou insuficiente para todos os registros: em casa, com os avós maternos, com os avós paternos, com os pais, com os padrinhos, no carro, na porta da escola… Tudo com o uniforme impecável, o cabelo sem um único fio desalinhado, o tênis alvo como a pele após o banho que removeu os encardidos mais persistentes.
Avisei meu gerente com uma antecedência de 15 dias que neste dia chegaria mais tarde, afinal tratava-se de um evento único, especial e inesquecível!
As crianças chorando à nossa volta, o imenso tumulto e falatório de famílias inteiras, a buzinação na rua devido à fila tripla de carros e o sinal estridente da escola chamando para a entrada não ajudavam em nada a diminuir sua apreensão, demonstrada pelo aperto de sua mão suada e de seu olhar franzido me questionando se a escola era mesmo tããããão legal como há meses tentávamos lhe convencer.children-602967_960_720Na porta da escola, o sinal tocou mais uma vez e o portão finalmente se abriu. Não pude conter a emoção quando o beijei e lhe desejei tudo que um pai pode querer para um filho que inicia uma vida escolar. Os olhos marejados, o choro contido, o nariz vermelho e a preocupação constante de não lhe passar ansiedade, medo ou qualquer outro sentimento que o fizesse temer o novo universo que agora surgia a sua frente.
Mil perguntas passavam pela minha mente: Como ele irá reagir? A tia será compreensiva com os seus mimos? Será que algum amiguinho irá lhe fazer mal? Será que ele irá chorar ou sentir falta dos pais? E se ele se machucar no recreio? E se esquecemos de algum material? E se…?
A angústia e a ansiedade atingiam seu grau máximo enquanto ele atravessava o portão da escola. Beijinhos e acenares simultâneos aos flashes de minha câmera se prolongaram até ele desaparecer de nossa vista, deixando-nos com um sentimento confuso de alívio e culpa.school-1665535_960_720

Mas o pirralho podia ao menos ter olhado pra trás!!!


 

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O que Deixará para o seu Filho e que não Poderá ser Vendido?

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Antes dos 50 anos não é comum um pai se preocupar com seu legado. Adquirimos bens ao longo de nossa vida que acabarão entrando no inventário. Mas o que não entrará, não poderá ser vendido e ainda assim será precioso para o seu filho?Que herança de sua vida quer deixar para eles? Como seus filhos vão se lembrar de você? Que recordações ficarão para sempre na memória deles? O que você está cultivando hoje e que só será colhido após a última estação?
 Ao longo da vida de seu filho você lhe dará muitos e muitos bens impermanentes, como brinquedos, eletrônicos e roupas. Também investirá na sua educação através de livros, escolas, cursos, viagens e cultura, cujo rendimento será obtido no momento oportuno.
Ao mesmo tempo, e desde os primeiros dias de vida, lhe ensinará um monte de coisas básicas, como andar, brincar, comer, falar, vestir-se e também lhe passará valores essenciais, como regras de comportamento, respeito, valores morais, educacionais e religiosos. Tudo isso combinado ao ambiente em que viverá, suas influências, experiências e o livre-arbítrio formarão o seu caráter e definirão as escolhas que nortearão a vida e o futuro do seu filho.
 Seria ótimo para nosso ego, mas nossos filhos não serão cópias de nossos ideais de vida. Serão bem melhores! Eles são extremamente críticos, e tem plena consciência do que eles não querem de jeito nenhum incorporar de seus ascendentes. Por outro lado (e só depois da adolescência), eles vão transparecer fortes sinais dos valores que você, como pai, externalizou. Não são valores que você explicitamente ensinou, mas aqueles que de fato praticou e foram silenciosamente testemunhados e absorvidos pela consciência deles.
Você é referência para eles. Se você se omitir nesse papel, eles buscarão referências em “outro pai”. A omissão custa caro.
 Quando a saudade amadurecer, e a lembrança do pai vier como brisa fresca em dia quente, seu filho, homem feito, quem sabe um pai como você, perceberá que seus ensinamentos estarão de tal forma impregnados e perpetuados nos seus genes que ele sem perceber, mas com muito orgulho, passará a contar às pessoas suas histórias, suas qualidades, suas conquistas, suas manias e esquisitices mas, sobretudo, seus valores mais valiosos.
 Seu legado será o reflexo de sua paternidade, e seu caráter será espelhado por eles.
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Como Pulsa o Coração de um Pai de Bailarina?

