A Fonte da Juventude fica nas Montanhas

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15 anos! Uma idade linda na vida de uma menina! Quando minha filha debutou, dei a ela duas opções: ter uma festa, que duraria apenas algumas horas, usaria um vestido uma única vez na vida, dançaria com um “príncipe” que nunca seria seu namorado, se esqueceria de tudo dois anos depois, apesar de gravar um vídeo que jamais seria visto, e ainda teria gente criticando a comida, reclamando dos brindes e falando mal do seu penteado, ou então, ir à Disney. Ok, ok, ok, fui um pouquinho egoísta, mas precisava curar a frustração de minha infância. Além do mais, foi ela que escolheu!

Quando você conta para as pessoas que vai conhecer a Disney, ocorre um fenômeno inusitado: são poucos (muito poucos) aqueles que lhe incentivam a se divertir nos brinquedos, aproveitar os passeios e ser feliz nos parques. A maioria prefere lembrar a você que soube que o cunhado da prima do namorado de uma amiga do tio, um pouco mais novo que eu até, resolveu arriscar andar em uma montanha russa e teve um AVC, um infarto e uma síndrome do pânico, tudo ao mesmo tempo, ficando com sequelas irreversíveis.

Vamos lá, minha experiência mais incrível em um parque havia sido no Tivoli Parque da Lagoa, onde a emoção da montanha russa perdia feio para o Carrossel da Disney. Então, pra que isso, eu pergunto?

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Quando um pai resolve participar de “eventos radicais” junto com os filhos bate uma dualidade imensa: ao mesmo tempo que queremos mostrar para os filhos que somos sim corajosos, que queremos sim nos divertir junto com eles e que, afinal de contas, não fui à Disney para ficar sentado em um banquinho comendo sorvete do Mickey, bate um receio danado de que já não tenho mais idade para tais emoções, e que todas aquelas histórias horríveis que me contaram, mesmo depois do embarque, eram um aviso para que eu não me metesse à besta.

Tivemos uma vida inteira para nos alimentar de temores, medos e consciência dos perigos. Aprendemos o que nos faz mal, o que engorda, o que provoca doenças, o que faz a pressão, o colesterol, os triglicerídeos e a glicose subirem, sabemos direitinho como são os sintomas das doenças, de um ataque cardíaco, de uma pedra no rim, de um derrame e sabemos as causas e as consequências. É a cultura do medo!

As crianças, ao contrário, só querem saber de se divertir. Isso antes que os pais, a escola e os documentários da TV a cabo incutirem em suas mentes ingênuas os riscos de ser feliz.

E, definitivamente, a Disney é um lugar projetado para você ser feliz. Impossível ficar indiferente à magia e à fantasia. Impossível ignorar a alegria transbordante no ar. Impossível não retribuir a um aceno do Pato Donald ou um abraço do Pateta.

Então, ou você vira um chato ranzinza, ficando o tempo todo de mau humor, reclamando das muitas filas, do calor, do preço da pipoca e dos gritos das pessoas que estão deliciosamente sofrendo, ou você encara, vence os medos e aproveita a vida!

E foi isso que eu fiz! É claro que não se esquece 50 anos de medo incutido de um momento para outro. Mas ao me envolver no clima, “voltei a ser criança” como se tivesse tomado água da fonte da juventude, e assim, encarei os fantasmas e embarquei em uma das muitas montanhas-russa. No trajeto insano, deixei cair temores, frustrações, pânicos, fobias, precauções e inseguranças. A rede não segurou e as perdi irremediavelmente… Coisas de adulto, nada de importante. Saí mais leve, mais jovem e mais feliz!

Quando entramos em um parque como a Disney, ganhamos um passaporte com uma licença para ser criança novamente. E isso não é ruim, de forma alguma! Ao contrário, saímos de lá mais maduros, porque aprendemos a conciliar as responsabilidades e a maturidade de um ser adulto com o arrojo e a leveza da juventude.

Valeu Mickey!

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O Melhor Investimento do Mundo!

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Que investimento é esse cujo retorno vai para outra pessoa, sem liquidez imediata porém com alta rentabilidade? Por que acreditamos tanto nos resultados sem que haja evidências de que é um bom negócio? Vale mesmo a pena investir em algo que não temos certeza se será de fato resgatado no futuro?

