Todo Pai Vira um Gato quando o Filho Some

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Filho a gente cria para o mundo! Quantas vezes você já ouviu isso quando demonstrou sinais de preocupação com a segurança deles?

Diferente do que se estabeleceu como verdade absoluta, os pais também sentem o sumiço dos filhos, mas insistem em preservar uma imagem de tranquilidade como forma de tentar equilibrar as relações familiares e assim dar serenidade à mãe, que expressa de forma mais aguda sua preocupação. Mas como um pai lida com esta bipolaridade?

Nos primeiros anos de vida do filhos, os pais se sentem seguros porque há uma notória dependência. Da fase do colo até a pré-puberdade, eles não vão a parte alguma sem que os pais saibam onde, que os pais levem ou que os pais busquem.

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Mas aí vem a puberdade e a adolescência e a tranquilidade desmorona. Passam a ir para a escola sozinhos, pegam transporte coletivo, táxi, van, carona, vão a inúmeras festas e nem sempre é possível você levar ou buscar e tampouco eles desejam isso.

Lembro que, na minha adolescência, a única forma de “comunicação móvel” era o Orelhão, com o agravante que não era possível ligar para ele e nem saber se estava perto de um, ao menos um que estivesse funcionando. A cartela de fichas do Orelhão era tão indispensável quanto a atual preocupação com a carga da bateria do celular.

Hoje, ter filhos em uma grande cidade requer estratégias quase militares, planos de contingência confiáveis e uma boa dose de equilíbrio emocional para segurar a barra de si, e da mãe.

Acontece da seguinte forma:

Antes deles saírem para uma balada você pede o contato de pelo menos dois amigos, checa a bateria do celular, se estão conseguindo fazer e receber ligações, combina uma hora para chegar em casa, deixa dois ou três telefones de cooperativas de táxi, checa documentos, dinheiro, coloca na carteira toda a sorte de símbolos religiosos, instala aplicativos de localização familiar, liga periodicamente para checar se está tudo bem e na hora combinada de chegar em casa, nada.

Você então, com uma leve apreensão, liga para ele, mas cai em caixa postal. Nervoso, liga para os dois contatos: um não atende e o outro fala sonolento que se desencontrou do seu filho, e inclusive já está em casa, dormindo. Corre para o localizador, que indica GPS desligado. Pânico! Começa então a ligar e a mandar mensagens para amigos que não estavam na lista inicial. Então, cria-se a RAPAI (“Rede de Apoio aos Pais Aflitos e Infartando”), que mobiliza famílias madrugada adentro tentando ajudar a localizar o jovem desaparecido. No desespero, você já começa a vasculhar o Twitter em busca de notícias sobre acidentes, e inevitavelmente, acaba achando, o que aumenta a aflição. Como um pai sábio e experiente, esconde da mãe para não piorar a situação.

O sentimento de impotência é dominante. O desânimo te dobra os ombos. A mãe começa a chorar e a lhe culpar. O Rivotril é teu maior aliado, mas você não aceita e se mantém frio, firme e calculista. Quase um James Bond em missão especial. As aparências enganam. Por dentro, pensamos no pior.

Aí, do nada, você escuta aquele som mágico e sublime da chave entrando na fechadura da sua porta, a maçaneta girando e seu filho entrando com a cara mais serena que a de um monge após meditar por horas e perguntar porquê, afinal, estamos acordados àquela hora?

Após a bronca descomunal, que ele julga exagerada, injusta e desnecessária, ele explica que emprestou o celular para um amigo (que não estava em nenhuma lista), se desencontrou dele e resolveu voltar de ônibus mesmo.

Mas como não imaginamos isso???!!!

Aí então ele vai para a cama dormir como um anjinho enquanto o alto nível de adrenalina em nosso corpo impede qualquer tentativa de uma soneca.

Isso explica o porquê de recebermos uma quantidade imensa de corações dos nossos filhos pequenos quando fazem trabalhos de arte na escolinha: assim como os gatos, a cada situação como esta, um coração se vai.

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O Penetra Justificável

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“Venha se divertir com muita música e brincadeiras. Deixe seu filho com nossos animadores às 17:00 e pegue às 21:00”.

O convite estava bem claro: não era permitida a entrada dos pais. Mas a angústia que sentimos toda vez que recebemos um convite nesses termos nos tira o sono e a paz.

Entendo que nem sempre é possível chamar todos os amiguinhos da escola, do prédio, da rua bem como parentes com os respectivos responsáveis.

Entendo que, sendo uma festa infantil, nada mais natural que somente crianças participem, além é claro dos parentes e amigos mais chegados.

Entendo também que crianças não estão nem aí para buffet de frios ou salgadinhos quentinhos e tampouco bebem cerveja.

Não se trata de discriminação, é pura necessidade.

Daí a opção natural pela festa “deixe agora e pegue depois”. Nada mais prático.