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No breu do teatro as primeiras notas de Rachmaninoff evocam memórias há muito esquecidas. E no foco da suave luz amarelada, bailarinas deslizam no palco em compassos coreografados de sutil beleza e emoção.

Vestem o mesmo figurino, usam o mesmo penteado e compartilham as mesmas idades de descobertas.

Ainda assim, da fila J, o pai da bailarina precisa de apenas uma fração de segundo para percebê-la, distinta do grupo, como se representasse um solo corajoso.

Sabia ser a quinta a se apresentar, mas ainda assim parecia surpreendido, o que de fato era verdade. Como essa menina cresceu rápido! Quanta paternidade já passou! Parece que foi ontem que a embalava em seus braços e agora, lá estava ela, a exercer lindos movimentos ondulatórios sobre os pés envoltos em sapatilhas de ponta, em maravilhosa harmonia.

E então ele se dá conta de registrar os momentos mágicos, pelo medo sem razão de esquecê-los. Filmar? Fotografar? Enquadrar as emoções. Sensibilizar a alma para mais tarde revelar as recordações em cores e nuances de lembranças da infância que baila.

As lentes da alma, embaçadas, buscam o foco na bailarina enquanto o piano da Rapsódia sobe à terceira oitava e a apresentação culmina em um momento único e decisivo. O silêncio súbito, o movimento suspenso e a luz forte que o faz despertar de um sonho bom.

Da platéia, o pai da bailarina, orgulhoso, aplaude de pé sua criação e sorri com emoção, enquanto ela, realizada, conclui imóvel o balé que pulsa em suas veias, e aquece o coração de seu pai.

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Veja aqui o vídeo da música de Rachamaninoff: “Rapsódia sobre um Tema de Paganini”

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Priorizando os Filhos (a Teoria do Pão de Forma)

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Desde o primeiro momento em que constatamos nossa paternidade entendemos que as prioridades são imediatamente transferidas para nossos filhos. E isso vale desde o nosso sono até a decisão de quem vai ficar com a casca do pão de forma. Você já passou por isso?

Você já precisou decidir entre assistir:

  • Campeonato Brasileiro ou Barney e seus Amigos?
  • Filme de ação com gritos, barulhos e violência ou uma animação leve da Disney?
  • Sport TV ou Cartoon Network?
  • Discovery Channel ou Discovery Kids?

Você já teve de escolher entre dividir o edredom com a esposa ou compartilhar a cama de casal com um baixinho que acredita firmemente que há um “monstro” embaixo da caminha dele?

Você já observou casais com filhos pequenos em restaurantes? A menos que a criança esteja dormindo, nunca pai e mãe comem juntos. Um deles sempre está dando o colo, passeando ou brincando com o filho, enquanto o outro come. E então o casal troca. Ceder passa a ser uma coisa natural. E tudo bem!

Você, que já torrou no sol quando mais jovem e hoje não suporta mais o sol de meio dia na praia, fica empastelado de protetor, encolhido debaixo da barraca mas aceita ficar “só mais um pouquinho” porque, afinal de contas, “eles estão se divertindo tanto…”. Isso depois de abrir mão de sua caminhada na floresta em prol de uma praia disputadíssima: “Mas pai, você vai pro meio do mato num dia desses???!!!”. Difícil contra-argumentar…

Então você já sabe que junto com o filho vem o sentimento de culpa e uma vozinha na consciência que está constantemente nos cobrando mais participação, mais tempo juntos, mais partilha de nosso tempo em favor deles.

Temos que admitir que, no início ainda resistimos, mas ao perceber o quanto a mãe renuncia de forma incondicional, incontestável e absoluta a coisas que costumavam ser essenciais antes do nascimento, só nos resta ser solidário e procurar saber o resultado do futebol somente mais tarde, pela internet. held-by-his-father-this-infant-was-receiving-an-intramuscular-immunization-in-his-right-thigh-muscle-725x520

E isso é especialmente evidente quando eles ficam doentes. O foco passa a ser exclusivo para eles e somente a saúde deles nos interessa, nem que para isso tenhamos de ficar acordados até que a febre baixe, passemos horas aguardando o atendimento em hospitais em plena madrugada e larguemos tudo para leva-lo ao médico, fazer exames e tratar de sua saúde.

A verdade é que não há trabalho, não há estudo, não há nada no mundo que seja mais importante que cuidar deles.