Quando eu tinha 10 anos de idade, ganhei de meu pai o primeiro kit da coleção Os Cientistas. Era composto de uma caixinha de isopor, contendo uma série de objetos para que eu realizasse as principais experiências de Sir Isaac Newton, junto com um livreto contendo uma breve biografia. O poder daquela obra quinzenal vendida em banca de jornal era tão intenso que despertava inventividade, criatividade e curiosidade nos pequenos cientistas do início dos anos 70. Não era barato, custava caro! E ainda aumentava de preço de tempos em tempos. Mas meu pai investiu até onde foi possível, e lembro-me até hoje de sua frustração ao me dizer que não teria mais como comprar a coleção, mas na época, uma criança, não entendi o sentido de sua tristeza.

Meu pai também era muito querido pelos vendedores de enciclopédias, e também adquiria semanalmente fascículos de obras fantásticas, que depois eram encadernadas à mão. E eram muitas, sobre várias áreas do conhecimento humano, com papel de primeira, conteúdo de alto nível e ilustrações que despertavam em mim fascínio e encanto.

Astronomia, medicina, biologia, química, história, física, biografias… Todo o Google cabia na estante lá de casa!

Mas qual o sentido de se investir em conhecimentos tão diversos sem saber qual deles viria a ser o propósito de vida, a carreira e a base do sustento dos filhos?

Qual a importância em se adquirir um enorme espectro de cultura mesmo sabendo que apenas uma fração dela será útil no futuro?

Até que ponto a diversidade de informações favorece a escolha de uma linha única de pensamento?

Pois ao me oferecer um universo amplo de cultura, meu pai permitiu, fortaleceu e despertou em mim o livre arbítrio e o discernimento para que eu seguisse o caminho que eu julgasse mais adequado.

E nesse mar fértil de cultura eu escolhi o barco que entendi que me levaria a um porto seguro. E foi então que, novamente, meu pai voltou a investir em minha cultura, com um objeto de grande estímulo e que foi fundamental à minha escolha de carreira.

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Hoje me pergunto que sacrifícios ele teve de fazer? Do que ele abriu mão? Quanto custou para a vida dele me oferecer a cultura para o meu futuro? Jamais saberei…

Mas aprendi que quando assumimos o papel de pai, temos o dever de investir nos filhos. E o melhor investimento do mundo sempre será a cultura que oferecemos a eles. De todas as formas!

Em um mundo de informação farta, precisamos ser criativos e não nos acomodarmos, afinal “pra que que vou me preocupar em dar acesso à informação se na internet já tem tudo?”

E essa é a questão: ainda que meu pai comprasse um monte de enciclopédias, é óbvio que ele pré-selecionava o que julgava “bom para mim”. Hoje, não dá mais para selecionar o que eles buscam. A Geração Y se vira sozinha e corre atrás (a Geração Z corre na frente). Sem contar o que chega até eles sem que solicitem, via Redes Sociais, WhatsApp e outros meios. Mas podemos, desde a infância, direcionar, orientar e fornecer os caminhos da cultura. Quer saber como?

  • Comprando (e lendo para eles) bons livros infantis

  • Levando-os para participar de eventos culturais (arte em todas as possibilidades)

  • Viajando e explicando para eles a história e a cultura local

  • Dando a eles referências sobre pessoas notáveis e que fizeram diferença

  • Sendo uma referência, porque eles vão te copiar, quer você queira ou não.

  • Ensinando a usar a internet de maneira efetiva, isto é, separar o joio do trigo, e extrair o que é informação legítima

  • Comprando livros de várias áreas do conhecimento

  • Conversando e passando, de pai para filho, a bagagem cultural que você adquiriu ao longo de toda a sua vida.

Crianças adoram perguntar “por que?”. E acreditam sinceramente que você, pai, tem todas as respostas para todas as perguntas do Universo. Portanto, responda o porquê das coisas. Mesmo as mais estranhas (e serão muitas), mesmo as mais absurdas, mesmo as mais constrangedoras, mas responda (e não empurre a pergunta para a mãe).