Mas como podemos confiar a responsabilidade de nossos pequenos à animadores (ainda que treinados e competentes) sem ao menos realizar uma, digamos, perícia técnica no local da festa, além de uma análise curricular seguido de entrevista e apurados testes psicológicos nos recreadores?

Pode parecer paranoia. E é.

Nesses casos, o melhor a fazer é dar uma desculpa nada convincente à dona da festa tipo:

– Nossa! Viemos de tão longe…

– É que ele acordou meio resfriadinho hoje…

– Vou ficar só um pouquinho para ver se ele não chora… (e ficar até o final)

– Ele não está acostumado a ficar sozinho…

E aí então entrar com o filho, sentar num canto discreto de onde você possa, ao mesmo tempo, ver a criança e ser visto pelos garçons. Tudo com um ar totalmente constrangido pelo “mico” e pelos olhares reprovadores dos eleitos a participarem do evento que condenam minha fraqueza, imaturidade e incapacidade de prover aos filhos responsabilidade, liberdade, auto-estima, e tantos outros sentimentos que eles necessitam para sobreviver em um mundo de competição selvagem, pleno de concursos de admissão, disputas ferozes pelo mercado de trabalho e até mesmo na escolha do time da pelada.

Mas ele só tem 3 aninhos!!!

Mas, oh não, supremo vexame, a dona da festa vem em minha direção e me pergunta com ar piedoso se estão me servindo e ainda pede ao garçom para me levar um pratinho com os salgadinhos, não sem antes me recomendar:

– Fique à vontade, viu?

Soa como sarcasmo, mas é apenas uma formalidade burocrática.

Bem, pelo menos o animador não irá me chamar para participar das brincadeiras..

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A Lição que o Balanço Ensinou para Minha Filha

girl-996635_960_720 Domingo de sol, descemos eu e minha filha ao play. Eu, otimista mais uma vez com a possibilidade remota de ler o jornal e ela com uma pilha de brinquedos, bonecas e coisas com sentido particular. Você se identificou com esta situação?

Ao ver o parquinho, largou tudo e foi correndo em direção ao balanço, enquanto eu, resignado, repousava minha leitura no banco de cimento.

Ela subiu e segurou as cordas enquanto eu me posicionava às suas costas, pronto a empurrá-la. Foi quando, surpreendentemente, ela me disse:

– Não precisa me empurrar não, pai. Olha só! Eu aprendi a balançar sozinha!

Levei alguns instantes até me dar conta que eu não era mais necessário e fiquei ao seu lado, surpreso e com uma estranha mágoa. Ela reforçou minha nova situação e meu remorso.

– Pode sentar pai! Pode ler o seu jornal!

Surpreendido pela sua maturidade inesperada, lentamente me sentei ao lado do jornal, que permaneceu intacto.

– Olha pai como eu vou alto!

Fiz menção de me levantar e limitar sua liberdade porque temia pela sua integridade, mas me contive e me mantive em alerta para o caso de um acidente súbito. Aos poucos, fui relaxando e observando.

Que curioso! Quando eu a empurrava não percebia a beleza da brincadeira. Era um gesto tedioso e mecânico enquanto pensava nos problemas do trabalho, nas contas a pagar, nas notificações nervosas do smartphone e em todas as coisas que eu deixava de fazer para tão somente, empurrar. E agora que ela ganhara a independência, eu me sentia melancólico por não mais compartilhar de sua brincadeira…

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Então eu fiquei admirando ela subir e descer e ir para frente e para trás, em um gesto simples, mas eficiente com as pernas, e vi seus cabelos soltos balançando ao vento acompanhando a perspectiva variável chão-horizonte-céu-horizonte-chão.

Observei seus olhos cerrarem ao olhar para o céu brilhante contra o sol que franzia sua testa, e um delicioso sorriso surgir ao se perceber desafiando a gravidade quando raspava o chinelo no chão.

Como que entorpecido por um pêndulo, senti uma grande paz interior ao acompanhar o movimento inebriante, e senti que o tempo havia parado por alguns instantes em reverência à pureza infantil.

Foi então que me dei conta de que, através de uma simples brincadeira de balanço, minha filha havia aprendido a vencer seus medos, a ser independente e saber que sempre que a vida lhe empurrar para trás, ela usará suas próprias pernas para se superar e voltar a vencer sempre, para frente e para cima.

– Olha pai, como seu impulso me levou longe!

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Como me Preparei para Aceitar o Namorado da minha Filha

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Descobri que meu futuro genro é um roqueiro famoso. Seu nome é Justin, Justin Bieber. Minha filha de treze anos ficou noiva dele, mas ele ainda não sabe.