O mais incrível é que assimilamos de tal forma esta priorização de interesses que, mesmo após eles terem crescido, se tornando adolescentes e jovens independentes, continuamos a colocar na balança as decisões banais do dia a dia.

Claro que passamos a disputar com mais determinação programas de TV, estações de rádio e o sabor de pizza, mas continuamos a abrir mão de horas de sono para pegar o filhote de madrugada em uma festa, deixamos de descansar à noite depois do trabalho para tirarmos suas dúvidas na escola e, ironicamente, acordamos antes da hora, para que eles não percam a hora.

Finalmente, é no alimento que esta renúncia se torna mais singular: se há dúvida se a porção que resta dá para dividir, inventamos uma desculpa, dizemos que estamos sem fome ou de regime e a divisão sempre acaba sendo feita conscientemente de forma injusta para nós, pais.

A última fatia de pizza, o último pedaço de queijo, o último iogurte, o final do suco, a última fatia de presunto. Para todas essas situações, o mesmo discurso: “Pode comer filho! Papai não quer não.”

Daí a “Teoria do Pão de Forma”: Passamos a elogiar a casca: “até que é não é tão seca”, “se passar bastante manteiga fica bom”, “é mais saudável”. Tudo mentira! Mas não queremos que eles saibam que abrimos mão por eles. Iam ficar muito presunçosos e acabar achando que o mundo vai agir da mesma forma com eles, sempre. Não vai! Educamos para que disputem e conquistem a sua parte. Com ética, honestidade e caráter, mas que conquistem o essencial do pão de forma de suas relevantes vidas!

Priorizar os filhos é, portanto, a forma mais prática de demonstrar o amor que sentimos por eles.

 

P.S.: Eu soube por um pai, amigo meu, que se juntar as duas cascas com requeijão fica uma delícia!

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Como um Pai se Prepara para ser Avô?

family-1827369_960_720Resolvi que já estava na hora de retomar a academia, abandonada após longos anos. Durante a entrevista com a professora veio a pergunta óbvia:

– Qual o seu objetivo em entrar para uma academia de ginástica?

– Conhecer os meus netos! – Respondi.

Mas isso foi há muitos anos. Hoje quero não só conhecê-los, mas brincar com eles. E para isso precisarei de muita saúde!

Por conta disso nós, pais, nos poupamos de certos riscos e adotamos o salmão, o tomate e o vinho tinto como símbolos de uma terceira idade saudável.

Não pretendo ser um idoso que nem consegue pegar um neto no colo. Quero ter joelhos fortes para estar à altura de suas brincadeiras e ombros resistentes para suportar o pequeno em sua antevisão superior do mundo.grandpa-1734273_960_720Quero poder andar de bicicleta ao seu lado e rolar pela grama molhada em cumplicidade moleque.

Quero ter bons ouvidos para ouvi-lo me chamar de vovô, como desejei um dia que me chamassem de papai.

Quero, enfim, enxergar com clareza meu neto crescer e se parecer comigo, como a constatar a perpetuação de meus cansados genes.

Quero, acima de tudo, passear com o neto, ao lado de uma vovó “enxuta”, em comunhão do sentimento de dever realizado.

Para isso preciso me cuidar, malhar e abandonar os exageros da juventude. É um preço justo.

Ter a alegria de recriar, com a experiência e a sabedoria de já ter realizado, e sem as neuras comuns da paternidade.

É claro que os avós mimam os netos! E o fazem não porque querem “estragá-los”, mas porque desejam reviver as alegrias da criação sem a responsabilidade da educação.

Com os netos, o ciclo se fecha, e o homem encontra sua razão paterna.


Sozinho na varanda, vivia o momento do vácuo da paternidade, quando a referência do pai passa a ser uma lembrança e a vivência como pai ainda é esperança. Vasculhava o céu em busca de sinais que acalentassem a dor dentre as milhões de estrelas, mas só recebia em troca o silêncio da noite morna.

E de todos os seus ensinamentos, um deles muito simples me veio à memória, de nossas muitas conversas sobre o espaço.

– Quando olhar para o céu e o astro piscar é porque é uma estrela, senão, é um planeta.

De repente, vi surgir muito longe um avião em rota inesperada, e resolvi acompanhá-lo rasgando o espaço. Ao ocultar um planeta, este momentaneamente, piscou. Era o sinal que procurava para entender que o pai que eu perdera estava vivo em minhas memórias, em minhas experiências e em minha vida. E tudo que ele me ensinou será devolvido para o filho crescente, que ainda amadurece no ventre da mãe. E este terá muito orgulho do Vô, que não conhecerá, mas que aprenderá a admirar apenas com a lembrança, o orgulho e a saudade viva no coração de seu futuro pai.

