O que podemos aprender com as Gerações Y e Z?

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Sou um Baby-Boomer (quase X!), e pai de jovens das gerações Y e Z. Pelo menos é assim que fui enquadrado pelos estudiosos que classificaram as gerações baseado no período em que nascemos e pelas nossas características. Muitos já escreveram sobre os conflitos entre estas gerações, mas o que podemos aprender com estes jovens?

Em geral, os Baby-Boomers são aqueles que nasceram no pós-guerra até a primeira metade dos anos 60. Foram sucedidos pela Geração X, que enquadra os que nasceram na segunda metade dos anos 60 até o final dos anos 70 / início dos anos 80. Os Millennials (Geração Y) nasceram entre o início da década de 80 até a primeira metade dos anos 90, sendo sucedidos pela Geração Z, que vai até o final da primeira década do século 21.

Ou seja, a Geração Y tem hoje, em média, entre 22 e 35 anos, enquanto a Geração Z tem entre 8 e 21 anos. Então, é bastante provável que você seja pai ou mãe de um jovem de uma dessas duas gerações. Mas o que elas têm de tão diferente da nossa?

Jovens da Geração Y não têm muita paciência, e não teriam chegado a este parágrafo se os três primeiros não deixassem explícito qual o propósito deste texto. Eles buscam sempre dar um sentido às coisas e à própria vida, acreditando que tudo é possível. Por isso, sonham alto, porque não temem o novo.

Propósito! Propósito! Propósito! Esse é o mantra!

Millennials? Ainda estão comigo?

É um grande engano achar que, por serem impacientes, não terminam o que começam. A inquietude, o dinamismo e o imediatismo são a locomotiva (um termo bem Boomer, por sinal), que impulsiona tudo o que fazem. Tem foco no curto prazo e conseguem alcançar os objetivos simplesmente porque desenvolveram algo que as gerações anteriores achavam impossível: ser multitarefa.

E é por isso que você verá um jovem dessa geração assistindo um programa na TV ao mesmo tempo que acessa um canal no YouTube pelo notebook, passar a timeline no Facebook ou no Instagram (ou os dois juntos) no smartphone enquanto combina uma saída com os amigos no WhatsApp, escuta uma música no fone e te responde como foi a prova de Sociologia que fez na véspera. É difícil para nossa geração entender como isso é possível, mas não precisamos entender, simplesmente aceitar que, sim, para eles, é possível!

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Injustamente, são tachados de egoístas mas, pensar em si próprios não é ruim quando essa imersão tem como objetivo o autoconhecimento, fazer o que gostam, o que dá prazer e o que tem sentido. Sim, eles são fiéis ao que acreditam da mesma forma que os jovens dos anos 60 perseguiam e lutavam pelos direitos que supunham ser primordiais. Querem liberdade para escolher, buscam a realização pessoal, ter as rédeas, os valores e um estilo da própria vida. Bem razoável, não?

Tanto é verdade que não são egocêntricos, que é a primeira geração que se preocupa de forma determinada com as causas sociais, os desafios ambientais e a qualidade de vida. Tem foco no ser humano e desenvolvem atitudes sustentáveis para construir um mundo melhor para si e para as próximas gerações. Os jovens da Z e os Alpha (a partir de 2009) agradecem!

Afinal, eles nasceram convivendo com os grandes avanços da tecnologia, os computadores pessoais e a Internet. Muitos não conheceram o mundo sem a Internet. Por isso, são uma geração profundamente conectada. Dormem, acordam e tomam banho com um smartphone próximo. Não perdem tempo, como nós, pensando em uma solução. Buscam no Google, naturalmente!

Acontece que nossa geração fez algo sensacional e inexplicável para as que nos sucederam: fizemos uma faculdade sem o uso da Internet. Daí essa nossa mania esquisita de pensar antes de procurar no Google. Não se trata de orgulho besta, mas de hábito.

Em decorrência disso, confiam quase que cegamente na Internet e podem adquirir produtos sem um mínimo de prudência. Isso para nós que pensamos em todas as possibilidades de fraude antes de colocar o número do cartão de crédito em um site é uma agonia. Mas, aos poucos, vamos enfrentando e superando este medo, enquanto eles vão aprendendo a ter.

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O feedback é essencial em suas vidas, e vai desde a nossa opinião sobre a nova namorada (apesar de não perguntarem diretamente) até o que achamos sobre uma nova forma de investimento financeiro (que eles já fizeram).

Sim! Eles pesquisam, estudam e estão sempre encontrando novas formas de ganhar dinheiro. Diferente de nós, têm diversas fontes de renda, e dão um banho em nossa visão conservadora sobre economia simplesmente porque nós crescemos em um mundo de instabilidade financeira, inflação galopante e trocas constantes de moedas; um cenário que nos estimulou a guardar o dinheiro onde fosse mais seguro: de preferência em uma “caderneta de poupança”, e não em um banco virtual.