Pessoalmente fui comprar os ingressos quase seis meses antes e traduzi o cartaz que ela confeccionou com enorme carinho, por vários dias, onde o pede em casamento na esperança (certeza) que, dentre as milhares de jovens presentes na Praça da Apoteose, ele aceitasse o convite, e se casasse com ela. Como num filme da Disney.

Levar ao show? Bem, deixei esta honra para a mãe.

Posters na parede e no armário (Não! No teto não!), revistas, álbuns de figurinhas, livros, videoclipes, especiais sobre a vida deles, gritinhos e suspiros, muitos suspiros apaixonados. Este é o perfil de uma pré-adolescente apaixonada por um ídolo.

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A maneira como os pais lidam com a idolatria juvenil varia muito. A maioria simplesmente ignora, acha bobeira, frescura ou criancice. Eu resolvi levar a sério e passei a tratar o assunto como uma espécie de estágio para quando a paixão for por alguém bem menos famoso, ainda que saiba tocar guitarra.

Sei que, cedo ou tarde, isso vai acontecer, e aí então, a menina que hoje ADORA o abraço do pai, estará abraçando um sujeito cheio de espinhas, quem sabe cabeludo, com aparelho nos dentes e de sandália havaiana no meu sofá.

É preciso estar preparado para isso!

Ao aceitar e até de certa forma incentivar esta idolatria (não, eu não permiti que ela acampasse na entrada da Praça da Apoteose), estou amadurecendo o meu coração para o ciúme que virá. E virá!

– Pai, esse é o Bruninho. A gente tá ficando. Ele tem uma banda.

O aperto de mão, olhos nos olhos, durou muito mais do que o Bruninho gostaria e muito menos do que eu precisava para perceber que o estágio com o roqueiro Bieber não havia sido suficiente. Mas pelo menos deixou a mão dele dolorida por um bom tempo.

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É claro que sentimos ciúmes da nossa filha! Todo pai sente. E nem sempre nos esforçamos em disfarçar. Procuramos ser sociais, afáveis, conversar sobre assuntos em comum. Deus sabe como é difícil…

Se torcer pelo mesmo time, é um alento!

Se tiver o mesmo gosto musical, uma dádiva!

Se além de tudo isso, ainda tiver bom caráter, for estudioso e educado, um milagre! E eu incentivo o noivado.

Alguns até se esforçam para agradar “o tio”, “o coroa”, “o sogrão”. Alguns, poucos, conseguem.

Não vou negar: dói demais ver sua filha beijando outro homem que não seja eu mesmo. Pode até parecer egoísmo, possessividade ou imaturidade. Mas é só ciúme de pai em sua forma mais ingênua.

E aí vem o grande dilema: dar as costas pode ser tudo que eles querem.

Por tudo isso, precisamos treinar antes. E os ídolos, ainda que inacessíveis, intocáveis e inviáveis, ajudam ambos a amadurecer e a lidar com esta dolorosa divisão do coração. Vê-la em prantos, sem comer e sem dormir porque soube que seu “noivo” está namorando outra que não ela é tocante, mas a vida vai mostrar que esta experiência poderá ser valiosa mais tarde.

Com o tempo, ela aprenderá a distinguir a fantasia da realidade e a aprender que o amor é grandioso e pode assumir múltiplas faces, separando os sentimentos pelo pai daqueles que a fazem mulher.

Alguém sabe se ainda tem ingressos para o show de hoje à noite?

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Quem Escolhe o Time do Meu Filho Sou Eu!

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A decisão que leva um casal a ter um filho envolve muita reflexão, contas e um consenso absoluto. A decisão do time que ele vai torcer, ao contrário, é imediata, unilateral e acontece antes mesmo que ele exista ou tenha uma consciência.

Amigos, familiares e colegas de trabalho tentarão de todas as formas que o bebê tenha outro time, que não o de seu pai. E farão uso de métodos baixos, como dar de presente roupinhas fofinhas, toalhinhas, mamadeiras, chupetas, uniformes completos e até mesmo chuteiras com a marca de times adversários.

– Mas você vai mesmo jogar fora o presente que seu irmão deu para nosso filhinho?!

– Claro que não. Usaremos como pano de chão!

Um pai deve se imbuir do espírito de um guerreiro samurai para revidar toda e qualquer tentativa de mudar o time que ELE escolheu, afinal, ELE detém todos os direitos e ELE tem a prioridade na escolha, porque não dá para esperar que a criança cresça e escolha. Pra que correr esse risco desnecessário?

Time é coisa sagrada, e é hereditário. É inconcebível que um filho tenha um time diferente daquele que faz o pai sorrir e sofrer.

Cheguei a incentivar que meu afilhado tivesse o mesmo time do pai mesmo sendo diferente do meu quando percebi que forças poderosas tentavam ele com um terceiro time. Claro que meu time é melhor, mas priorizei a harmonia entre pai e filho e o equilíbrio do Universo.