No céu, as estrelas piscam eternas, como sentimentos hereditários.

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Porquê Deixamos de Ver Elefantes nas Nuvens?

clouds-801887_960_720– Pai, olha lá um elefante no céu!

Sem abrir os olhos, ciente do absurdo que minha filha descrevia, ignorei o chamado e continuei relaxado na cadeira da piscina. Mas ela insistiu:

– Olha lá: a tromba, o rabo, os olhinhos, a barriga…

Diante da insistência, arrisquei abrir um olho, teimando contra o sol que ofuscava, e a vi com o dedinho em riste para o céu, apontando para uma nuvem que ameaçava acabar com o meu domingo.

– Onde, filha?! Perguntei envergonhado por não enxergar nada além de uma cumulus-nimbus, indicação de chuva à tarde.

– Você não ta vendo, pai? Perguntou ela com uma ponta de impaciência e indignação.

– Éééé… tôôô. Mas ela percebeu minha mentira, botou as mãos na cintura e apontou novamente para o céu, já um tanto braba comigo.

– Você demorou tanto para olhar que agora o elefante virou um dinossauro!!!

– Virou mesmo?!

– É! Olha lá! Olha o fogo saindo de sua boca!

Com as mãos protegendo os olhos do sol fiquei olhando por longos minutos para o céu ao lado de minha filha tentando lembrar em que momento de minha vida havia perdido a capacidade de fantasiar, de enxergar o que não é real, de imaginar e expressar a inocência.

Que acontecimentos foram lentamente deixando para trás o ilógico e o lúdico, tornando-me um ser racional?

Assim como as nuvens, todos nós nos transformamos com o tempo, moldados pelos ventos, ora em uma direção, ora em outra, ora ascendente, ora descendente. Por vezes, apenas uma brisa, que lentamente muda nosso ser, dando-nos tempo para a percepção do sentido a ser tomado, mas muitas outras, são fortes ventos que nos arrastam a novos caminhos, sem escolha, vontade e reação.

Passamos ao longo da vida por algumas tempestades, que acabaram por dissolver as nuvens de nossa existência em lágrimas de chuva. Mas o Sol sempre volta. Sempre volta.

sky-802072_960_720Assim, após muitos anos, de ciclos ininterruptos de Sol, vento e chuva, nosso caráter se molda e com ele nossa capacidade e forma de reagir a novos estímulos.

Não podemos controlar o tempo. A previsão é uma ciência inexata. A meteorologia da vida é imprevisível e não nos dá o direito de lamentar a chuva quando tudo o que queríamos era o Sol. A maturidade do tempo nos ensina a aceitar as mudanças, inevitáveis. Não há por que lamentar a trovoada que anuncia a chuva forte, da mesma forma que devemos agradecer, sempre, quando há Sol.

Os ventos trazem os desígnios, e não nos cabe nos desviar porque não sabemos de onde, nem porque eles começaram a se formar, tampouco aonde eles irão nos levar.

Olhando para minha filha, olhinhos apertados para o céu, entendi onde o tempo me mudou, e focando novamente o céu pude distinguir nas formas de uma nuvem passante, a tradução da origem dos ventos:

– Olha lá filha, um anjinho lá no céu! As asas, a auréola… Mas quando a olhei novamente, ela já havia pulado na água e se esbaldava, espalhando água e infância para todos os lados. Silenciosamente, a agradeci pelos respingos da criança que fui.

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Se você não conseguiu ver um elefante na primeira foto, veja abaixo a legenda:

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A Magia da Inocência que Brota da Fantasia do Natal

img_20161217_150713250Um mundo encantado havia sido construído no centro do Shopping e dele brotava uma magia inconfundível que me fez parar para observar. Pousei cuidadosamente as compras no chão e passei a captar o que se passava naquela decoração de Natal repleta de crianças iluminadas.

Era de fato um mundo à parte. Alheio ao grande tumulto a sua volta, com pessoas estressadas esbarrando suas sacolas e seus ombros em uma fúria consumista e alienada à fantasia do Natal.

Crianças surgiam e desapareciam nas janelas com seus olhinhos brilhantes se misturando às milhares de lâmpadas coloridas, enquanto os pais regressavam a um tempo esquecido.