Estes jovens tem muitos valores, e não estou falando de dinheiro. A ética, a honestidade e o respeito são essenciais em sua visão da sociedade. Exigem respeito, igualdade e motivação para desenvolver suas atividades. São questionadores e não se deixam oprimir. Escutam e aprendem com os mais velhos, mas se sentem muito à vontade para nos ensinar e expressar suas posições sobre nossas atitudes, ainda que muitas vezes de uma forma ríspida e ácida. Sejamos humildes em aceitar.

No trabalho, valorizam e respeitam a competência, não a hierarquia. São líderes natos, apreciam o trabalho colaborativo, a transparência nas relações humanas e a comunicação que envolve um trabalho em equipe. São inventivos, criativos e inovadores ao oferecer ideias e soluções diferenciadas para resolver problemas. Gostam de trabalhar com metas, desafios e foco nos resultados. O ambiente tem de ser adequado para estimular a criatividade, flexível e alegre. A estabilidade dá tédio. Precisam de uma certa dose de incerteza para serem felizes, ou seja, é o oposto do que um Baby-Boomer desejava ao entrar para uma empresa, na qual pretendia se aposentar.

Assim, exigem reconhecimento baseado nos seus talentos. Se isso não acontecer, e rápido, vão embora sem nenhum tipo de apego à empresa onde trabalhou.

No entanto, uma pesquisa realizada este ano pela Deloitte com 8 mil Millennials em todo o mundo revelou que estes jovens estão procurando um trabalho que traga mais estabilidade, possivelmente reflexo da instabilidade econômica.

Claro que eles buscam o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, como todos nós, mas vão privilegiar a primeira. Fato: as necessidades familiares e pessoais são prioritárias frente às demais.

Algo que acho fascinante é que eles são protagonistas da própria carreira, não esperam que alguém ofereça treinamento para se desenvolverem. Buscam cursos online e aprendem tudo sobre tudo que tem um propósito e valor. E aí oferecem o seu conhecimento a quem precisa em troca de reconhecimento financeiro. Prático, não?

Um conselho: não tente se comunicar com eles da mesma forma que sempre fez com alguém da sua geração. Eles se sentem completamente à vontade nas redes sociais e é por elas que ocorrem as relações interpessoais (principalmente os jovens da Geração Z). Pediu ao seu filho para para te ligar? Espere sentado. Eles vão te mandar uma mensagem pelo WhatsApp, pelo Messenger ou pelo Telegram, mas nunca, nunca usarão o telefone (para eles, torpedo é uma arma)! E esperam sinceramente que você veja, em tempo real, suas mensagens sucintas.

– Porquê você não avisou que ia dormir na casa do seu amigo?

– Mas pai! Eu te mandei um “Zap”! Você não leu?!

Não, não leu simplesmente porque você estava dormindo durante a madrugada.

Somos muito diferentes, é fato. Mas acredito realmente que os jovens das Gerações Y e Z não têm que seguir o comportamento e valores das gerações anteriores. Somos nós que estamos vivendo na geração deles, e não o contrário. Então, é lógico que nos adaptemos à era atual, sem que para isso tenhamos que violentar nossos sagrados ideais.

Não é o caso de assumirmos uma fantasia de uma geração que não é a nossa. Ia soar falso, patético e hipócrita. Mas se captarmos a essência destes jovens, entender que eles são uma evolução da nossa geração, têm muito em comum com a nossa (quando tínhamos a mesma idade), aprender com eles e trocar experiências, teremos uma relação entre pais e filhos mais equilibrada, justa e com alto nível de respeito.

Isto sim é amadurecer com sabedoria!

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A Cadeirinha de Bebê Mudou sua Vida e Você nem Percebeu

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Quando eu era jovem tinha um método infalível para não cometer loucuras ao volante do carro: bastava esticar o pescoço e olhar o capô do carro. Esta visão me dava a noção exata de onde eu estava e o que poderia me acontecer em caso de acidente.
Mas então veio o primeiro filho, e junto com ele, a indefectível cadeirinha de bebê. E então, tudo mudou!

Presa ao banco traseiro, sua presença, mesmo sem o bebê, era visão obrigatória no espelho retrovisor. Isso, é claro, mudou meu comportamento ao dirigir. Já não era mais necessário ter a consciência de que estava dentro de uma caixa de aço, entre o motor e o tanque de gasolina. Bastava olhar pelo espelho retrovisor, o que é um ato contínuo a quem dirige, e lá estava ela, qual um Moai, misteriosa estátua da Ilha de Páscoa, a desafiar meus instintos, imponente e impassível, e a moldar minha nova forma de dirigir.

