A Cadeirinha de Bebê Mudou sua Vida e Você nem Percebeu

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Quando eu era jovem tinha um método infalível para não cometer loucuras ao volante do carro: bastava esticar o pescoço e olhar o capô do carro. Esta visão me dava a noção exata de onde eu estava e o que poderia me acontecer em caso de acidente.
Mas então veio o primeiro filho, e junto com ele, a indefectível cadeirinha de bebê. E então, tudo mudou!

Presa ao banco traseiro, sua presença, mesmo sem o bebê, era visão obrigatória no espelho retrovisor. Isso, é claro, mudou meu comportamento ao dirigir. Já não era mais necessário ter a consciência de que estava dentro de uma caixa de aço, entre o motor e o tanque de gasolina. Bastava olhar pelo espelho retrovisor, o que é um ato contínuo a quem dirige, e lá estava ela, qual um Moai, misteriosa estátua da Ilha de Páscoa, a desafiar meus instintos, imponente e impassível, e a moldar minha nova forma de dirigir.

Já não havia mais espaço para discussões no trânsito, manobras arriscadas, freadas bruscas e sinais quase vermelhos. Lá atrás, um ser pequenino, frágil e deslumbrado como um ventilador ligado, com seu olhar curioso para um mundo que se renovava a cada curva, silenciosamente me dizia que precisava de mim. Mesmo com apenas dois dentinhos e uma linguagem simples, ensinou a responsabilidade a um homem que subitamente se descobre, pai.

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Balbuciava seus sonhos de um dia jogar bola comigo, caminhar em comunhão nas areias relaxantes de Rio das Ostras, ouvindo ondas em conchas ou as colecionando do mar. Pedia-me, à sua maneira, para ensiná-lo a andar de bicicleta sem rodinhas, explicar o porquê das coisas e a jogar botão, damas e trunfo.

Não tinha o direito de decepcioná-lo. Se eu lhe faltasse, como se lembraria de mim? Que sobrecarga desumana seria jogada sobre a mãe? Uma injusta, desnecessária e irresponsável orfandade.

Lembro bem, que no carro de meu pai havia um porta-retratos com um imã que prendia no painel do carro (sim, pasmem, naquele tempo o painel era de ferro), com as fotos dos filhos acompanhado da mensagem “NÃO CORRA PAPAI”. Tinha o mesmo efeito psicológico da cadeirinha, quando era a mãe que acolhia o bebê no colo do banco traseiro, e não uma confortável e segura “poltrona de Boeing”.

Não Corra Papai

Mais tarde, quando a cadeirinha, de forma cerimoniosa, é retirada do carro, a sua sombra permanece por lá, a lembrar que a nossa saúde é importante para uma vida que precisa essencialmente de uma família.

E esta mudança não fica restrita entre as quatro rodas. Adotamos naturalmente uma nova postura em relação à vida, com mais cautela, reflexão e ponderação.
Mudamos nossa alimentação para algo mais saudável, evitamos os excessos, os esportes radicais e as atividades de risco. A academia passa a ser um lugar para ficar mais saudável, não mais para ficar mais bonito!

É por isso que as pessoas costumam dizer que alguém ficou mais calmo depois que o filho nasceu. Conversa! Na verdade, é medo de não poder acompanhar o crescimento, ser e estar presente nos momentos mais importantes da vida do filho e testemunhar seus genes se preservarem pelas gerações seguintes.

E ainda mais tarde, quando os baixinhos passam a ocupar o banco da frente e a disputar o rádio e a nossa paciência, o juízo adquirido ao longo de toda a infância se torna um incômodo insuportável para eles.
Reclamam que somos lerdos, não arriscamos, não cantamos pneu, nem buzinamos! Pais medrosos!

– Passa ele, pai, passa ele!
– Pra que botar cinto pai? Você nunca bate!
– Pai! Até aquele Fusca te passou!

Concordo que seria mais honesto explicar a eles que, sim, já fomos jovens arrojados, corajosos e até mesmo deliciosamente irresponsáveis, mas que, para protegê-los, adquirimos um juízo, uma sensatez, um equilíbrio e um bom senso, para que tivessem a chance de receber uma boa educação, exemplo de cidadania, civilidade e respeito ao próximo.
Mas achei que não entenderiam, e acabei botando a culpa no motor 1.0.

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