No meio de tudo, sobre um trono, estava ele: o símbolo máximo da inocência. Enquanto umas crianças faziam fila para eternizar o momento, outras olhavam desconfiadas e mantinham uma distância segura da figura enigmática, capaz de realizar desejos para atender a todos os pedidos durante o sono e inexplicavelmente ainda tinha uma enorme paciência e coragem de expor uma inocência que luta para não desaparecer.

Lamentei por um instante não ter uma boa desculpa para segurar as mãos adolescentes e me envolver na fantasia. Que pena que minha infância não pode esperar a sofisticação do encantamento…

Na televisão a repórter experiente, percebendo a emoção transbordante da avó diante do esplendor de uma decoração natalina faz a pergunta óbvia:

– O que essa decoração lhe faz lembrar?

A senhora, pensou por um instante, uma mão estendida para a magia e a outra pousada no coração, com o olhar distante, respondeu:

– Aaah minha filha… Lembra o meu tempo, a minha mocidade, a minha infância…

E retornou a mirar as luzes embaçadas com as saudades distantes.

A magia da inocência vive silenciosamente em cada um de nós à espera de emoções que nos despertem do sono no exato momento em que os presentes são deitados aos pés da árvore de toda nossa vida. Dentro deles não há mais brinquedos, mas guardam o mais puro amor infantil, capaz de espalhar a pureza no ar que respiramos e que suportará a nossa vida quando o Natal já tiver terminado.

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Como me Tornei Ator Involuntário de Peças Infantis?

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Imagino que as peças teatrais infantis devam ter a assessoria de um psicólogo, pedagogo, ou mesmo alguém que conheça o fascinante universo infantil de fantasias e mistérios para traduzir para os pequeninos a magia de contos de fadas inesquecíveis.

Imagino também que os autores, cenógrafos e músicos de tais peças devam imaginar que a maioria dos pais que assistem às apresentações com os filhos, não tiveram a chance de assistir esta tradução dos valores lúdicos em mundo de cores e sons em sua tenra idade.

Imagino, portanto, que deve ser por isso que é quase inevitável que tenhamos que pagar micos de participação (totalmente) involuntária, seja atuando como uma árvore frondosa, seja imitando um galo despertando, seja se arrastando como cobra pelo palco, enquanto os olhinhos faiscantes da criançada, fascinados, vêem os seus pais transpor o mundo real, do adulto, para um mundo de faz-de-conta, para em seguida voltar corados como se tivessem sido maquiados para fazer o papel de tomate sorridente, num misto de orgulho (deles) e constrangimento (nosso).

Assisti a diversas peças infantis e sempre tomei o cuidado para sentar atrás de alguém bem acima do peso ou muito alto, e sempre longe das laterais. Mas eles quase sempre me achavam…

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Com o tempo adotei algumas estratégias para não participar do maravilhoso mundo das artes cênicas, como colocar a caçula no colo, jamais ir a teatro vazio e demonstrar impaciência, tédio e aborrecimento. Sorrir e bater palmas, nem pensar! Isto significava assinar um atestado símio que dispensava apresentações e convencimentos, pois lá do palco já descia saltitante um dos três porquinhos me puxando pela mão para se esconder com ele do lobo mau.

Muitas vezes o comum temor dos filhos pelos personagens era maior do que o meu, o que os fazia esconder o rosto de pavor. Eu os entendia. Eu os entendia…

O maior mico que já paguei foi em uma peça infantil sobre Graham Bell, na qual, é óbvio, após ter que engatinhar por entre tubos e atravessar portinholas onde o risco de ficar entalado era enorme, tive que subir ao palco e imitar um telefone tocando, em uma posição, digamos, um tanto quanto suspeita, enquanto observava na platéia os pais sobreviventes sorrirem nervosos, mas aliviados, porque não tinham sido escolhidos. Não daquela vez.

É claro que adquiri uma certa paranoia com relação à teatro e tremo até quando os atores caracterizados com os personagens me entregam na rua filipetas com descontos para a peça. Faço cara de antipático, pego os convites e os pulverizo antes que meus filhotes possam perceber que a Bela Adormecida usava piercing na língua.

Pode até parecer cruel e egoísta à primeira vista. Mas é só trauma.

Sei que isso deve ter terapia e eu vou superar, contanto que a psicóloga não dê consultoria à direção de peças infantis.