Já não havia mais espaço para discussões no trânsito, manobras arriscadas, freadas bruscas e sinais quase vermelhos. Lá atrás, um ser pequenino, frágil e deslumbrado como um ventilador ligado, com seu olhar curioso para um mundo que se renovava a cada curva, silenciosamente me dizia que precisava de mim. Mesmo com apenas dois dentinhos e uma linguagem simples, ensinou a responsabilidade a um homem que subitamente se descobre, pai.

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Balbuciava seus sonhos de um dia jogar bola comigo, caminhar em comunhão nas areias relaxantes de Rio das Ostras, ouvindo ondas em conchas ou as colecionando do mar. Pedia-me, à sua maneira, para ensiná-lo a andar de bicicleta sem rodinhas, explicar o porquê das coisas e a jogar botão, damas e trunfo.

Não tinha o direito de decepcioná-lo. Se eu lhe faltasse, como se lembraria de mim? Que sobrecarga desumana seria jogada sobre a mãe? Uma injusta, desnecessária e irresponsável orfandade.

Lembro bem, que no carro de meu pai havia um porta-retratos com um imã que prendia no painel do carro (sim, pasmem, naquele tempo o painel era de ferro), com as fotos dos filhos acompanhado da mensagem “NÃO CORRA PAPAI”. Tinha o mesmo efeito psicológico da cadeirinha, quando era a mãe que acolhia o bebê no colo do banco traseiro, e não uma confortável e segura “poltrona de Boeing”.

Não Corra Papai

Mais tarde, quando a cadeirinha, de forma cerimoniosa, é retirada do carro, a sua sombra permanece por lá, a lembrar que a nossa saúde é importante para uma vida que precisa essencialmente de uma família.

E esta mudança não fica restrita entre as quatro rodas. Adotamos naturalmente uma nova postura em relação à vida, com mais cautela, reflexão e ponderação.
Mudamos nossa alimentação para algo mais saudável, evitamos os excessos, os esportes radicais e as atividades de risco. A academia passa a ser um lugar para ficar mais saudável, não mais para ficar mais bonito!

É por isso que as pessoas costumam dizer que alguém ficou mais calmo depois que o filho nasceu. Conversa! Na verdade, é medo de não poder acompanhar o crescimento, ser e estar presente nos momentos mais importantes da vida do filho e testemunhar seus genes se preservarem pelas gerações seguintes.

E ainda mais tarde, quando os baixinhos passam a ocupar o banco da frente e a disputar o rádio e a nossa paciência, o juízo adquirido ao longo de toda a infância se torna um incômodo insuportável para eles.
Reclamam que somos lerdos, não arriscamos, não cantamos pneu, nem buzinamos! Pais medrosos!

– Passa ele, pai, passa ele!
– Pra que botar cinto pai? Você nunca bate!
– Pai! Até aquele Fusca te passou!

Concordo que seria mais honesto explicar a eles que, sim, já fomos jovens arrojados, corajosos e até mesmo deliciosamente irresponsáveis, mas que, para protegê-los, adquirimos um juízo, uma sensatez, um equilíbrio e um bom senso, para que tivessem a chance de receber uma boa educação, exemplo de cidadania, civilidade e respeito ao próximo.
Mas achei que não entenderiam, e acabei botando a culpa no motor 1.0.

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Fé Cega, Faca Amolada

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A administração dos riscos que um filho corre ao longo de toda sua vida é uma responsabilidade de todo pai e de toda mãe. Evitar que ele se machuque, fique doente ou sofra é uma atitude que nasce assim que o cordão umbilical é cortado, como uma forma consciente de preservá-lo.

E nada simboliza mais esta preocupação que o uso de uma faca amolada pelo filho. É como se fosse um marco, um limite que separa a infância da vida adulta.

Desde bem pequeno vamos aumentando progressivamente as fronteiras do que pode e do que não pode. Somos o discernimento de quem ainda não o possui, a vigilância do possível e o juiz do risco aceitável.

Um equilíbrio sutil entre a liberdade que o fará amadurecer e o risco que o fará sofrer.

– Não! Não pode! Papai não quer! Faz dodói! É sujo! Vai cair!

A chupeta que pega do chão, o pequeno objeto que coloca na boca, a virada sobre o trocador, o líquido que não pode beber, os objetos pontudos, cortantes, ferramentas, vidros, quinas, o fogão aceso, o chão escorregadio, a friagem, a golfada dormindo, o travesseiro que pode sufocar, o brinquedo que pode desmontar, o buraco, o tapete, o escorrega, o balanço, a piscina, a multidão… São tantos os perigos que nem nos damos conta de como permanecemos em vigília 24 horas por dia.

