E se o pai de Beethoven tivesse colocado ele no judô?

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É clássico! É inevitável! É obrigatório! A conversa vai surgir após os pais perceberem que o filho não sai da frente da TV ou do computador, que tem poucos amigos, que parece tímido ou agitado demais, por influência do ambiente familiar, pressão dos amigos ou a proximidade de uma olimpíada. Vai chegar um momento na vida dos pais em que eles vão se perguntar:

– Não seria bom que nosso filho praticasse um esporte ou uma atividade artística?

Não é uma decisão fácil. A escolha por um esporte que caiba no orçamento, nos poucos horários livres disponíveis, que não seja violento demais e nem parado demais, que o ajude a fazer amigos e se socializar, que ensine a saber perder, melhore sua autoestima, cure sua alergia, sua rinite, sua bronquite, que dê uma canseira para ele dormir rapidinho, que ajude a ter equilíbrio emocional, a desenvolver o corpo, a concentração e que combine com sua personalidade. E que exista.

Várias propostas são postas na mesa para discussão. Discussão que nunca envolve o baixinho.

– Que tal futebol? Veja nossa seleção! Quem sabe ela não será uma sucessora da Marta?!

– Ah não! Muito bruto! E você se esqueceu que ela perdeu um dente jogando queimado? Que tal natação?

– É uma boa! Ela adora piscina, que é aquecida, mas não vai querer ir no inverno. Que tal balé? Ela adora imitar a Cinderela?

– E desde quando a Cinderela dança balé? Lembra do teatrinho da escola, que ela derrubou o cenário quando foi rodopiar na cena final?

– E se colocar ela para estudar música? Ela adora batucar em tudo!

– E você já imaginou ele tocando bateria aqui em casa? Quer ser expulso do condomínio? Olha… por que não a colocamos no Judô?

Não há uma explicação razoável para que esta opção seja sempre lembrada. Talvez pela associação com o Oriente e seus mistérios, talvez pela fama de ser um esporte de luta, mas de defesa! E que isso fique bem claro! Ou talvez pelo sucesso dos judocas brasileiros nos eventos internacionais.

Confesso que fiquei um bocado assustado quando fui assistir a uma aula de judô infantil.

Havia diversas crianças de ambos os sexos, idades e faixas de cores diferentes aplicando golpes umas nas outras. Na porta, pais e mães assistiam (quase) impassíveis seus filhos baterem ou apanharem. Uns apanhando bem mais do que outros. Uma mãe, corada e tensa, já estava na beira da cadeira, a ponto de entrar no tatame para defender seu filho de um outro cujo pai estava ao seu lado, com as pernas cruzadas e um sorriso sádico na boca. Foi quando uma menina caiu de mau jeito de um golpe bem dado e saiu chorando na direção da mãe. Foi a deixa para o professor dar um intervalo e vir conversar comigo.

Ao vê-lo vindo com a mão estendida temi que fosse me aplicar um Ippon e de forma involuntária e inconsciente, dei dois passos para trás, mas ele me alcançou e apertou minha mão. O cumprimento oriental teria sido bem menos doloroso.

Expliquei-lhe que estava pensando em colocar minha filha no judô e que tinha ouvido falar que era um esporte bom para crianças, que a ajudaria na escola, nos concursos públicos, a se defender do irmão mais velho e, bem, essas coisas todas que os pais desejam para o filho desde, é claro, que ela não se machuque.

Foi então que ele disse o que eu mais temia:

– Traga a sua filha para uma aula experimental e vamos ver como ela se sai.

Por aula experimental, entenda-se ver quanto ela aguenta apanhar sem ficar chorando feito uma menininha frágil, mimada e frouxa. Mas ela ainda é uma menininha!!!

Claro que menti para a mãe sobre a aula que assisti, e assim, com orgulho, comprei o quimono e a iniciei nas artes marciais de defesa (que fique bem claro!).

No início foi muito, muito difícil assistir. Ver a pequena voando sobre os ombros e cair ruidosamente sobre o tatame com os olhos marejados, sem saber onde estava o céu e onde estava o chão, com o quimono todo desconjuntado e completamente desconcertada sobre o que lhe aconteceu e permanecer indiferente porque, afinal de contas, é apenas um esporte e isso faz parte do aprendizado da criança requer a calma de um monge tibetano.

