As Lições que os Ídolos Infantis nos Ensinaram

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Tive meus heróis quando era criança, é claro, todos nós tivemos. Muitos de nossos heróis infantis permanecem na ativa até hoje, outros se aposentaram e outros foram redesenhados, perdendo totalmente o charme que tinham. Tive até um herói (Homem de Ferro) que em um determinado episódio foi morto pelo seu arqui-rival. Foi a coisa mais infantilmente incorreta que já presenciei, e lembro-me bem do meu sofrimento e tristeza pungente. Não tenho certeza se isso deixou algum trauma infantil, mas é certo que aprendi uma lição deste episódio.

Hoje todos os heróis são imortais. Machucam-se, é fato, sangue abundante, mas no episódio seguinte estão lá, fortes e prontos a derrotar o inimigo, cada vez mais apavorante.

Dia desses revi um episódio de Speed Racer, meu ídolo maior, e fique assustado com tanta violência. Cheguei a duvidar que era o mesmo Speed que eu cansei de assistir na mesma idade do meu filho. Entendi, afinal, que na infância, a minha percepção de violência não era algo real como é hoje, e por isso não me assustava.

Ainda assim, reluto em aceitar que certos desenhos sejam assistidos pelos meus filhos. Ok, ok, Jerry é sádico com o Tom, Papa Léguas é cruel, Patolino sofre nas mãos do cínico e impiedoso Pernalonga, mas mesmo assim, são infantis. Vejo nos novos desenhos, inimigos próximos demais de nossa realidade, e profundamente assustadores. Mas as crianças gostam, como eu gostava do Speed e sua “violência” oculta.

Ash_BWNosso primeiro herói é sempre o nosso pai. Ele é nossa referência, aquele que tudo sabe, tudo faz,
exemplo de força, inteligência e sapiência. Aquele com quem nos identificamos, seguimos e imitamos. Heróis invencíveis, insuperáveis e exemplares! Mas aí vem os 8 anos de idade e a TV se encarrega de nos substituir, sem espaço para discursos de despedida. Assim, toda a admiração que nossos filhos tinham por nós é direcionada para um Caçador de Pokémons.

Resignados, só nos resta nos aliarmos a ele e ajudar a completar o álbum de figurinhas.

Creio que ídolos são seres com os quais nos identificamos e com quem gostaríamos de ser e agir. Ainda que em situações absurdas e irreais. Ainda que na fantasia. Quando criança, adorava colocar uma capa, uma máscara e sair “voando” como Nacional Kid. Felizmente, morava em andar térreo, o que aumentou consideravelmente a minha expectativa de vida.

Crescemos e continuamos a buscar heróis no mundo real. Heróis de carne e osso. Ao longo da vida escolhemos nossos heróis e com eles nos identificamos. Valores, ideais, talentos, um padrão a seguir. Buscamos um referencial.

Ser aquilo que não somos, que não podemos ser, que não tivemos chance ou mesmo capacidade de ser, mas ainda assim, pessoas normais, com limitações e erros.

Mas, um dia, quando eles vão embora, derrotados por inimigos diversos, mas igualmente perigosos, como drogas, doenças incuráveis, um defeito mecânico ou velhice pura e simples, sentimo-nos órfãos de idolatria.

906446Renato-Russo

Eu não posso, agora meu herói também não pode.

Lembro-me de um episódio em que Speed Racer dirigia seu Mach 5 em alta velocidade, sem enxergar, guiado pelo Corredor X sentado no banco do carona (e vence a corrida) e percebo como era bom ser criança! Nada era impossível para meu ídolo. Em nenhum episódio seu Mach 5 teve o eixo de direção quebrado. Nunca passou reto em uma curva. Nunca vi o sangue de Speed na pista de corrida em uma manhã de domingo.

Agora entendo o que o episódio do Homem de Ferro tentou me ensinar; mas eu era criança demais para entender. Ainda assim, a ausência súbita dos meus ídolos dói demais no meu peito, acabando por expor aos filhos a humanidade de um pai que, um dia, também já foi um Super-Herói.

Ayrton_Senna_McLaren_MP4-6_1991_United_States

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2 comentários sobre “As Lições que os Ídolos Infantis nos Ensinaram

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