Eles crescem, e quando nos damos conta, já aprenderam a usar a faca amolada sem perder um dos dedos. No entanto, o discernimento ainda se contrapõe ao livre-arbítrio. Supõem-se imune a perigos, subestimam os riscos, nos vêem como medrosos. Não podemos mais estar presente à maior de seus momentos. E então, abraçamos uma fé cega.

Mudam as estações, mas não as preocupações. Continuamos a testar os limites, e gradativamente vamos cedendo espaços, enquanto eles vão conquistando a liberdade tão desejada.

– Vai aonde? Vai com quem? Como vai voltar? Seu amigo dirige bem? Ele bebe? Vai voltar tarde? Se cuide hein, filho!

– Pai, porquê você não confia em mim? Eu me cuido, pai!

Sabemos disso, educamos para isso, protegemos até onde foi possível, mas agora eles já cortam o pão sozinhos…

– Pai! Vou acampar na Ilha Grande com a minha namorada! Beleza?

– Pai! Estou juntando dinheiro para pular de asa-delta! Beleza?

– Pai! Vou com uns amigos fazer intercâmbio na Austrália! Beleza?

– Beleza! Se cuide filho! E vai com Deus!

Fé cega, faca amolada.

É preciso saber a hora de recolher as amarras e deixar o barco solto, ao sabor do vento. Não se trata de deixar pra lá! Ocasionalmente, vamos informar a previsão do tempo, para que evitem as tempestades, redemoinhos e buracos negros do mar, mas estamos cientes que o barco é dele: o capitão que você ensinou a navegar.

Ao pai, é voltar os olhos com amor para a mãe e bora viver a vida, porque preservar um porto seguro é essencial para o barco que buscará a luz do farol quando as noites não tiverem a Lua como testemunha da paternidade.

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Os 11 Estágios e Formatos de um Cordão Umbilical

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Estágio I – Nasceu!

Não havia como perde-lo de vista. Mesmo assim, o pediatra corta a ligação antes que nos acostumemos com a ideia.

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Estágio II – Colo

Dependem totalmente de nós. Impossível não saber onde ele está ou o que está fazendo. Até aqui, tudo bem.

Estágio III – Engatinhando

O início do fim da segurança. Podem ir a qualquer lugar, mas ainda dá para segui-los, apesar da velocidade surpreendente que alguns desenvolvem.

Estágio IV – Começando a ficar em pé

Se sustentam agarrando o nosso dedo, balançam feito gelatina e voltam ao Estágio III. Ainda sob controle.

Estágio V – Começam a andar

Ainda dependem de nós, mas não por muito tempo. Seguros pelas mãos, conseguem dar pequenas caminhadas, cansam rapidinho, e voltam ao estágio II. Descobrimos como dá trabalho evitar que se machuquem.

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Estágio VI – Andam sozinhos

Não precisam mais de nossa ajuda para se locomover, mas mesmo assim, seguramos suas mãos para que sigam na mesma direção que nós e não entrem na loja de departamentos enquanto piscamos os olhos Começa a fase do “Dá uma mão papai”

Estágio VII – Criança de Shopping

Você quer ver uma vitrine de uma loja enquanto ele quer ir aonde o dedinho deles aponta. É o início do período em que ele se joga no chão do shopping, faz pirraça, chora e faz com que todos os outros pais (que nunca passaram por isso) o julguem com um ignóbil e incompetente educador. A frase ganha tons dramáticos de urgência e ganha várias exclamações: “Dá uma mão papai!!!”

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Estágio VIII – Criança cansada

Seus objetivos já diferem quase totalmente dos da criança. Ela já não faz pirraça no chão do shopping, mas fica com ar entediado, suspira e segura a cabeça com as mãos em postura explícita de falta de paciência. É mútuo. A frase “dá uma mão papai” é substituída pela mão estendida, o que subtende que ela terá que procurar outro lugar para se refastelar enquanto fazemos nossas coisas.

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Estágio IX – Pré-Adolescente desbravador

Andam em bandos. Conhecemos seus amigos, onde moram e os pais dos seus amigos. Se vão a festinhas, levamos e buscamos (eles e os amigos). É a fase do pai taxista. Já não aceitam mais que segurem a mão. No máximo andam na rua esbarrando suas mãos nas nossas, em claro sinal de querer mostrar que não precisam mais de nós mas morrem de medo de nos perder de vista. São muito distraídos e nesta fase ensinamos a eles que o que para um carro é o freio, e não o sinal fechado.