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A Perda de uma Paternidade Improvável (Michael e Eu)

029Por um bom tempo resisti à ideia de dar um bicho de estimação para as crianças. Mas o pretexto do aniversário da pequena, minha paixão por pássaros desde a infância e a possibilidade de ter um animal doméstico com a capacidade de interagir conosco, e sem a necessidade de ter que levá-lo para passear mesmo nas manhãs frias e chuvosas, me animaram.

Uma calopsita não é um animal qualquer. Sua carência deliciosa cativa até uma pedra. E escolhemos o mais carente de toda a loja. Carente e com uma característica muito peculiar: sua mania em andar para trás. Foi inevitável a comparação com Moonwalk, daí o seu nome de batismo: Michael Jackson, Maiquel, nosso Maiquinho.

Maiquinho era de fato um bichinho adorável. Capaz de viver livre fora da gaiola, interagia e participava da vida familiar como se as grades de sua gaiola fossem as paredes da minha casa.

A doença grave detectada no seu primeiro exame com a veterinária que eu, em um tremendo ato falho, insistia em chamar de pediatra, acentuou ainda mais o paternalismo improvável entre nós. A comparação era inevitável: dar colo, remédio na boca, ninar para dormir e para parar de chorar e até limpar suas “fraldas”. Tudo isso já havia ficado para trás há um bom tempo. Que saudades…

Recebi da veterinária a notícia de sua cura com uma alegria e um alívio imensos, como se um filho tivesse se curado de uma longa febre, e cada vez mais fui cativando e sendo cativado por aquele ser amarelinho, peludo e carente.

Com o tempo, ele aprendeu a piar seu próprio nome, e é claro que utilizava este talento para nos chamar sempre que precisava de algo: frio, calor, fome, vento ou simplesmente colo. Uma deliciosa chantagem emocional.

Sem me dar conta, estava criando novamente um “bebê”, e isso me dava muita alegria.

Maiquinho também fazia suas malcriações. Uma calopsita rói tudo que vê pela frente: móveis, livros, fios, praticamente tudo. E tínhamos que tomar conta para que não colocasse nenhuma besteira na boca. Alguma semelhança?

Adorava banho, ouvir música, dormir deitado no meu peito, assistir TV no meu ombro, aconchegar-se sobre a cabeça, cantar… Como cantava bonito nosso Maiquinho!

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Um dia ele acordou diferente: calado, deprimido, sem apetite. Parecia ter regredido à sua infância. Aos poucos recuperou a energia, a disposição e finalmente o canto, mas não repetia mais o próprio nome com aquele jeito tão gostoso.

E então aconteceu de repente: esperou todos saírem e em menos de dez minutos seu canto se silenciou para sempre. Minha esposa já o encontrou inerte, no chão da gaiola, sem vida, e desesperou-se! Ao chegar em casa e encontrá-la em prantos, rapidamente entendi o que havia acontecido. A gaiola coberta pelo paninho, que o aquecera nas noites frias, e um enorme silêncio gritavam a sua ausência. Vê-lo morto arrancou de mim uma tristeza imensa, enquanto a ternura parecia evaporar-se, abraçada à sua pequena alma pura.

No pequeno quarto, de joelhos, agasalhei inutilmente o corpinho de Maiquinho, pois o inverno continuaria frio mesmo com a chegada da primavera. Junto ao seu corpo, encostei os brinquedinhos que o acalentavam ao dormir e o embalei com a minha tristeza molhada.

Atrás de mim, em pé, as crianças em silêncio tentavam assimilar e aceitar a perda inesperada de seu amiguinho, enquanto uma dor pungente envolvia o ar que respirávamos.

Na solidão noturna do jardim, revolvi as plantas e o guardei carinhosamente sob a vigilância de uma margarida, sentinela da natureza.

Nunca imaginei que um ser não humano pudesse ocupar um espaço tão grande em meu humano coração…

No dia seguinte, pela manhã cedinho, um surpreendente filhote de bem-te-vi entrou em nossa varanda, e lá ficou por longo tempo cantando, como que espantando o silêncio incomum, como se tivesse sido enviado por um pequeno anjo acostumado com as suas asas, como que nos agradecendo por ter ajudado a prolongar sua breve vida. E assim, e por muitos dias seguidos, ele nos presenteou com sua visita.

De Michael ficou seu retrato na estante, a gratidão por ter alegrado nosso lar e uma saudade imensa do filho adotado e de profunda estimação.

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