Afinal, como ir ao estádio de futebol com camisas diferentes e sentar em torcidas diferentes?

Como torcer contra o time do filho ou o time do pai em duelos diretos sem que haja estremecimento nas relações familiares?

Como zoar sem magoar a paternidade?

Levar o filho pela primeira vez ao estádio ver uma partida de futebol é algo incrível, mas requer um ritual e passa por um longo período de convencimento da mãe, que exige que nós:

1) Não iremos a jogos com grandes torcidas adversárias.

2) Não iremos sentar próximo à torcidas organizadas (recomenda-se ficar entre ela e a torcida adversária).

3) Não iremos desgrudar os olhos dele nem mesmo durante os lances de gol.

4) Não iremos nos envolver em qualquer tipo de tumulto. Nem mesmo ônibus cheio na volta do jogo.

5) Não iremos ensinar novas palavras que ele possa repetir durante os encontros familiares ou nas aulas de catecismo.

É óbvio que não vamos a um jogo contra um time que perdemos 7 em cada 10 partidas. Escolhemos um no qual a probabilidade de sairmos felizes seja imensa (veja bem, eu não disse grande). É questão de sobrevivência. Se o filho perceber que o time que seu pai torce vive sendo derrotado, goleado e massacrado pelos adversários, nada no mundo o convencerá de que deve ser fiel a ele. E o desgosto virá, e ele será amargo como um jiló.

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Assistir um jogo de futebol em um grande estádio, cantar junto o hino do time, abraçar nosso filho quando o time faz um gol, fazer selfies com o gramado no fundo, vestir o mesmo uniforme, comer um cachorro-quente da Geneal e sair do estádio com a multidão exaltando a vitória são momentos únicos, felizes e inesquecíveis. E não é privilégio de meninos não! As meninas curtem tanto quanto, e são torcedoras surpreendentes!

Mas não exagere: é normal que os filhos testemunhem momentos de euforia e depressão do pai por causa do resultado de um jogo. No entanto, eles precisam perceber que o pai aceita as derrotas como algo possível, e comemora as conquistas sem precisar ficar inconsciente por efeito do álcool. Isso passa uma imagem de equilíbrio, e eles serão o seu reflexo.

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Por tudo isso, quando ele já estiver com idade suficiente para dividir o sofá e a pipoca com você diante de um jogo de futebol do seu time, aja com a maturidade que for possível numa situação destas. Eles vão te imitar. Lembre-se sempre disso!

É sabido que o futebol, assim como os demais esportes, são práticas muito semelhantes à situações da vida real. As crianças aprendem desde cedo que às vezes se ganha e às vezes se perde. Que é bom demais vencer e comemorar, assim como é chato quando somos derrotados e ficamos tristes. Aprendem que quando alguém ganha, alguém perde. Que é preciso estar muito bem preparado para ganhar mais do que perder. E que perder não é o fim do mundo, mas um sinal de que é preciso mudar o que está errado, e voltar a vencer.

Claro que passar estas lições durante um jogo é algo inviável, pois as emoções estão exacerbadas. Mas use o futebol como referência quando ele for mal em uma prova, da mesma forma que quando realizar conquistas. No universo infantil, conseguir andar sem as rodinhas da bicicleta pode corresponder a ganhar uma Libertadores da América.

A torcida por um time de futebol é uma paixão! Compartilhar este sentimento com seu filho, sua paixão, eleva a paternidade a um nível de comunhão. Torça, mas torça muito com e pelo seu filho! Ambos ainda te darão muitas alegrias!

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Febre Infantil: A Angústia da Paternidade

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39.1º “bip” 39.2º “bip”, 39.3º “bip” 39.4º “bip” 39.4º “bip” 39,4º “bip bip bip”. Por um tênue instante fiquei aliviado pelos três bips. Tempo suficiente para perceber que a temperatura ainda era muito alta. Garganta? Sarampo? Manchas pelo corpo? Tosse? Palidez? Você já passou por esta situação?

– Encosta a cabecinha no peito, filha!

Por que sempre passa pela nossa cabeça que a virose que o médico falou ao telefone seja o de uma doença quase sempre fatal?

A angústia em encontrar uma razão para uma febre repentina ao mesmo tempo em que buscava ter calma e equilíbrio emocional para encontrar uma solução que trouxesse a saúde de volta o mais rápido possível, me dava forças para proteger e curar a cria, como se lutasse pela minha própria vida. Família!

Os olhinhos caídos, a boca trêmula e a falta do sorrisinho desdentado anunciavam melancolicamente a chegada da noite. Reter sua testa enquanto seu estômago revolto expulsava o remédio amargo duramente engolido me fez voltar à infância e perceber como este gesto era de evidente paternidade. Eu estava agora “do outro lado”, enquanto meu pai observava de muito longe a repetição da lição aprendida enquanto cuidava da neta que não pôde abraçar.