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Estágio X – Adolescente indomável

Se você ainda leva na escola, pedem para parar bem antes ou bem depois. Nunca, em hipótese alguma, na porta. Nem pense em dar um beijo de despedida, vai ficar no vazio. Saltou do carro, vaza. Morrem de vergonha que você espere ele entrar. Imagina se os amigos virem! Vergonha é algo natural: da nossa linguagem, do nosso jeito de vestir, dos lugares que vamos, de que os pais se beijem, de andar junto, de praticamente tudo. Com muito esforço teremos o nome e o celular dos amigos com quem estão saindo. Esqueça a família deles. Não fazem nenhuma questão que os levemos às festas e boates. Mas ligam para que os buscamos, de manhã. Com sorte, não seremos confundidos com um Uber. Acreditamos sinceramente que sabemos onde eles estão. O diálogo é monossilábico, difícil e econômico nas palavras. Nesta fase, os pais aprendem muitas expressões e palavras novas, mas nem pense em usar com eles! O celular se torna um instrumento vital. Nos preocupamos mais com o nível de carga da bateria do celular deles do que com nossa própria saúde. Tentam de todas as formas romper com o cordão umbilical, e acham que conseguiram quando, na prática, simplesmente desistimos de tentar puxar.

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Estágio XI – Jovem independente

Com muito esforço teremos o apelido e o celular do amigo com quem está saindo, mas a multiplicidade deles inviabiliza qualquer cadastro. Muitas vezes saem pela manhã e voltam à noite, com sorte, tarde da noite. Se dizem que vão voltar cedo, acredite! Será quando o Sol nascer. Detestam que liguemos para saber se estão vivos. Continuamos a dar conselhos, todos ignorados com veemência, mas secretamente colocam o casaco e o guarda-chuva na mochila. Mochila que contém uma rica diversidade e é território privado. Nem pense em mexer! Aceitam participar de refeições com os pais, desde que paguemos. Até curtem participar de eventos juntos desde seja algo alinhado com seus princípios, que são muitos. Nós, pais, rejuvenescemos nesta fase. Ouvem as mesmas músicas que nós ouvíamos na idade deles, o que evidencia que os anos 80 foram muito, muito bons! Aceitam abraços, mas não se demore muito. Às vezes, o abraço é substituído por uma pisada no pé. Entenda que é uma espécie de carinho. O diálogo volta a acontecer e é rico. Nos ouvem, mas questionam, tem opinião crítica sobre quase tudo. Nos ensinam muitas coisas e precisamos ser humildes em ouvir, aprender e entender eles. Nos cobram atitudes, posições e confiança. O GPS é nosso maior amigo! O som das chaves deles abrindo a porta de casa com o dia amanhecendo é um momento sublime e tem forte efeito anestésico. Sentimos uma falta danada do “Dá uma mão papai”. E gostaríamos que eles também.

Uma amiga da família e grande psicóloga uma vez me disse que o cordão umbilical nunca é cortado, mas esticado. É preciso ser um pai sábio para saber dar corda ao cordão na medida exata, desatar os laços antes que se tornem nós e manter por ele um fluxo constante de comunicação.

No umbigo deles ficou apenas uma cicatriz. A ligação agora é puro amor paterno!

 

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E você achava mesmo que as bolhas eram feitas de sabão?

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Passeando de bicicleta pela orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, subitamente me vejo envolvido em uma nuvem de bolhas de sabão. Com os olhos ardidos, encostei e parei para observar a origem de uma das mais clássicas manifestações da infância ingênua.

Na beira da ciclovia, uma criança mergulhava o “pirulito” no pote de sabão e se preparava para mais um enxame de pureza. Encheu de ar os pulmões, e suavemente soprou. Dezenas de pequenas bolhas se espalharam pelo ar: algumas esbarravam nas pessoas, outras caíam e estouravam no chão enquanto outras buscavam o céu, onde explodiam em pequenas gotículas refletidas pelos raios do bonito Sol que fazia naquele domingo.

Apesar de alguns automatismos, que tiraram toda a graça, pois não dependem mais do sopro infantil para produzir o efeito, a brincadeira é a mesma desde muito tempo.

Se você reparar bem, não é tão banal como parece. Após o sopro, todas as crianças em volta se envolvem em um balé inebriante tentando de todas as formas estourar as bolinhas. Riso solto, gargalhadas em profusão, infância em estado bruto, até que a última bolha estoure ou se eleve acima de onde os pequenos e frágeis braços estendidos não conseguem mais alcançar. E então a brincadeira recomeça até que todo o sabão se acabe. Ou então…

– Paaaai!!! O sabão derramou!!!

O olhar melancólico observava o líquido espalhar a espuma inútil sobre o gramado, permitindo que o canto dos bem-te-vis se impusesse sobre os gritos mudos das crianças, cessando de repente a efervescência dos primeiros anos de vidas delicadas.

Mas bastou que os dedos com sabão enxugassem os olhos marejados para que a algazarra voltasse como vento de outono.

– Tá ardendo! Tá ardendo! Sopra pai! Sopra!!

Agachado na mesma altura que tinha quando espalhava bolhas pelo mundo, o pai sopra suavemente os olhos que piscam incessantemente como asas de uma borboleta que acabou de sair do casulo, e então tira da bolsa um pote cheio com o precioso líquido.

