A Perda de uma Paternidade Improvável (Michael e Eu)

029Por um bom tempo resisti à ideia de dar um bicho de estimação para as crianças. Mas o pretexto do aniversário da pequena, minha paixão por pássaros desde a infância e a possibilidade de ter um animal doméstico com a capacidade de interagir conosco, e sem a necessidade de ter que levá-lo para passear mesmo nas manhãs frias e chuvosas, me animaram.

Uma calopsita não é um animal qualquer. Sua carência deliciosa cativa até uma pedra. E escolhemos o mais carente de toda a loja. Carente e com uma característica muito peculiar: sua mania em andar para trás. Foi inevitável a comparação com Moonwalk, daí o seu nome de batismo: Michael Jackson, Maiquel, nosso Maiquinho.

Maiquinho era de fato um bichinho adorável. Capaz de viver livre fora da gaiola, interagia e participava da vida familiar como se as grades de sua gaiola fossem as paredes da minha casa.

A doença grave detectada no seu primeiro exame com a veterinária que eu, em um tremendo ato falho, insistia em chamar de pediatra, acentuou ainda mais o paternalismo improvável entre nós. A comparação era inevitável: dar colo, remédio na boca, ninar para dormir e para parar de chorar e até limpar suas “fraldas”. Tudo isso já havia ficado para trás há um bom tempo. Que saudades…

Recebi da veterinária a notícia de sua cura com uma alegria e um alívio imensos, como se um filho tivesse se curado de uma longa febre, e cada vez mais fui cativando e sendo cativado por aquele ser amarelinho, peludo e carente.

Com o tempo, ele aprendeu a piar seu próprio nome, e é claro que utilizava este talento para nos chamar sempre que precisava de algo: frio, calor, fome, vento ou simplesmente colo. Uma deliciosa chantagem emocional.

Sem me dar conta, estava criando novamente um “bebê”, e isso me dava muita alegria.

Maiquinho também fazia suas malcriações. Uma calopsita rói tudo que vê pela frente: móveis, livros, fios, praticamente tudo. E tínhamos que tomar conta para que não colocasse nenhuma besteira na boca. Alguma semelhança?

Adorava banho, ouvir música, dormir deitado no meu peito, assistir TV no meu ombro, aconchegar-se sobre a cabeça, cantar… Como cantava bonito nosso Maiquinho!

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Um dia ele acordou diferente: calado, deprimido, sem apetite. Parecia ter regredido à sua infância. Aos poucos recuperou a energia, a disposição e finalmente o canto, mas não repetia mais o próprio nome com aquele jeito tão gostoso.

E então aconteceu de repente: esperou todos saírem e em menos de dez minutos seu canto se silenciou para sempre. Minha esposa já o encontrou inerte, no chão da gaiola, sem vida, e desesperou-se! Ao chegar em casa e encontrá-la em prantos, rapidamente entendi o que havia acontecido. A gaiola coberta pelo paninho, que o aquecera nas noites frias, e um enorme silêncio gritavam a sua ausência. Vê-lo morto arrancou de mim uma tristeza imensa, enquanto a ternura parecia evaporar-se, abraçada à sua pequena alma pura.

No pequeno quarto, de joelhos, agasalhei inutilmente o corpinho de Maiquinho, pois o inverno continuaria frio mesmo com a chegada da primavera. Junto ao seu corpo, encostei os brinquedinhos que o acalentavam ao dormir e o embalei com a minha tristeza molhada.

Atrás de mim, em pé, as crianças em silêncio tentavam assimilar e aceitar a perda inesperada de seu amiguinho, enquanto uma dor pungente envolvia o ar que respirávamos.

Na solidão noturna do jardim, revolvi as plantas e o guardei carinhosamente sob a vigilância de uma margarida, sentinela da natureza.

Nunca imaginei que um ser não humano pudesse ocupar um espaço tão grande em meu humano coração…

No dia seguinte, pela manhã cedinho, um surpreendente filhote de bem-te-vi entrou em nossa varanda, e lá ficou por longo tempo cantando, como que espantando o silêncio incomum, como se tivesse sido enviado por um pequeno anjo acostumado com as suas asas, como que nos agradecendo por ter ajudado a prolongar sua breve vida. E assim, e por muitos dias seguidos, ele nos presenteou com sua visita.

De Michael ficou seu retrato na estante, a gratidão por ter alegrado nosso lar e uma saudade imensa do filho adotado e de profunda estimação.

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