Do que são Feitos os Sonhos de uma Criança?

dragon-1712819_960_720Estávamos ambos exaustos quando o coloquei para dormir em sua caminha. Ele abraçou seus “amiguinhos” preferidos, organizou a selva de pelúcias, e já debaixo do cobertor fez o pedido cheio de chamego:

– Pai, conta uma historinha pra mim?

Observei os olhos carentes dele, cabecinha inclinada, suspirei fundo e concordei com um sorriso. No fundo, torcia por esse pedido.

Fui até a estante escolher um livro, mas ele já havia decidido.

– Conta a do “Pintinho Quiquiriqui”?

– De novo filho?!

Questionei sua preferência inquestionável jpgenquanto me perguntava de forma lógica qual a graça que tinha em ouvir uma história que já se conhecia quase de cor.

Deitei-me ao seu lado para que ele pudesse ao mesmo tempo ouvir e ver as gravuras, e iniciei a história.

Seus olhinhos atentos brilhavam com a magia do conto, enquanto sua imaginação descortinava cenários únicos de uma história recorrente.

A variação no tom e a musicalidade nas vozes, efeito decorrente de um curso de oratória que fiz com a finalidade de apresentar palestras, e que caíram como uma luva na narração de livros para crianças, davam autenticidade aos personagens e criavam o clima necessário para transpor para a realidade infantil o cenário quase sempre improvável.

Era como se o ambiente da história tivesse transbordado sobre a cama e os personagens ganhassem vida em uma realidade mágica, ingênua e inebriante, visível somente pelos olhos dos inocentes.

Dessa forma, o quarto se transformava em campos habitados por heróis e vilões, animais com hábitos e costumes ilógicos. Viajávamos a planetas desconhecidos povoados por príncipes ou princesas, e reis que habitavam em castelos cujos muros não respeitavam os limites das paredes do pequeno quarto.

Éramos cúmplices de romances, dramas e malvadezas de toda espécie. Sofremos juntos com os que estavam ao lado do bem quando o mal ameaçava vencer, e compartilhamos as alegrias quando os “moços feios” eram eliminados, muitas vezes com uma crueldade acintosa, ou será que não passaram da conta quando abriram a barriga do lobo mau e encheram de pedras para que ele afundasse no lago?

Todo o Universo permitido pela imaginação cabia no quarto do meu filho em uma singularidade poética.

Vencido aos poucos pelo sono, a voz de seu pai foi ficando cada vez mais distante, como se estivesse partindo em uma carruagem para um reino tão tão distante, e mais uma vez o pequeno não ouviu o conhecido final da história. Em seus sonhos, no entanto, a magia continuava. Nele, personagens se misturavam uns aos outros: seu pai agora era um príncipe e sua mãe, a princesa (sua irmã provavelmente era o dragão).

Em seus sonhos, não haviam mais limites e o enredo inconsciente produzia contos inimagináveis, cheios de fantasia e utopia. Ao acordar pela manhã, tudo já terá sido esquecido.

Na estante, no entanto, a magia aguardava a escolha do conto que alimentará à noite, o mais puro sonho infantil.

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