– Paaai! Você trouxe mais?!

E então, o ar carregado de inocência, pureza e simplicidade volta a encher novamente bolhas envoltas de sabão, a girar e refletir em formas multicoloridas todo o mundo ao seu redor, e a explodir e espalhar o pólen da receita primordial pelo mundo.

Subitamente, percebo na pele que o sabão se transformou em encantamento, e sinto renascer dentro de mim a infância que há muito havia se perdido.

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Por que os Pais Gostam Tanto de Fotografar os Filhos?

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Tudo começa com o vídeo da ultrassonografia feita no início da gravidez, e que é exibido animadamente para parentes e amigos, ainda que poucos consigam distinguir dentre as formas confusas, o perfil de um bebê. Mas isso é apenas o início de uma longa série de gravações que o pai fará ao longo da vida de seus filhos.

Sou do tempo que os registros eram feitos em rolo de filme em câmera fotográfica, de 12, 24 ou 36 poses. Sou do tempo que era impossível saber se o obturador já teria se fechado quando aquela pose memorável fora arruinada pelo movimento abrupto e sempre inesperado de sua criança. Sou do tempo em que era preciso esperar vários dias para saber se o momento mágico seria eternizado em papel fotográfico ou registrado na nossa memória, como toda mãe sempre fez.

Festas, eventos escolares, passeios, viagens, brincadeiras no play, dormindo, comendo ou mesmo sentado na privada. Toda uma vida registrada, como se fosse o Show de Truman, interpretado no cinema por Jim Carrey.

A família até que tolera a mania esquisita e raramente censura, salvo quando os esforços para que a fotografia saia boa supera os limites do bom senso, da boa educação e da civilidade.

– Para de fotografar e assiste!

Como se eu não estivesse vendo, ainda que através das lentes de minha inseparável câmera…

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Mas, porque temos tanta necessidade de guardar as lembranças dessa forma? Para explicar o motivo de meu estranho comportamento como pai, numa autocrítica rara, criei algumas teorias:

  • Por orgulho, adoramos mostrar as gracinhas de nossos filhos para quem não pôde testemunhar.

  • Por vaidade, queremos deixar evidências de nossos melhores momentos como pai para nossos descendentes.

  • Por insanidade, tememos esquecer o passado, e usamos as fotos para rememorar o inesquecível.

Como se fosse possível armazenar toda uma infância em uma simples caixa de sapatos…

Atualmente, a velha câmera de rolo foi substituída pela câmera digital, que está sendo substituída rapidamente pelo celular. Não imprimimos mais as fotos: as esquecemos na “nuvem”, em algum computador do Google em algum lugar do planeta. E esta facilidade alimentou o vício e multiplicou a níveis exorbitantes a quantidade de fotos que tiramos dos filhos. Não ficou bom? Apaga e tira de novo. Filmamos horas e horas, em alta definição, em slow motion, capturamos movimentos, momentos e emoções que nunca mais serão repetidos, mas raramente assistimos.

É duro perceber que os melhores momentos que me recordo ao longo de toda minha vida como pai são aqueles em que não estava com uma câmera na mão, porque ao constatar que as lembranças não poderiam ser eternizadas pelos neurônios artificiais, meu cérebro tratou de armazenar a ternura em forma de saudade, e sensibilizar minha alma e meus genes, perpetuando as lembranças da paternidade em sua mais verdadeira e pura essência.

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Dia de Apresentação na Escola

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As apresentações feitas pelas crianças na escola nunca são fora do horário comercial. Daí a correria que temos que realizar sempre que recebemos a convocação. Largamos reuniões no meio, corremos pelas ruas, pegamos táxis, para enfim chegarmos suados, esbaforidos, mas felizes por não nos atrasarmos.

Assisti às mais diversas apresentações: teatrinho, dia dos pais, carnaval, festa junina, balé, judô, música e até mesmo de dia das mães. E sempre de posse da indefectível câmera fotográfica, tão criticada pelas mães, mas companheira inseparável do pai coruja.

E então, no meio do imenso tumulto de pais, vislumbrei meu filho se preparando para a exibição. Enquanto vestia sua fantasia, recheada de papel crepom, procurava com olhinhos ansiosos a figura familiar na platéia.

O encontro dos olhares é um momento mágico! Como por encanto, o sorriso sereno brota em seu rosto enquanto suas ruguinhas de preocupação desanuviam. Como que imbuído de uma autoconfiança, assume o seu papel na pecinha teatral, certo de que estava sendo observado (e fotografado) pelo seu pai.

A vontade de acertar e corresponder às expectativas sobrepõe a ansiedade e o nervosismo, natural e compreensivo, enquanto olhares esguios a confirmar a presença do pai durante a apresentação são percebidos e correspondidos.