Serão nossos filhos futuros Einstein, Lavoiser, Volta, Da Vinci, Arquimedes, Farady, Descartes, todos cientistas brilhantes que tiveram sua genialidade embutida em uma pequena caixa de isopor? Não há como saber.

A única certeza que temos é que, ao investir na cultura deles, mesmo sem vislumbrar, esperar ou mesmo ter retorno deste investimento, estamos acreditando que eles irão honrar o compromisso de assegurar e perpetuar a herança cultural para as futuras gerações.

Vamos investir?

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O que podemos aprender com as Gerações Y e Z?

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Sou um Baby-Boomer (quase X!), e pai de jovens das gerações Y e Z. Pelo menos é assim que fui enquadrado pelos estudiosos que classificaram as gerações baseado no período em que nascemos e pelas nossas características. Muitos já escreveram sobre os conflitos entre estas gerações, mas o que podemos aprender com estes jovens?

Em geral, os Baby-Boomers são aqueles que nasceram no pós-guerra até a primeira metade dos anos 60. Foram sucedidos pela Geração X, que enquadra os que nasceram na segunda metade dos anos 60 até o final dos anos 70 / início dos anos 80. Os Millennials (Geração Y) nasceram entre o início da década de 80 até a primeira metade dos anos 90, sendo sucedidos pela Geração Z, que vai até o final da primeira década do século 21.

Ou seja, a Geração Y tem hoje, em média, entre 22 e 35 anos, enquanto a Geração Z tem entre 8 e 21 anos. Então, é bastante provável que você seja pai ou mãe de um jovem de uma dessas duas gerações. Mas o que elas têm de tão diferente da nossa?

Jovens da Geração Y não têm muita paciência, e não teriam chegado a este parágrafo se os três primeiros não deixassem explícito qual o propósito deste texto. Eles buscam sempre dar um sentido às coisas e à própria vida, acreditando que tudo é possível. Por isso, sonham alto, porque não temem o novo.

Propósito! Propósito! Propósito! Esse é o mantra!

Millennials? Ainda estão comigo?

É um grande engano achar que, por serem impacientes, não terminam o que começam. A inquietude, o dinamismo e o imediatismo são a locomotiva (um termo bem Boomer, por sinal), que impulsiona tudo o que fazem. Tem foco no curto prazo e conseguem alcançar os objetivos simplesmente porque desenvolveram algo que as gerações anteriores achavam impossível: ser multitarefa.

E é por isso que você verá um jovem dessa geração assistindo um programa na TV ao mesmo tempo que acessa um canal no YouTube pelo notebook, passar a timeline no Facebook ou no Instagram (ou os dois juntos) no smartphone enquanto combina uma saída com os amigos no WhatsApp, escuta uma música no fone e te responde como foi a prova de Sociologia que fez na véspera. É difícil para nossa geração entender como isso é possível, mas não precisamos entender, simplesmente aceitar que, sim, para eles, é possível!

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Injustamente, são tachados de egoístas mas, pensar em si próprios não é ruim quando essa imersão tem como objetivo o autoconhecimento, fazer o que gostam, o que dá prazer e o que tem sentido. Sim, eles são fiéis ao que acreditam da mesma forma que os jovens dos anos 60 perseguiam e lutavam pelos direitos que supunham ser primordiais. Querem liberdade para escolher, buscam a realização pessoal, ter as rédeas, os valores e um estilo da própria vida. Bem razoável, não?

Tanto é verdade que não são egocêntricos, que é a primeira geração que se preocupa de forma determinada com as causas sociais, os desafios ambientais e a qualidade de vida. Tem foco no ser humano e desenvolvem atitudes sustentáveis para construir um mundo melhor para si e para as próximas gerações. Os jovens da Z e os Alpha (a partir de 2009) agradecem!

Afinal, eles nasceram convivendo com os grandes avanços da tecnologia, os computadores pessoais e a Internet. Muitos não conheceram o mundo sem a Internet. Por isso, são uma geração profundamente conectada. Dormem, acordam e tomam banho com um smartphone próximo. Não perdem tempo, como nós, pensando em uma solução. Buscam no Google, naturalmente!

