Como me Tornei Ator Involuntário de Peças Infantis?

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Imagino que as peças teatrais infantis devam ter a assessoria de um psicólogo, pedagogo, ou mesmo alguém que conheça o fascinante universo infantil de fantasias e mistérios para traduzir para os pequeninos a magia de contos de fadas inesquecíveis.

Imagino também que os autores, cenógrafos e músicos de tais peças devam imaginar que a maioria dos pais que assistem às apresentações com os filhos, não tiveram a chance de assistir esta tradução dos valores lúdicos em mundo de cores e sons em sua tenra idade.

Imagino, portanto, que deve ser por isso que é quase inevitável que tenhamos que pagar micos de participação (totalmente) involuntária, seja atuando como uma árvore frondosa, seja imitando um galo despertando, seja se arrastando como cobra pelo palco, enquanto os olhinhos faiscantes da criançada, fascinados, vêem os seus pais transpor o mundo real, do adulto, para um mundo de faz-de-conta, para em seguida voltar corados como se tivessem sido maquiados para fazer o papel de tomate sorridente, num misto de orgulho (deles) e constrangimento (nosso).

Assisti a diversas peças infantis e sempre tomei o cuidado para sentar atrás de alguém bem acima do peso ou muito alto, e sempre longe das laterais. Mas eles quase sempre me achavam…

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Com o tempo adotei algumas estratégias para não participar do maravilhoso mundo das artes cênicas, como colocar a caçula no colo, jamais ir a teatro vazio e demonstrar impaciência, tédio e aborrecimento. Sorrir e bater palmas, nem pensar! Isto significava assinar um atestado símio que dispensava apresentações e convencimentos, pois lá do palco já descia saltitante um dos três porquinhos me puxando pela mão para se esconder com ele do lobo mau.

Muitas vezes o comum temor dos filhos pelos personagens era maior do que o meu, o que os fazia esconder o rosto de pavor. Eu os entendia. Eu os entendia…

O maior mico que já paguei foi em uma peça infantil sobre Graham Bell, na qual, é óbvio, após ter que engatinhar por entre tubos e atravessar portinholas onde o risco de ficar entalado era enorme, tive que subir ao palco e imitar um telefone tocando, em uma posição, digamos, um tanto quanto suspeita, enquanto observava na platéia os pais sobreviventes sorrirem nervosos, mas aliviados, porque não tinham sido escolhidos. Não daquela vez.

É claro que adquiri uma certa paranoia com relação à teatro e tremo até quando os atores caracterizados com os personagens me entregam na rua filipetas com descontos para a peça. Faço cara de antipático, pego os convites e os pulverizo antes que meus filhotes possam perceber que a Bela Adormecida usava piercing na língua.

Pode até parecer cruel e egoísta à primeira vista. Mas é só trauma.

Sei que isso deve ter terapia e eu vou superar, contanto que a psicóloga não dê consultoria à direção de peças infantis.

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