Perdas Infantis: Que Lições Tirar da Superação?

water-fight-442257_960_720Aquela manhã de outono estava tão bonita que resolvi passear com a família na orla da Lagoa. A balbúrdia de crianças correndo, gritando, rindo e se esbaldando em pleno vigor infantil dava ao lugar uma alegria contagiante.

De longe, minha filha avistou o inevitável vendedor de balões, que por um instante parecia flutuar sobre o chão, tamanha a quantidade de infláveis que segurava.

Impossível não agradar a todos os gostos. Havia personagens de desenho antigos e novos, balões de times, princesas aquáticas, dorminhocas, que apreciavam a companhia de anões ou de feras gentis. Havia balões de heróis e até mesmo de alguns vilões. E havia, é claro, o balão do Piu-Piu.

– Pai! Eu quero esse!

O dedinho apontava diretamente para o sonso passarinho, que com ar angelical e puro escondia a crueldade que demonstrava com o azarado gatinho, em uma inversão lógica do senso comum.ballons-1288200_960_720

– Mas você não adora a Barbie?

Ela nem se deu ao trabalho de me responder. O dedinho em riste oscilava com o movimento do balão ao sabor do vento, não deixando qualquer dúvida sobre a sua escolha afetiva.

Amarrei então cuidadosamente o cordão do balão em torno do seu pulso e seguimos a caminhada. Seu rosto parecia um barco no cais protegido por um farol. Ora iluminado pelo Sol, ora eclipsado pelo balão.

O gesto natural de erguer o braço para proteger os olhos que não queriam perder de vista o balão fez com que o laço frouxo acabasse escapando pela mão.

– PAI! O PIU-PIU VOOU!!!

A frase soaria óbvia se não estivesse carregada de uma catarse emocional.

– Pega pai! Pega ele!

Em um impulso inútil tentei alcançar o cordão, mas o balão subiu ziguezagueando em direção ao céu enquanto uma lágrima solitária seguia o caminho oposto.

Por longos instantes acompanhamos o Piu-Piu seguir a natureza dos pássaros na esperança vazia de que ele voltasse para as pequenas mãos estendidas aos céus que teimavam em aceitar a perda.

Ao baixar os olhos e as mãos em atitude de resignação inconformada, percebi sua frustração pela minha incapacidade de ser o herói que ela esperava. E tentei consolá-la.

– Ele estava fugindo do Frajola!

– Pássaros nasceram para voar!

– Ele estava atrasado para gravar o desenho!

Nada parecia animá-la…

As perdas infantis não costumam ser valorizadas pelos pais. Dificilmente damos a elas a importância que merecem. Por que chorar tanto a perda de um simples balão? – Papai compra outro. Como se tudo se resumisse a uma questão financeira. Não é. Tivesse eu o discernimento imaturo teria dado mais atenção à sua tristeza pungente. Mas cresci, e perdi a noção da afeição ingênua que permite interpretar e entender sentimentos simples.baby-1697966_960_720Agachado à sua altura, enxugava as lágrimas teimosas incapacitado de compreendê-las. De súbito, seus olhinhos molhados se iluminaram ao mesmo tempo que o seu rosto se transformava tal como uma borboleta que se liberta do casulo e percebe uma nova vida.

– Pai! Vamos andar na bicicleta?! E saiu em disparada atrás da sua curiosidade.

Ainda agachado, reconheci a perfeita superação da perda do afeto como uma atitude de amadurecimento e entendi que aprendemos desde cedo que a vida nos oferece a todo instante, alternativas para ser feliz. Basta olhar em volta e perceber as bênçãos oferecidas.

O remoinho de vento no parque opera o milagre de fazer bailar as folhas secas que a árvore havia perdido, enquanto no céu, o balão é agora apenas uma lembrança perdida nas memórias infantis de uma criança.

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2 comentários sobre “Perdas Infantis: Que Lições Tirar da Superação?

  1. Pingback: Os Sinais das Descobertas dos Limites Infantis | Mamão Papai

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