Acontece que nossa geração fez algo sensacional e inexplicável para as que nos sucederam: fizemos uma faculdade sem o uso da Internet. Daí essa nossa mania esquisita de pensar antes de procurar no Google. Não se trata de orgulho besta, mas de hábito.

Em decorrência disso, confiam quase que cegamente na Internet e podem adquirir produtos sem um mínimo de prudência. Isso para nós que pensamos em todas as possibilidades de fraude antes de colocar o número do cartão de crédito em um site é uma agonia. Mas, aos poucos, vamos enfrentando e superando este medo, enquanto eles vão aprendendo a ter.

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O feedback é essencial em suas vidas, e vai desde a nossa opinião sobre a nova namorada (apesar de não perguntarem diretamente) até o que achamos sobre uma nova forma de investimento financeiro (que eles já fizeram).

Sim! Eles pesquisam, estudam e estão sempre encontrando novas formas de ganhar dinheiro. Diferente de nós, têm diversas fontes de renda, e dão um banho em nossa visão conservadora sobre economia simplesmente porque nós crescemos em um mundo de instabilidade financeira, inflação galopante e trocas constantes de moedas; um cenário que nos estimulou a guardar o dinheiro onde fosse mais seguro: de preferência em uma “caderneta de poupança”, e não em um banco virtual.

Estes jovens tem muitos valores, e não estou falando de dinheiro. A ética, a honestidade e o respeito são essenciais em sua visão da sociedade. Exigem respeito, igualdade e motivação para desenvolver suas atividades. São questionadores e não se deixam oprimir. Escutam e aprendem com os mais velhos, mas se sentem muito à vontade para nos ensinar e expressar suas posições sobre nossas atitudes, ainda que muitas vezes de uma forma ríspida e ácida. Sejamos humildes em aceitar.

No trabalho, valorizam e respeitam a competência, não a hierarquia. São líderes natos, apreciam o trabalho colaborativo, a transparência nas relações humanas e a comunicação que envolve um trabalho em equipe. São inventivos, criativos e inovadores ao oferecer ideias e soluções diferenciadas para resolver problemas. Gostam de trabalhar com metas, desafios e foco nos resultados. O ambiente tem de ser adequado para estimular a criatividade, flexível e alegre. A estabilidade dá tédio. Precisam de uma certa dose de incerteza para serem felizes, ou seja, é o oposto do que um Baby-Boomer desejava ao entrar para uma empresa, na qual pretendia se aposentar.

Assim, exigem reconhecimento baseado nos seus talentos. Se isso não acontecer, e rápido, vão embora sem nenhum tipo de apego à empresa onde trabalhou.

No entanto, uma pesquisa realizada este ano pela Deloitte com 8 mil Millennials em todo o mundo revelou que estes jovens estão procurando um trabalho que traga mais estabilidade, possivelmente reflexo da instabilidade econômica.

Claro que eles buscam o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, como todos nós, mas vão privilegiar a primeira. Fato: as necessidades familiares e pessoais são prioritárias frente às demais.

Algo que acho fascinante é que eles são protagonistas da própria carreira, não esperam que alguém ofereça treinamento para se desenvolverem. Buscam cursos online e aprendem tudo sobre tudo que tem um propósito e valor. E aí oferecem o seu conhecimento a quem precisa em troca de reconhecimento financeiro. Prático, não?

Um conselho: não tente se comunicar com eles da mesma forma que sempre fez com alguém da sua geração. Eles se sentem completamente à vontade nas redes sociais e é por elas que ocorrem as relações interpessoais (principalmente os jovens da Geração Z). Pediu ao seu filho para para te ligar? Espere sentado. Eles vão te mandar uma mensagem pelo WhatsApp, pelo Messenger ou pelo Telegram, mas nunca, nunca usarão o telefone (para eles, torpedo é uma arma)! E esperam sinceramente que você veja, em tempo real, suas mensagens sucintas.

– Porquê você não avisou que ia dormir na casa do seu amigo?

– Mas pai! Eu te mandei um “Zap”! Você não leu?!

Não, não leu simplesmente porque você estava dormindo durante a madrugada.