As minhas brincadeiras patéticas arrancaram dela um sorriso débil (além de um comentário jocoso do enciumado irmão mais velho), mas foram insuficientes para dissolver o aperto no meu coração.

Ajudar um ser tão frágil, que não sabe ainda expressar seus sentidos expõe nossa impotência, inexperiência e potencializa o medo de errar com quem mais amamos. É preciso ser humilde e pedir ajuda a quem já experimentou e, fundamentalmente, ao seu pediatra. Você pode até ficar receoso de acordá-lo no meio da noite, mas com certeza ele voltará a dormir com a consciência dos abençoados.

Nessas horas difíceis, é absolutamente essencial que o casal se mantenha unido, se ajude e se apoie. Não há espaço para acusações, culpas ou remorsos. O único propósito consiste em cuidar do filho. E para isso o amor tem de superar todas as diferenças. Lembre-se dele quando a crise passar!hand-in-hand-1696833_960_720

Então, em um gesto de evidente ternura, fechei meus olhos e encostei minha bochecha na dela na suposição vazia de que poderíamos trocar calor e assim baixar sua febre, mas a sensação térmica me impulsionou a tirar novamente a temperatura: 39.7º. Não dava mais para esperar o antitérmico fazer o efeito desejado.

Corri e liguei o aquecedor às dez da noite mais fria do ano. Logo ela começou a chorar pelo frio que iria sentir e soluçou em pranto lento quando a pusemos em baixo do chuveiro. As lágrimas salgavam a água que corria sobre seu rosto quente enquanto meu espírito se enfraquecia, como se estivesse doando parte de minha luz a um ser que carece de compaixão. O amor mútuo se encarregará, mais tarde, de recarregar a alma esvaziada em favor de um filho.

Baixinho, pedi desculpas inúteis a ela pelo sacrifício que a impunha, mas ela não me deu atenção. Sentada no chão do box, a água morna caindo sobre seu corpinho encolhido, tremia sob o olhar atento e exausto da mãe sentada no bidê, aguardando que a febre fosse embora junto com a água, ralo adentro. Busquei uma bonequinha para que ela pudesse brincar, como forma de livrar minha consciência de uma culpa ao mesmo tempo improcedente e doída.

Em comunhão, pai e mãe revezavam o sono por toda a noite, vigilantes cansados, mas atentos de um filho carente de atenção e cuidados vitais. E nem mesmo a lembrança das obrigações profissionais ao amanhecer faziam sentido diante da responsabilidade maior e primordial de proteção.

Finalmente, tarde da noite, o calor do seu corpinho cedeu lugar a uma sudorese abundante. O gesto de trocar seu pijaminha encharcado por um seco e quentinho simbolizava a vitória da vida e o fim de uma luta contra um inimigo invisível, materializado por um termômetro inocente, mas perverso em suas oscilações térmicas de angústia e alívio.

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La La Land e o Discurso Ignorado que não será Esquecido

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Final do Oscar 2017: La La Land é escolhido o melhor filme! Comemorações, muita alegria, cumprimentos e três discursos de agradecimento. Opa! Parece que alguém se enganou. E Moonlight leva a estatueta pelo melhor filme, invertendo emoções: quem estava triste, fica feliz. Quem estava feliz, fica triste. Os demais ficam atônitos com tanta trapalhada. Mas, e os discursos pela efêmera conquista de La La Land? Ignorados? Ninguém se importa mesmo com eles?

Durante aqueles poucos minutos de euforia, o produtor de La La Land, Jordan Horowitz, fez um discurso emocionado onde agradeceu às pessoas que foram essenciais para que ele conseguisse seu feito. Em um dado momento disse: “Obrigado aos meus pais, por me apoiarem em minha escolha de seguir uma carreira artística, mesmo sabendo que é algo um pouco louco.”

Apesar das escolhas dos caminhos serem responsabilidade dos filhos, o apoio dos pais são relevantes para que eles tenham sucesso. Seguir uma carreira “mesmo sabendo que é algo um pouco louco” sem o incentivo paterno é como andar na neve de tênis: vai levar muitos tombos, terá muita dificuldade em seguir adiante e sentirá enorme dificuldade em se levantar quando estiver numa fria.

Pode até parecer presunção barata de pai, mas eles precisam de nossa força.

Por isto, elogiar, motivar, torcer, reconhecer, estar junto nas conquistas e nas derrotas é papel de todo pai.

Tive o hábito de oferecer pequenos troféus para meus filhos sempre que eles conquistavam algo importante para o universo deles. Claro que nem sempre eles seguirão na direção de suas pequenas grandes conquistas, senão o troféu que dei pelo ponto decisivo na conquista do torneio de basquete da 5ª série teria levado meu filho a disputar a Rio 2016, mas ele seguiu caminhos distintos, igualmente incentivados.