Depois ficou mais fácil. Parei de assistir às aulas com a desculpa que minha presença a estava constrangendo e deixando nervosa. Voltava somente para pegá-la, suada, corada e exausta. Às vezes arriscava perguntar se tinha apanhado muito, mas a resposta vinha na forma de um olhar de poucos amigos.

Assisti a sua avaliação para mudança de faixa e me surpreendi com o conhecimento que minha filha havia adquirido da língua japonesa. Surpreso e orgulhoso. Ela agora era faixa cinza!

Foi então que soube que haveria uma competição com alunos de outras academias. Pensei:

– Ei, isso é bom! Ela poderá disputar com outras crianças e aumentar sua autoestima se ganhar uma medalha. Data marcada, quimono lavado, muitas orientações e vamos lá vencer essa luta garota!

Engoli meus pensamentos quando vi a adversária.

– Mas ela vai lutar com uma adolescente???!!!

A frase começou como um berro e terminou quase como um sussurro. O professor ouviu e pediu calma, ou paciência, ou reze para que termine rápido. Não ficou claro o que ele quis dizer com as mãos, mas sua testa franzida me deu a resposta que eu não quis entender.

A mãe me olhava aflita. Minha filha me olhava com pânico. Estava claro para mim que uma injustiça estava em curso. A adversária era muito maior, muito mais forte e parecia ser alguns anos mais velha. Como assim? Ninguém vai fazer nada?!

Ela resistiu a três golpes e, de forma honrosa, foi derrotada por pontos. Pontos que quase foram necessários em sua orelha após o derradeiro golpe.

Ao fim do massacre, ela veio em minha direção, autoestima abalada, com uma lágrima escorrendo pelo seu rosto e a mão a tampar o ouvido. Abracei-a e tirei uma foto no acolhimento da mãe.

Não era o registro de uma derrota, mas da certeza que não dá para lutar contra as aptidões.

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Derrotas fazem parte do crescimento e não são suficientes para derrubar uma tendência promissora. Se a cada fracasso, os pais procurassem uma alternativa, nenhum talento sobreviveria.

Mas até quando insistir? Qual o limite para aceitar que uma criança não tem talento para um determinado esporte ou atividade artística?

– LudwiThirteen-year-old_Beethoveng! Você tocou um dó maior no lugar do ré maior. Desse jeito você nunca vai terminar a nona sinfonia! Larga esse piano e vai lá fora jogar bola!

Melhor perseverar um pouco antes de desistir. O Pai de Beethoven ao perceber o talento do filho, o colocou para tocar piano durante muitas horas, todos os dias, desde os cinco anos de idade. Seria lamentável se o Sr Johann teimasse que seu filho seria um ótimo lutador de judô.

Mas será que se minha filha tivesse vencido aquela luta e conquistado o torneio de judô, não estaria hoje sendo louvada junto com a Rafaela Silva na Rio 2016? Difícil prever. Nossa responsabilidade é enorme, mas raramente nos damos conta disso.

Quando escolhemos uma atividade para nosso filho, é bem pouco provável que planejamos que ele será o camisa 10 da seleção, dançará no Bolshoi, tocará na Filarmônica ou será um medalhista olímpico. Queremos simplesmente que ele se ocupe com algo saudável para o corpo e a mente.

Ok, ok, ok, alguns pais de fato abraçam esta atividade como se a honra da família estivesse em jogo. Torcem alucinadamente, fotografam e filmam todas as apresentações da primeira fila, brigam com o juiz, se revoltam e xingam quando o filho perde e choram copiosamente quando ele ganha uma medalhinha no torneio da escola. Isso provoca uma pressão imensa e desnecessária nos pequenos, que acabam despertando uma competitividade incompatível com sua maturidade e o senso comum.

Mas, uma vez que se observe no cotidiano do filho sinais de habilidades e competências que podem ser aprimoradas e valem a pena ser estimuladas, nós, pais, de forma consciente, tranquila e equilibrada, temos a obrigação de apoiar, elogiar, incentivar, dar os recursos necessários, aconselhar nos revezes, vibrar com as conquistas e participar da evolução, sempre e com convicção, despertando assim a paixão adormecida que poderá no futuro se tornar uma profissão de sucesso.

E assim, suavemente, as panelas substituíram o quimono e as sapatilhas, e docemente um brownie se fez.

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3 comentários sobre “E se o pai de Beethoven tivesse colocado ele no judô?

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