Somos muito diferentes, é fato. Mas acredito realmente que os jovens das Gerações Y e Z não têm que seguir o comportamento e valores das gerações anteriores. Somos nós que estamos vivendo na geração deles, e não o contrário. Então, é lógico que nos adaptemos à era atual, sem que para isso tenhamos que violentar nossos sagrados ideais.

Não é o caso de assumirmos uma fantasia de uma geração que não é a nossa. Ia soar falso, patético e hipócrita. Mas se captarmos a essência destes jovens, entender que eles são uma evolução da nossa geração, têm muito em comum com a nossa (quando tínhamos a mesma idade), aprender com eles e trocar experiências, teremos uma relação entre pais e filhos mais equilibrada, justa e com alto nível de respeito.

Isto sim é amadurecer com sabedoria!

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A Cadeirinha de Bebê Mudou sua Vida e Você nem Percebeu

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Quando eu era jovem tinha um método infalível para não cometer loucuras ao volante do carro: bastava esticar o pescoço e olhar o capô do carro. Esta visão me dava a noção exata de onde eu estava e o que poderia me acontecer em caso de acidente.
Mas então veio o primeiro filho, e junto com ele, a indefectível cadeirinha de bebê. E então, tudo mudou!

Presa ao banco traseiro, sua presença, mesmo sem o bebê, era visão obrigatória no espelho retrovisor. Isso, é claro, mudou meu comportamento ao dirigir. Já não era mais necessário ter a consciência de que estava dentro de uma caixa de aço, entre o motor e o tanque de gasolina. Bastava olhar pelo espelho retrovisor, o que é um ato contínuo a quem dirige, e lá estava ela, qual um Moai, misteriosa estátua da Ilha de Páscoa, a desafiar meus instintos, imponente e impassível, e a moldar minha nova forma de dirigir.

Já não havia mais espaço para discussões no trânsito, manobras arriscadas, freadas bruscas e sinais quase vermelhos. Lá atrás, um ser pequenino, frágil e deslumbrado como um ventilador ligado, com seu olhar curioso para um mundo que se renovava a cada curva, silenciosamente me dizia que precisava de mim. Mesmo com apenas dois dentinhos e uma linguagem simples, ensinou a responsabilidade a um homem que subitamente se descobre, pai.

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Balbuciava seus sonhos de um dia jogar bola comigo, caminhar em comunhão nas areias relaxantes de Rio das Ostras, ouvindo ondas em conchas ou as colecionando do mar. Pedia-me, à sua maneira, para ensiná-lo a andar de bicicleta sem rodinhas, explicar o porquê das coisas e a jogar botão, damas e trunfo.

Não tinha o direito de decepcioná-lo. Se eu lhe faltasse, como se lembraria de mim? Que sobrecarga desumana seria jogada sobre a mãe? Uma injusta, desnecessária e irresponsável orfandade.

Lembro bem, que no carro de meu pai havia um porta-retratos com um imã que prendia no painel do carro (sim, pasmem, naquele tempo o painel era de ferro), com as fotos dos filhos acompanhado da mensagem “NÃO CORRA PAPAI”. Tinha o mesmo efeito psicológico da cadeirinha, quando era a mãe que acolhia o bebê no colo do banco traseiro, e não uma confortável e segura “poltrona de Boeing”.

Não Corra Papai

Mais tarde, quando a cadeirinha, de forma cerimoniosa, é retirada do carro, a sua sombra permanece por lá, a lembrar que a nossa saúde é importante para uma vida que precisa essencialmente de uma família.

E esta mudança não fica restrita entre as quatro rodas. Adotamos naturalmente uma nova postura em relação à vida, com mais cautela, reflexão e ponderação.
Mudamos nossa alimentação para algo mais saudável, evitamos os excessos, os esportes radicais e as atividades de risco. A academia passa a ser um lugar para ficar mais saudável, não mais para ficar mais bonito!

É por isso que as pessoas costumam dizer que alguém ficou mais calmo depois que o filho nasceu. Conversa! Na verdade, é medo de não poder acompanhar o crescimento, ser e estar presente nos momentos mais importantes da vida do filho e testemunhar seus genes se preservarem pelas gerações seguintes.

