Febre Infantil: A Angústia da Paternidade

febre

39.1º “bip” 39.2º “bip”, 39.3º “bip” 39.4º “bip” 39.4º “bip” 39,4º “bip bip bip”. Por um tênue instante fiquei aliviado pelos três bips. Tempo suficiente para perceber que a temperatura ainda era muito alta. Garganta? Sarampo? Manchas pelo corpo? Tosse? Palidez? Você já passou por esta situação?

– Encosta a cabecinha no peito, filha!

Por que sempre passa pela nossa cabeça que a virose que o médico falou ao telefone seja o de uma doença quase sempre fatal?

A angústia em encontrar uma razão para uma febre repentina ao mesmo tempo em que buscava ter calma e equilíbrio emocional para encontrar uma solução que trouxesse a saúde de volta o mais rápido possível, me dava forças para proteger e curar a cria, como se lutasse pela minha própria vida. Família!

Os olhinhos caídos, a boca trêmula e a falta do sorrisinho desdentado anunciavam melancolicamente a chegada da noite. Reter sua testa enquanto seu estômago revolto expulsava o remédio amargo duramente engolido me fez voltar à infância e perceber como este gesto era de evidente paternidade. Eu estava agora “do outro lado”, enquanto meu pai observava de muito longe a repetição da lição aprendida enquanto cuidava da neta que não pôde abraçar.

As minhas brincadeiras patéticas arrancaram dela um sorriso débil (além de um comentário jocoso do enciumado irmão mais velho), mas foram insuficientes para dissolver o aperto no meu coração.

Ajudar um ser tão frágil, que não sabe ainda expressar seus sentidos expõe nossa impotência, inexperiência e potencializa o medo de errar com quem mais amamos. É preciso ser humilde e pedir ajuda a quem já experimentou e, fundamentalmente, ao seu pediatra. Você pode até ficar receoso de acordá-lo no meio da noite, mas com certeza ele voltará a dormir com a consciência dos abençoados.

Nessas horas difíceis, é absolutamente essencial que o casal se mantenha unido, se ajude e se apoie. Não há espaço para acusações, culpas ou remorsos. O único propósito consiste em cuidar do filho. E para isso o amor tem de superar todas as diferenças. Lembre-se dele quando a crise passar!hand-in-hand-1696833_960_720

Então, em um gesto de evidente ternura, fechei meus olhos e encostei minha bochecha na dela na suposição vazia de que poderíamos trocar calor e assim baixar sua febre, mas a sensação térmica me impulsionou a tirar novamente a temperatura: 39.7º. Não dava mais para esperar o antitérmico fazer o efeito desejado.

Corri e liguei o aquecedor às dez da noite mais fria do ano. Logo ela começou a chorar pelo frio que iria sentir e soluçou em pranto lento quando a pusemos em baixo do chuveiro. As lágrimas salgavam a água que corria sobre seu rosto quente enquanto meu espírito se enfraquecia, como se estivesse doando parte de minha luz a um ser que carece de compaixão. O amor mútuo se encarregará, mais tarde, de recarregar a alma esvaziada em favor de um filho.

Baixinho, pedi desculpas inúteis a ela pelo sacrifício que a impunha, mas ela não me deu atenção. Sentada no chão do box, a água morna caindo sobre seu corpinho encolhido, tremia sob o olhar atento e exausto da mãe sentada no bidê, aguardando que a febre fosse embora junto com a água, ralo adentro. Busquei uma bonequinha para que ela pudesse brincar, como forma de livrar minha consciência de uma culpa ao mesmo tempo improcedente e doída.

Em comunhão, pai e mãe revezavam o sono por toda a noite, vigilantes cansados, mas atentos de um filho carente de atenção e cuidados vitais. E nem mesmo a lembrança das obrigações profissionais ao amanhecer faziam sentido diante da responsabilidade maior e primordial de proteção.

Finalmente, tarde da noite, o calor do seu corpinho cedeu lugar a uma sudorese abundante. O gesto de trocar seu pijaminha encharcado por um seco e quentinho simbolizava a vitória da vida e o fim de uma luta contra um inimigo invisível, materializado por um termômetro inocente, mas perverso em suas oscilações térmicas de angústia e alívio.

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2 comentários sobre “Febre Infantil: A Angústia da Paternidade

  1. É uma angústia que não tenho saudade, mas, infelizmente, acontece e é inevitável. Sei bem o que é isso. Agora, com uma neta a caminho, tento me preparar e equilibrar para não disseminar a insegurança. Belo texto, gostei muito. Forte Abraço, Carlinhos

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