Mas como nós, pais e mães, vamos saber distinguir o que é loucura do que é um futuro promissor? Bem, podemos contar com a valiosa ajuda de profissionais em Orientação de Carreira, bom senso, experiência de vida e, fundamentalmente, da intuição materna. Acredite e confie nela!

Por detrás de todas as indicações de melhor filme, ator, atriz, música, roteiro, diretor, enfim de todas as categorias concorrentes ao Oscar, haviam pais orgulhosos de seus filhos na plateia do teatro, em suas casas diante da TV ou exercendo a fé em altares erguidos a cada desafio que a paternidade nos impõe. Em cada um deles, mais do que a conquista da estatueta, mais do que a fama, mais do que o dinheiro, o que realmente importava era a simples gratidão dos filhos pelos pais terem acreditado em suas crenças.

Por tudo isso, os pais de Jordan não se importaram tanto com a reversão do resultado final. Para eles, a cerimônia terminou no seu discurso, com a certeza de que o apoio que deram foi determinante para o sucesso de sua carreira. E que subam os créditos! jordan-la-la-land


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Do que são Feitos os Sonhos de uma Criança?

dragon-1712819_960_720Estávamos ambos exaustos quando o coloquei para dormir em sua caminha. Ele abraçou seus “amiguinhos” preferidos, organizou a selva de pelúcias, e já debaixo do cobertor fez o pedido cheio de chamego:

– Pai, conta uma historinha pra mim?

Observei os olhos carentes dele, cabecinha inclinada, suspirei fundo e concordei com um sorriso. No fundo, torcia por esse pedido.

Fui até a estante escolher um livro, mas ele já havia decidido.

– Conta a do “Pintinho Quiquiriqui”?

– De novo filho?!

Questionei sua preferência inquestionável jpgenquanto me perguntava de forma lógica qual a graça que tinha em ouvir uma história que já se conhecia quase de cor.

Deitei-me ao seu lado para que ele pudesse ao mesmo tempo ouvir e ver as gravuras, e iniciei a história.

Seus olhinhos atentos brilhavam com a magia do conto, enquanto sua imaginação descortinava cenários únicos de uma história recorrente.

A variação no tom e a musicalidade nas vozes, efeito decorrente de um curso de oratória que fiz com a finalidade de apresentar palestras, e que caíram como uma luva na narração de livros para crianças, davam autenticidade aos personagens e criavam o clima necessário para transpor para a realidade infantil o cenário quase sempre improvável.

Era como se o ambiente da história tivesse transbordado sobre a cama e os personagens ganhassem vida em uma realidade mágica, ingênua e inebriante, visível somente pelos olhos dos inocentes.

Dessa forma, o quarto se transformava em campos habitados por heróis e vilões, animais com hábitos e costumes ilógicos. Viajávamos a planetas desconhecidos povoados por príncipes ou princesas, e reis que habitavam em castelos cujos muros não respeitavam os limites das paredes do pequeno quarto.

Éramos cúmplices de romances, dramas e malvadezas de toda espécie. Sofremos juntos com os que estavam ao lado do bem quando o mal ameaçava vencer, e compartilhamos as alegrias quando os “moços feios” eram eliminados, muitas vezes com uma crueldade acintosa, ou será que não passaram da conta quando abriram a barriga do lobo mau e encheram de pedras para que ele afundasse no lago?

Todo o Universo permitido pela imaginação cabia no quarto do meu filho em uma singularidade poética.

Vencido aos poucos pelo sono, a voz de seu pai foi ficando cada vez mais distante, como se estivesse partindo em uma carruagem para um reino tão tão distante, e mais uma vez o pequeno não ouviu o conhecido final da história. Em seus sonhos, no entanto, a magia continuava. Nele, personagens se misturavam uns aos outros: seu pai agora era um príncipe e sua mãe, a princesa (sua irmã provavelmente era o dragão).

Em seus sonhos, não haviam mais limites e o enredo inconsciente produzia contos inimagináveis, cheios de fantasia e utopia. Ao acordar pela manhã, tudo já terá sido esquecido.

Na estante, no entanto, a magia aguardava a escolha do conto que alimentará à noite, o mais puro sonho infantil.