Ocorre que nem todos os pais podem (ou desejam) participar de todos (e são muitos) momentos de exibição. E as crianças sentem. Muito! Percebia várias delas buscando tristemente o pai na platéia até o final do ato, sem sucesso. Mesmo assim, se mantinham firmes, pois sempre havia uma testemunha de seu desempenho.

– Você gostou, papai?

A pergunta, feita em tom excitado, não esperava uma resposta crítica, lógica ou pragmática. É apenas uma formalidade emocional para que o abraço de gratidão encontre o abraço de felicitação.

O que importa se ele esqueceu a fala, se pisou na fantasia e a palmeira despencou, se trombou com o coleguinha e o cenário desabou ou se teve uma crise de choro e foi retirado do palco pela Tia cenógrafa-música-diretora-coreógrafa?

No final, damos parabéns, dizemos que estava ótimo e que ele foi muito bem!

Não estamos mimando, estragando ou impedindo seu amadurecimento como ser humano.

É simplesmente orgulho puro e simples de pai.

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Brincadeiras que Ensinam a Entender a Vida

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Viajar ajoelhado no banco do carro, virado para o vidro traseiro, é uma das coisas mais gostosas que boa parte de nós já fez quando éramos crianças. Experiências ingênuas, como estas, nos ensinaram muito mais do que poderíamos imaginar. E contribuíram de forma definitiva para a formação de nossa maturidade.

A aceitação inesperada das mudanças de rumo, os desvios entre os carros e pedestres, os prédios que surgem de repente, imponentes, e vão diminuindo de tamanho até sumirem na próxima esquina, o Sol bailando ao sabor das curvas, o reflexo das nuvens nas vidraças dos prédios, tudo isso enquadrado no para-brisa traseiro, formam um passatempo delicioso e inebriante.

Ao ter esta perspectiva inusitada do mundo que nos cerca, vivenciamos uma rebeldia inocente, e sempre mal compreendida pelos nossos pais. Enquanto estamos absorvidos e embriagados por esta vivência, a mãe com sua mão protetora ampara nossas costas, sem tocá-la, em um gesto carregado do pressuposto que uma freada brusca me acordaria subitamente de meu sonho, e me faria acordar em seus braços carinhosos.

Aceitar os caminhos por onde passamos sem ao menos esperá-lo, sem tempo para querer, sem espaço para escolher. Não poder ver vindo, e então passar. Não saber por que paramos e tampouco porque voltamos a andar. Não saber quem nos acena, e nem porque acenamos de volta.

Ter tempo de apreciar casais se enamorando, os passos cadenciados e solidários do casal de idosos, a migração em V dos pássaros que buscam o verão, o cãozinho que passeia na cadeira de rodas, uma folha seca na última valsa antes de tocar o chão, toda uma vida que passa onde somos coadjuvantes no papel de inocentes.

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Detalhes que passam totalmente desapercebidos quando estamos absortos pela rotina e pelas preocupações. Isto se chama viver!

Desde crianças, aprendemos que a imprevisibilidade é algo natural, e nos acostumamos a encarar a vida dessa forma. Aprendemos a confiar em quem está nos guiando e nos deixamos levar por caminhos que desconhecemos. Aprendemos enfim, que para chegarmos onde queremos, muitas vezes precisamos passar por desvios, bloqueios, atalhos e pontes surpreendentes.

Conduzindo a Vemaguet, voz firme, sem espaço para contestação, meu pai dá o ultimato:

– Senta direito, menino!

Obediente a ele, volto-me para a visão frontal, a tempo de presenciar uma previsível manobra, sem surpresa. Pena…. Tivesse passado mais meia hora na perspectiva reversa e eu teria aprendido bem mais cedo a reconhecer os sinais, mesmo sem vê-los, e aprendido a respeitá-los e agradecê-los pelos destinos que a vida nos traz.

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A História do Anjinho que não Criou Asas

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Quando uma mulher descobre que está grávida, imediatamente assume o papel de mãe, o que já não acontece com o homem, que precisa de um tempo bem maior para assimilar a paternidade.

Dessa forma, quando ocorre a perda injusta, é ela que sofre o impacto mais agudo. Ao pai, que quase foi, resta a tarefa fundamental de ser forte para sustentar a vida que parece desmoronar.

Ela, e somente ela, poderá traduzir a essência do pânico diante do silêncio do ultrassom, a angústia de ter consciência que carrega dentro de si o filho que não será. Perder sem antes ter.

Mulheres são fortes, e nestes momentos precisam de um marido que ame no sentido mais incondicional possível! Diante da dor pungente da perda, o homem sofre, mas não pode expressar a tristeza abertamente. Se revolta, mas tem de manter uma falsa serenidade. Ele sabe que precisa amparar a esposa e lhe dar apoio e segurança. Para isso, chora silenciosamente, solitariamente, amarguradamente. Procura amparo em amigos, parentes, em Deus.

