E você achava mesmo que as bolhas eram feitas de sabão?

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Passeando de bicicleta pela orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, subitamente me vejo envolvido em uma nuvem de bolhas de sabão. Com os olhos ardidos, encostei e parei para observar a origem de uma das mais clássicas manifestações da infância ingênua.

Na beira da ciclovia, uma criança mergulhava o “pirulito” no pote de sabão e se preparava para mais um enxame de pureza. Encheu de ar os pulmões, e suavemente soprou. Dezenas de pequenas bolhas se espalharam pelo ar: algumas esbarravam nas pessoas, outras caíam e estouravam no chão enquanto outras buscavam o céu, onde explodiam em pequenas gotículas refletidas pelos raios do bonito Sol que fazia naquele domingo.

Apesar de alguns automatismos, que tiraram toda a graça, pois não dependem mais do sopro infantil para produzir o efeito, a brincadeira é a mesma desde muito tempo.

Se você reparar bem, não é tão banal como parece. Após o sopro, todas as crianças em volta se envolvem em um balé inebriante tentando de todas as formas estourar as bolinhas. Riso solto, gargalhadas em profusão, infância em estado bruto, até que a última bolha estoure ou se eleve acima de onde os pequenos e frágeis braços estendidos não conseguem mais alcançar. E então a brincadeira recomeça até que todo o sabão se acabe. Ou então…

– Paaaai!!! O sabão derramou!!!

O olhar melancólico observava o líquido espalhar a espuma inútil sobre o gramado, permitindo que o canto dos bem-te-vis se impusesse sobre os gritos mudos das crianças, cessando de repente a efervescência dos primeiros anos de vidas delicadas.

Mas bastou que os dedos com sabão enxugassem os olhos marejados para que a algazarra voltasse como vento de outono.

– Tá ardendo! Tá ardendo! Sopra pai! Sopra!!

Agachado na mesma altura que tinha quando espalhava bolhas pelo mundo, o pai sopra suavemente os olhos que piscam incessantemente como asas de uma borboleta que acabou de sair do casulo, e então tira da bolsa um pote cheio com o precioso líquido.

– Paaai! Você trouxe mais?!

E então, o ar carregado de inocência, pureza e simplicidade volta a encher novamente bolhas envoltas de sabão, a girar e refletir em formas multicoloridas todo o mundo ao seu redor, e a explodir e espalhar o pólen da receita primordial pelo mundo.

Subitamente, percebo na pele que o sabão se transformou em encantamento, e sinto renascer dentro de mim a infância que há muito havia se perdido.

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