E ainda mais tarde, quando os baixinhos passam a ocupar o banco da frente e a disputar o rádio e a nossa paciência, o juízo adquirido ao longo de toda a infância se torna um incômodo insuportável para eles.
Reclamam que somos lerdos, não arriscamos, não cantamos pneu, nem buzinamos! Pais medrosos!

– Passa ele, pai, passa ele!
– Pra que botar cinto pai? Você nunca bate!
– Pai! Até aquele Fusca te passou!

Concordo que seria mais honesto explicar a eles que, sim, já fomos jovens arrojados, corajosos e até mesmo deliciosamente irresponsáveis, mas que, para protegê-los, adquirimos um juízo, uma sensatez, um equilíbrio e um bom senso, para que tivessem a chance de receber uma boa educação, exemplo de cidadania, civilidade e respeito ao próximo.
Mas achei que não entenderiam, e acabei botando a culpa no motor 1.0.

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Fé Cega, Faca Amolada

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A administração dos riscos que um filho corre ao longo de toda sua vida é uma responsabilidade de todo pai e de toda mãe. Evitar que ele se machuque, fique doente ou sofra é uma atitude que nasce assim que o cordão umbilical é cortado, como uma forma consciente de preservá-lo.

E nada simboliza mais esta preocupação que o uso de uma faca amolada pelo filho. É como se fosse um marco, um limite que separa a infância da vida adulta.

Desde bem pequeno vamos aumentando progressivamente as fronteiras do que pode e do que não pode. Somos o discernimento de quem ainda não o possui, a vigilância do possível e o juiz do risco aceitável.

Um equilíbrio sutil entre a liberdade que o fará amadurecer e o risco que o fará sofrer.

– Não! Não pode! Papai não quer! Faz dodói! É sujo! Vai cair!

A chupeta que pega do chão, o pequeno objeto que coloca na boca, a virada sobre o trocador, o líquido que não pode beber, os objetos pontudos, cortantes, ferramentas, vidros, quinas, o fogão aceso, o chão escorregadio, a friagem, a golfada dormindo, o travesseiro que pode sufocar, o brinquedo que pode desmontar, o buraco, o tapete, o escorrega, o balanço, a piscina, a multidão… São tantos os perigos que nem nos damos conta de como permanecemos em vigília 24 horas por dia.

Eles crescem, e quando nos damos conta, já aprenderam a usar a faca amolada sem perder um dos dedos. No entanto, o discernimento ainda se contrapõe ao livre-arbítrio. Supõem-se imune a perigos, subestimam os riscos, nos vêem como medrosos. Não podemos mais estar presente à maior de seus momentos. E então, abraçamos uma fé cega.

Mudam as estações, mas não as preocupações. Continuamos a testar os limites, e gradativamente vamos cedendo espaços, enquanto eles vão conquistando a liberdade tão desejada.

– Vai aonde? Vai com quem? Como vai voltar? Seu amigo dirige bem? Ele bebe? Vai voltar tarde? Se cuide hein, filho!

– Pai, porquê você não confia em mim? Eu me cuido, pai!

Sabemos disso, educamos para isso, protegemos até onde foi possível, mas agora eles já cortam o pão sozinhos…

– Pai! Vou acampar na Ilha Grande com a minha namorada! Beleza?

– Pai! Estou juntando dinheiro para pular de asa-delta! Beleza?

– Pai! Vou com uns amigos fazer intercâmbio na Austrália! Beleza?

– Beleza! Se cuide filho! E vai com Deus!

Fé cega, faca amolada.

É preciso saber a hora de recolher as amarras e deixar o barco solto, ao sabor do vento. Não se trata de deixar pra lá! Ocasionalmente, vamos informar a previsão do tempo, para que evitem as tempestades, redemoinhos e buracos negros do mar, mas estamos cientes que o barco é dele: o capitão que você ensinou a navegar.

Ao pai, é voltar os olhos com amor para a mãe e bora viver a vida, porque preservar um porto seguro é essencial para o barco que buscará a luz do farol quando as noites não tiverem a Lua como testemunha da paternidade.

