Concursos de Admissão e os Rituais de Iniciação Indígenas

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Em diversas aldeias espalhadas pelo Brasil, jovens índios, chamados curumins, participam todo ano de exóticos rituais de iniciação chamados, na língua nativa, de Kon-Kursos. Você já esteve envolvido em algum ritual como esse? Ainda não? Pois saiba que eles são inevitáveis.

Os Kon-Kursos começam cedo, aos 5 anos, quando os indiozinhos tentam passar para uma renomada oca educacional federal. Os que não forem selecionados, podem tentar novamente aos 10 e finalmente aos 13. Se não forem aprovados nos Kon-Kursos, seus pais poderão optar por pagar sua educação, com boa parte da colheita, a um dos muitos caciques da tribo, ou então ir para uma cabana sustentada pelo pajé, que faz até chover para que os curumins não fiquem sem aula, merenda, livro ou professor.

Por ser um ritual muito disputado, esses jovens índios se preparam com afinco por um longo período. Aprendem desde cedo a subir em árvores, carregar troncos, nadar em rios infestados de piranhas e caçar. Não serão cobrados por estes conhecimentos, mas será muito útil para manter o espírito guerreiro nos momentos decisivos do Kon-Kurso.

Os períodos de diversão e brincadeira ficam bem restritos. Passam dias e meses se preparando. Alguns dia e noite. Alguns a noite toda. Alguns por vários anos. Grandes sacrifícios são exigidos quando a maturidade ainda é uma gota na nascente do rio que mata a sede do indiozinho.

E então, após um longo e exaustivo treinamento, é chegada a hora do Ritual Kon-Kurso de iniciação para jovens!

Em todas as cabanas onde vive um curumim há um clima de tensão e apreensão no ar. Os pais se esforçam para não passar nervosismo para os indiozinhos, mas o contágio é inevitável. O engarrafamento de canoas nos rios, o treinamento intensivo nos finais de semana e o falatório sem parar dos índios responsáveis pela notícias na tribo também não ajuda muito a passar tranquilidade para eles.

Enormes Ocas abrigam os candidatos à iniciação. Filas imensas se fazem nas portas. Muitos curumins choram, pais se emocionam e até pajés são vistos com os olhos marejados.aA iniciação já começou, e agora eles entendem o que é stress de homem branco.

Seus pais fazem os últimos rituais junto aos pequenos. Pequenas danças, cânticos, saudações aos Deuses. Alguns vieram pintados para guerra. Não havia nenhum exagero nisso.

A separação é obrigatória. Aos poucos, ainda olhando para trás, eles são impelidos a entrar na grande oca. Na porta são obrigados a deixar o arco-e-flecha, que fica retido até que terminem o ritual, já que lá dentro, o uso dele é proibido, o que os deixa ainda mais inseguros.

Faltando poucos minutos para o fechamento da oca, alguns pais começam a exigir o fechamento das palhas. A competição evoca os espíritos de porco e a chuva que cai leva embora a bondade dos antepassados.

E então, finalmente as palhas se fecham. Muito pais pulam, gritam e aplaudem. Alguns curumins chegam correndo, atrasados, seguidos pelos pais, abrindo um lento e tortuoso caminho na multidão. Alegam que a canoa furou, encalhou ou virou, tiveram que subir em árvores esperando a onça ir embora ou contam que uma sucuri cercou a cabana na hora em que iam sair para o ritual. Nada sensibiliza os guerreiros que tomam conta das palhas. Curumins choram copiosamente, dolorosamente. Pais fazem danças tristes, mães culpam os pais, pais culpam a mãe natureza. Enquanto isso, pais de curumins que entraram, dançam alegremente o sensível aumento da probabilidade estatística de que seus filhos serão aprovados no Kon-Kurso. Selvagens! Barbárie! Há muito a evoluir para o estágio civilizatório.

A balbúrdia aos poucos vai cessando. Aqui e ali, grupos praticam rituais religiosos. Evocam Deuses, Pitágoras e Bhaskara. Outros demonstram resignação e passividade pois não há mais nada que possam fazer. Uns dormem exaustos enquanto outros trançam palhas. Alguns pais preferem pegar a canoa, ir embora e voltar depois para pegar o pequeno índio, mas a maioria permanece em vigília aflita, como a convocar espíritos para cobrir a Grande Oca de Luz e Paz para que os pequenos curumins não se sintam abandonados e sozinhos na floresta hostil.

A fé faz chover nos campos secos, irrigar a esperança e brotar vida nova.aldeia

Após uma longa espera, aos poucos, os indiozinhos começam a sair da Grande Oca. Exaustos, combalidos e abatidos como se tivessem acabado de resgatar o guerreiro Ryan.

Ansiosos, no tumulto seus olhinhos procuram seus pais que, com medo de perdê-los, sobem em árvores, pedras e ocas. Os pais mais serenos ainda retornam calmamente das ocas em suas canoas.

O reencontro é emocionante, como se não se vissem há quatro colheitas. Laços afetivos fortes como a trama das redes que colhem os peixes dos rios. A tinta dos corpos borra e se mistura, gerando uma curiosa miscigenação afetiva.

Mas nem todos serão escolhidos, apesar de todo o sacrifício. Ficarão tristes, sofrerão. Cabe aos pais não os culpar pela derrota, não cobrar tanto por uma competição tão acirrada, mas levantar o moral, incentivar e dar força para tentar novamente. O amadurecimento não acontece de repente, assim como uma árvore precisa de tempo para dar os primeiros frutos. Acredite neles e deixe isso explícito. Um dia eles certamente serão bravos guerreiros, caciques ou até mesmo pajés.

Enquanto isso, os eleitos à entrarem nas cabanas federais comemoram, dançam e cantam. A tribo está em festa.

Na rede, o orgulhoso pai enfim relaxa enquanto mira o imenso céu povoado de estrelas. E é justamente a Via Láctea que o faz perceber o período e a razão porque seus cabelos começam a ficar grisalhos.

E é bom que repousem, porque dentro de algumas poucas colheitas virá o Grande Kon-Kurso E-Nem. E um novo,  cansativo e decisivo ritual de iniciação indicará em que rios e com que canoas navegarão os mais jovens índios da Grande Tribo Brasil.

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Um comentário sobre “Concursos de Admissão e os Rituais de Iniciação Indígenas

  1. Muito bom Leo, essa crônica, me lembrou bem a agonia quando o Lucas foi entrar para o CPII via edital e depois sorteio …ele tinha apenas 5 para 6 anos, menino de sorte conseguiu de primeira e dai ficou estudando durante 12 anos nesse Colégio de renome e é muito grato por isso. Ele continua indo no Colégio para ajudar de alguma forma o que demonstra o seu amor por essa grande instituição e na qual devemos tanto valorizar.
    Um beijo no coração! Lucia Azevedo (EBT)

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