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A Arte de Relaxar em um Hotel Fazenda

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Carnaval chegando, crianças e pais estressados, aulas recomeçando e pensamos: – Puxa, seria ótimo se fossemos para um hotel fazenda para dar uma relaxada! Juntei a família e planejamos quatro dias inesquecíveis de paz, tranquilidade e lazer. Bem, pelo menos foi o que planejamos.
Afinal, o que esperar de um hotel fazenda em uma cidade tão calma que as serestas cantadas por violeiros pelas ruas são a atração mais frenética?
Enfim, após dezenas de perguntas se já estávamos chegando, duas paradas de emergência na beira da estrada para atender a demandas inadiáveis do filho e quilos de farelos de biscoito até nos cantos mais inacessíveis do carro, finalmente chegamos às nossas férias relaxantes. Pensei comigo mesmo: Vai valer a pena!
Você sabe bem que uma viagem de carro com criança tem tanta aventura quanto um rally Paris-Dakar. Por isso mesmo, chegar a um lugar com tantas oportunidades de lazer após uma viagem estressante soa como encontrar uma churrascaria rodízio após um jejum de 24h. Tudo que queremos, é sossego!
Logo na recepção fomos recebidos por uma sorridente recepcionista, que nos mostrou em um cavalete a programação do dia seguinte:

Sábado

  • 08:00 – Alvorada FelizFomos acordados (de forma nada feliz) por um animador com um apito e uma corneta, dando sentido militar ao termo “Alvorada”.
  • 09:00 – Saída para a Trilha da FormigaMe iludi achando que o nome se relacionava a algo pequeno e rápido e não aos insetos predominantes no caminho.
  • 10:00 – Voleibol na areiaSimulei de forma descarada uma contusão antes do final do 1º set para pelo menos sair com a honra de pé.
  • 11:00 – Aulão de HidroginásticaUma verdadeira obsessão! A animadora com um maiô de bolinhas forrado de espuma despertou meu inconsciente e automaticamente encolhi a barriga.
  • 12:00 – Almoço com a Bateria do SalgueiroA gostosa comida do forno a lenha sacolejava em meu estômago como uma passista na Sapucaí.
  • 13:00 – Caça ao TesouroResume-se a uma correria louca atrás de algo que poucos sabem dizer exatamente o que é.
  • 14:00 – GincanaMomento em que ficamos sem um sapato, o cinto ou o relógio.
  • 15:00 – Corrida de saco / Ovo na colherSabe aquela foto que você não queria que aparecesse no Facebook?
  • 16:00 – Futebol de veteranosSeria ótimo se alguns “veteranos” já tivesse parado de jogar há mais de 20 anos.
  • 17:00 – Baile de CarnavalHora de vestir a camisa do time de coração e cair na folia.
  • 18:00 – Cavalgada pelo caminho históricoEsqueceram de dar comida para meu cavalo, que acabou empacado no capim da beira da estrada.
  • 19:00 – Jantar com o Circo do PimpãoPimpão não tem culpa, mas eu só queria um jantar romântico à dois…
  • 20:00 – BingoIndefectível,  onipresente e chato. Bem, pelo menos meu filho ganhou um abajur.
  • 21:00 – Passeio até o Portal da Cidade, com SerestaMuito agradável! Mas fiquei deprimido porque sabia cantar a maioria das músicas.
  • 22:00 – Término das atividades de hojeAh! Sério? Agora que eu estava me animando?
Se isso foi no sábado, fiquei imaginando que na quarta só me restariam cinzas.

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Claro que adotei algumas estratégias para, digamos, driblar os animadores, como me esconder atrás das árvores, fingir dormir na rede à beira do lago, simular dor de cabeça ou simplesmente namorar. Eles entendiam e até estimulavam. – Aê Tiozão! Aproveita que nós cuida do filhote!
– Pai! Pai! Pai! Posso ir? O animador tá chamando!!!
– Pooooode filho… Vai láááá… E divirta-se!
– Mas… Você não vem, pai?!
– Vou sim… Depois… Bem depois…
Ele me olhava desapontado, o animador me olhava decepcionado e minha esposa me olhava incrédula.
Aí eu virava pro lado, fechava os olhos e balançava a rede.
Vocês podem me perguntar qual a vantagem de pagar tanto para ficar dormindo? Bem, o sossego não tem preço.
Superada a neura inicial do filho se perder no meio do mato, cair no lago ou ser pisoteado por uma vaca, passamos a curtir a natureza. E eles adoram! Ter espaço para correr, brincar, rolar sem as limitações de um playground, ter contato com animais que só conheciam quando saiam da panela e interagir com muitas crianças sob a coordenação de um animado animador é muito bom! Eles terminam o dia felizes e exaustos, prontos para dormir. O colo é lugar comum e eles nem se lembram como foram parar na cama.

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Para os pais, é um raro momento de tranquilidade para conversar, renovar o relacionamento e fazer planos. Pelo menos enquanto eles estiverem realizando atividades (ou seja, o tempo todo). Olhar nos olhos enquanto olhos treinados olham por nosso filho. Reduzir o ritmo, acalmar o espírito, perceber a respiração.
A natureza tem o mágico poder de recarregar nossas baterias e purificar nossa alma.
Impossível não ficar sereno após um bom cochilo na rede à beira de um lago.
Impossível permanecer estressado ao caminhar solitário por caminhos silenciosos.
Impossível não engordar depois de comer tanta comida saborosa, farta e caseira.
E assim, passado quatro dias, bate saudade antes mesmo de partir. Voltar à correria, à rotina, voltar ao cotidiano. É muito importante levar algo físico desses lugares: uma folha, uma pedra, um graveto…
Quando chegar em casa, deixe à vista, em um lugar de passagem, bem visível à todos.
Quando a vida estiver te levando como um trem que te carrega sem que saiba o porquê, como e nem para onde, pare e olhe para a lembrança que trouxe. Como por encanto, aqueles momentos serenos que passou no hotel fazenda voltarão à sua mente como um filme bom em que sua família atuou seguindo o roteiro original do Criador.
Mas, por favor, só não traga o apito do animador.