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Os 11 Estágios e Formatos de um Cordão Umbilical

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Estágio I – Nasceu!

Não havia como perde-lo de vista. Mesmo assim, o pediatra corta a ligação antes que nos acostumemos com a ideia.

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Estágio II – Colo

Dependem totalmente de nós. Impossível não saber onde ele está ou o que está fazendo. Até aqui, tudo bem.

Estágio III – Engatinhando

O início do fim da segurança. Podem ir a qualquer lugar, mas ainda dá para segui-los, apesar da velocidade surpreendente que alguns desenvolvem.

Estágio IV – Começando a ficar em pé

Se sustentam agarrando o nosso dedo, balançam feito gelatina e voltam ao Estágio III. Ainda sob controle.

Estágio V – Começam a andar

Ainda dependem de nós, mas não por muito tempo. Seguros pelas mãos, conseguem dar pequenas caminhadas, cansam rapidinho, e voltam ao estágio II. Descobrimos como dá trabalho evitar que se machuquem.

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Estágio VI – Andam sozinhos

Não precisam mais de nossa ajuda para se locomover, mas mesmo assim, seguramos suas mãos para que sigam na mesma direção que nós e não entrem na loja de departamentos enquanto piscamos os olhos Começa a fase do “Dá uma mão papai”

Estágio VII – Criança de Shopping

Você quer ver uma vitrine de uma loja enquanto ele quer ir aonde o dedinho deles aponta. É o início do período em que ele se joga no chão do shopping, faz pirraça, chora e faz com que todos os outros pais (que nunca passaram por isso) o julguem com um ignóbil e incompetente educador. A frase ganha tons dramáticos de urgência e ganha várias exclamações: “Dá uma mão papai!!!”

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Estágio VIII – Criança cansada

Seus objetivos já diferem quase totalmente dos da criança. Ela já não faz pirraça no chão do shopping, mas fica com ar entediado, suspira e segura a cabeça com as mãos em postura explícita de falta de paciência. É mútuo. A frase “dá uma mão papai” é substituída pela mão estendida, o que subtende que ela terá que procurar outro lugar para se refastelar enquanto fazemos nossas coisas.

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Estágio IX – Pré-Adolescente desbravador

Andam em bandos. Conhecemos seus amigos, onde moram e os pais dos seus amigos. Se vão a festinhas, levamos e buscamos (eles e os amigos). É a fase do pai taxista. Já não aceitam mais que segurem a mão. No máximo andam na rua esbarrando suas mãos nas nossas, em claro sinal de querer mostrar que não precisam mais de nós mas morrem de medo de nos perder de vista. São muito distraídos e nesta fase ensinamos a eles que o que para um carro é o freio, e não o sinal fechado.

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Estágio X – Adolescente indomável

Se você ainda leva na escola, pedem para parar bem antes ou bem depois. Nunca, em hipótese alguma, na porta. Nem pense em dar um beijo de despedida, vai ficar no vazio. Saltou do carro, vaza. Morrem de vergonha que você espere ele entrar. Imagina se os amigos virem! Vergonha é algo natural: da nossa linguagem, do nosso jeito de vestir, dos lugares que vamos, de que os pais se beijem, de andar junto, de praticamente tudo. Com muito esforço teremos o nome e o celular dos amigos com quem estão saindo. Esqueça a família deles. Não fazem nenhuma questão que os levemos às festas e boates. Mas ligam para que os buscamos, de manhã. Com sorte, não seremos confundidos com um Uber. Acreditamos sinceramente que sabemos onde eles estão. O diálogo é monossilábico, difícil e econômico nas palavras. Nesta fase, os pais aprendem muitas expressões e palavras novas, mas nem pense em usar com eles! O celular se torna um instrumento vital. Nos preocupamos mais com o nível de carga da bateria do celular deles do que com nossa própria saúde. Tentam de todas as formas romper com o cordão umbilical, e acham que conseguiram quando, na prática, simplesmente desistimos de tentar puxar.

