Fé Cega, Faca Amolada

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A administração dos riscos que um filho corre ao longo de toda sua vida é uma responsabilidade de todo pai e de toda mãe. Evitar que ele se machuque, fique doente ou sofra é uma atitude que nasce assim que o cordão umbilical é cortado, como uma forma consciente de preservá-lo.

E nada simboliza mais esta preocupação que o uso de uma faca amolada pelo filho. É como se fosse um marco, um limite que separa a infância da vida adulta.

Desde bem pequeno vamos aumentando progressivamente as fronteiras do que pode e do que não pode. Somos o discernimento de quem ainda não o possui, a vigilância do possível e o juiz do risco aceitável.

Um equilíbrio sutil entre a liberdade que o fará amadurecer e o risco que o fará sofrer.

– Não! Não pode! Papai não quer! Faz dodói! É sujo! Vai cair!

A chupeta que pega do chão, o pequeno objeto que coloca na boca, a virada sobre o trocador, o líquido que não pode beber, os objetos pontudos, cortantes, ferramentas, vidros, quinas, o fogão aceso, o chão escorregadio, a friagem, a golfada dormindo, o travesseiro que pode sufocar, o brinquedo que pode desmontar, o buraco, o tapete, o escorrega, o balanço, a piscina, a multidão… São tantos os perigos que nem nos damos conta de como permanecemos em vigília 24 horas por dia.

Eles crescem, e quando nos damos conta, já aprenderam a usar a faca amolada sem perder um dos dedos. No entanto, o discernimento ainda se contrapõe ao livre-arbítrio. Supõem-se imune a perigos, subestimam os riscos, nos vêem como medrosos. Não podemos mais estar presente à maior de seus momentos. E então, abraçamos uma fé cega.

Mudam as estações, mas não as preocupações. Continuamos a testar os limites, e gradativamente vamos cedendo espaços, enquanto eles vão conquistando a liberdade tão desejada.

– Vai aonde? Vai com quem? Como vai voltar? Seu amigo dirige bem? Ele bebe? Vai voltar tarde? Se cuide hein, filho!

– Pai, porquê você não confia em mim? Eu me cuido, pai!

Sabemos disso, educamos para isso, protegemos até onde foi possível, mas agora eles já cortam o pão sozinhos…

– Pai! Vou acampar na Ilha Grande com a minha namorada! Beleza?

– Pai! Estou juntando dinheiro para pular de asa-delta! Beleza?

– Pai! Vou com uns amigos fazer intercâmbio na Austrália! Beleza?

– Beleza! Se cuide filho! E vai com Deus!

Fé cega, faca amolada.

É preciso saber a hora de recolher as amarras e deixar o barco solto, ao sabor do vento. Não se trata de deixar pra lá! Ocasionalmente, vamos informar a previsão do tempo, para que evitem as tempestades, redemoinhos e buracos negros do mar, mas estamos cientes que o barco é dele: o capitão que você ensinou a navegar.

Ao pai, é voltar os olhos com amor para a mãe e bora viver a vida, porque preservar um porto seguro é essencial para o barco que buscará a luz do farol quando as noites não tiverem a Lua como testemunha da paternidade.

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