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O Inesquecível Primeiro Dia na Escola

boy-160168_960_720Foram meses e meses de pesquisa e peregrinação atrás de uma escola que fosse perfeita para nosso pequeno. Um lugar que reunisse qualidades e características tão variadas quanto o número de fraldas usadas no primeiro mês de vida.
Seria possível existir um lugar que tivesse:
  • Segurança
  • Professores pacientes, capazes e treinados
  • Acompanhamento de psicólogo
  • Projeto pedagógico
  • Alimentação adequada
  • Horário compatível com nossos afazeres profissionais
  • Espaço adequado para as atividades livres
  • Salas de aula bem iluminadas, arejadas e com poucos alunos
  • Bom preço
  • Material didático apropriado
  • Metodologia de ensino que não fosse nem rígida nem liberal demais
As entrevistas com as coordenadoras faziam parecer que cada escola visitada parecesse perfeita, mas felizmente a intuição e percepção materna reduziram o número para duas ou no máximo três.
Mas, enfim, a busca havia chegado ao fim! Encontramos a escola que mais se assemelhava aos nossos ideais, e é claro que tivemos de fazer vista grossa para certos aspectos antes considerados absolutamente relevantes para a escolha final.
De forma consciente, achamos até normal o escândalo que algumas crianças faziam para entrar na escola, se recusando veementemente a passar pelos portões como se representassem a passagem para uma dimensão habitada pelas figuras mais apavorantes do universo infantil.
Ignoramos também os gritos assustadores que vinham de uma sala de aula de artes sob o argumento nada convincente da coordenadora de que estavam ensaiando para uma pecinha de teatro da Bela e a Fera.
Fingimos que nem notamos a súbita e constrangedora entrada na sala da coordenadora de uma criança com os cabelos tomados de tinta verde de mãos dadas com uma professora à beira de um Rivotril.children-808664_960_720A expectativa era crescente à medida que se aproximava o primeiro dia de aula. A compra do material escolar sem faltar um item sequer (incluindo os quatro rolos de papel higiênico?!), e do uniforme com todos os itens possíveis, incluindo o casaco em pleno mês de fevereiro (“é que a sala tem ar-condicionado”).
Chegado o dia tão esperado, a memória da câmera quase se mostrou insuficiente para todos os registros: em casa, com os avós maternos, com os avós paternos, com os pais, com os padrinhos, no carro, na porta da escola… Tudo com o uniforme impecável, o cabelo sem um único fio desalinhado, o tênis alvo como a pele após o banho que removeu os encardidos mais persistentes.
Avisei meu gerente com uma antecedência de 15 dias que neste dia chegaria mais tarde, afinal tratava-se de um evento único, especial e inesquecível!
As crianças chorando à nossa volta, o imenso tumulto e falatório de famílias inteiras, a buzinação na rua devido à fila tripla de carros e o sinal estridente da escola chamando para a entrada não ajudavam em nada a diminuir sua apreensão, demonstrada pelo aperto de sua mão suada e de seu olhar franzido me questionando se a escola era mesmo tããããão legal como há meses tentávamos lhe convencer.children-602967_960_720Na porta da escola, o sinal tocou mais uma vez e o portão finalmente se abriu. Não pude conter a emoção quando o beijei e lhe desejei tudo que um pai pode querer para um filho que inicia uma vida escolar. Os olhos marejados, o choro contido, o nariz vermelho e a preocupação constante de não lhe passar ansiedade, medo ou qualquer outro sentimento que o fizesse temer o novo universo que agora surgia a sua frente.
Mil perguntas passavam pela minha mente: Como ele irá reagir? A tia será compreensiva com os seus mimos? Será que algum amiguinho irá lhe fazer mal? Será que ele irá chorar ou sentir falta dos pais? E se ele se machucar no recreio? E se esquecemos de algum material? E se…?
A angústia e a ansiedade atingiam seu grau máximo enquanto ele atravessava o portão da escola. Beijinhos e acenares simultâneos aos flashes de minha câmera se prolongaram até ele desaparecer de nossa vista, deixando-nos com um sentimento confuso de alívio e culpa.school-1665535_960_720

Mas o pirralho podia ao menos ter olhado pra trás!!!


 

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