Compartilhar a dor é divino. A compaixão fortalece a união, e o casamento amadurece.

A fé traz o conforto, o alento e o suporte para a possibilidade de um futuro de sofrimento de uma vida que poderia ter nascido incompleta.

Ninguém sai incólume à essa experiência. Este casal será feliz porque soube entregar, confiar e aceitar. Em breve, uma nova vida será gerada no ventre dolorido, fruto do amor verdadeiro que transbordou de lágrimas, mas que sobreviveu para criar o filho que demorou a chegar, e que será para sempre amado e guardado pelo anjinho que não nasceu.

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Todo Pai Vira um Gato quando o Filho Some

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Filho a gente cria para o mundo! Quantas vezes você já ouviu isso quando demonstrou sinais de preocupação com a segurança deles?

Diferente do que se estabeleceu como verdade absoluta, os pais também sentem o sumiço dos filhos, mas insistem em preservar uma imagem de tranquilidade como forma de tentar equilibrar as relações familiares e assim dar serenidade à mãe, que expressa de forma mais aguda sua preocupação. Mas como um pai lida com esta bipolaridade?

Nos primeiros anos de vida do filhos, os pais se sentem seguros porque há uma notória dependência. Da fase do colo até a pré-puberdade, eles não vão a parte alguma sem que os pais saibam onde, que os pais levem ou que os pais busquem.

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Mas aí vem a puberdade e a adolescência e a tranquilidade desmorona. Passam a ir para a escola sozinhos, pegam transporte coletivo, táxi, van, carona, vão a inúmeras festas e nem sempre é possível você levar ou buscar e tampouco eles desejam isso.

Lembro que, na minha adolescência, a única forma de “comunicação móvel” era o Orelhão, com o agravante que não era possível ligar para ele e nem saber se estava perto de um, ao menos um que estivesse funcionando. A cartela de fichas do Orelhão era tão indispensável quanto a atual preocupação com a carga da bateria do celular.

Hoje, ter filhos em uma grande cidade requer estratégias quase militares, planos de contingência confiáveis e uma boa dose de equilíbrio emocional para segurar a barra de si, e da mãe.

Acontece da seguinte forma:

Antes deles saírem para uma balada você pede o contato de pelo menos dois amigos, checa a bateria do celular, se estão conseguindo fazer e receber ligações, combina uma hora para chegar em casa, deixa dois ou três telefones de cooperativas de táxi, checa documentos, dinheiro, coloca na carteira toda a sorte de símbolos religiosos, instala aplicativos de localização familiar, liga periodicamente para checar se está tudo bem e na hora combinada de chegar em casa, nada.

Você então, com uma leve apreensão, liga para ele, mas cai em caixa postal. Nervoso, liga para os dois contatos: um não atende e o outro fala sonolento que se desencontrou do seu filho, e inclusive já está em casa, dormindo. Corre para o localizador, que indica GPS desligado. Pânico! Começa então a ligar e a mandar mensagens para amigos que não estavam na lista inicial. Então, cria-se a RAPAI (“Rede de Apoio aos Pais Aflitos e Infartando”), que mobiliza famílias madrugada adentro tentando ajudar a localizar o jovem desaparecido. No desespero, você já começa a vasculhar o Twitter em busca de notícias sobre acidentes, e inevitavelmente, acaba achando, o que aumenta a aflição. Como um pai sábio e experiente, esconde da mãe para não piorar a situação.

O sentimento de impotência é dominante. O desânimo te dobra os ombros. A mãe começa a chorar e a lhe culpar. O Rivotril é teu maior aliado, mas você não aceita e se mantém frio, firme e calculista. Quase um James Bond em missão especial. As aparências enganam. Por dentro, pensamos no pior.

Aí, do nada, você escuta aquele som mágico e sublime da chave entrando na fechadura da sua porta, a maçaneta girando e seu filho entrando com a cara mais serena que a de um monge após meditar por horas e perguntar porquê, afinal, estamos acordados àquela hora?

Após a bronca descomunal, que ele julga exagerada, injusta e desnecessária, ele explica que emprestou o celular para um amigo (que não estava em nenhuma lista), se desencontrou dele e resolveu voltar de ônibus mesmo.

Mas como não imaginamos isso???!!!

Aí então ele vai para a cama dormir como um anjinho enquanto o alto nível de adrenalina em nosso corpo impede qualquer tentativa de uma soneca.

Isso explica o porquê de recebermos uma quantidade imensa de corações dos nossos filhos pequenos quando fazem trabalhos de arte na escolinha: assim como os gatos, a cada situação como esta, um coração se vai.

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