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Estágio XI – Jovem independente

Com muito esforço teremos o apelido e o celular do amigo com quem está saindo, mas a multiplicidade deles inviabiliza qualquer cadastro. Muitas vezes saem pela manhã e voltam à noite, com sorte, tarde da noite. Se dizem que vão voltar cedo, acredite! Será quando o Sol nascer. Detestam que liguemos para saber se estão vivos. Continuamos a dar conselhos, todos ignorados com veemência, mas secretamente colocam o casaco e o guarda-chuva na mochila. Mochila que contém uma rica diversidade e é território privado. Nem pense em mexer! Aceitam participar de refeições com os pais, desde que paguemos. Até curtem participar de eventos juntos desde seja algo alinhado com seus princípios, que são muitos. Nós, pais, rejuvenescemos nesta fase. Ouvem as mesmas músicas que nós ouvíamos na idade deles, o que evidencia que os anos 80 foram muito, muito bons! Aceitam abraços, mas não se demore muito. Às vezes, o abraço é substituído por uma pisada no pé. Entenda que é uma espécie de carinho. O diálogo volta a acontecer e é rico. Nos ouvem, mas questionam, tem opinião crítica sobre quase tudo. Nos ensinam muitas coisas e precisamos ser humildes em ouvir, aprender e entender eles. Nos cobram atitudes, posições e confiança. O GPS é nosso maior amigo! O som das chaves deles abrindo a porta de casa com o dia amanhecendo é um momento sublime e tem forte efeito anestésico. Sentimos uma falta danada do “Dá uma mão papai”. E gostaríamos que eles também.

Uma amiga da família e grande psicóloga uma vez me disse que o cordão umbilical nunca é cortado, mas esticado. É preciso ser um pai sábio para saber dar corda ao cordão na medida exata, desatar os laços antes que se tornem nós e manter por ele um fluxo constante de comunicação.

No umbigo deles ficou apenas uma cicatriz. A ligação agora é puro amor paterno!

 

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E você achava mesmo que as bolhas eram feitas de sabão?

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Passeando de bicicleta pela orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, subitamente me vejo envolvido em uma nuvem de bolhas de sabão. Com os olhos ardidos, encostei e parei para observar a origem de uma das mais clássicas manifestações da infância ingênua.

Na beira da ciclovia, uma criança mergulhava o “pirulito” no pote de sabão e se preparava para mais um enxame de pureza. Encheu de ar os pulmões, e suavemente soprou. Dezenas de pequenas bolhas se espalharam pelo ar: algumas esbarravam nas pessoas, outras caíam e estouravam no chão enquanto outras buscavam o céu, onde explodiam em pequenas gotículas refletidas pelos raios do bonito Sol que fazia naquele domingo.

Apesar de alguns automatismos, que tiraram toda a graça, pois não dependem mais do sopro infantil para produzir o efeito, a brincadeira é a mesma desde muito tempo.

Se você reparar bem, não é tão banal como parece. Após o sopro, todas as crianças em volta se envolvem em um balé inebriante tentando de todas as formas estourar as bolinhas. Riso solto, gargalhadas em profusão, infância em estado bruto, até que a última bolha estoure ou se eleve acima de onde os pequenos e frágeis braços estendidos não conseguem mais alcançar. E então a brincadeira recomeça até que todo o sabão se acabe. Ou então…

– Paaaai!!! O sabão derramou!!!

O olhar melancólico observava o líquido espalhar a espuma inútil sobre o gramado, permitindo que o canto dos bem-te-vis se impusesse sobre os gritos mudos das crianças, cessando de repente a efervescência dos primeiros anos de vidas delicadas.

Mas bastou que os dedos com sabão enxugassem os olhos marejados para que a algazarra voltasse como vento de outono.

– Tá ardendo! Tá ardendo! Sopra pai! Sopra!!

Agachado na mesma altura que tinha quando espalhava bolhas pelo mundo, o pai sopra suavemente os olhos que piscam incessantemente como asas de uma borboleta que acabou de sair do casulo, e então tira da bolsa um pote cheio com o precioso líquido.

– Paaai! Você trouxe mais?!

E então, o ar carregado de inocência, pureza e simplicidade volta a encher novamente bolhas envoltas de sabão, a girar e refletir em formas multicoloridas todo o mundo ao seu redor, e a explodir e espalhar o pólen da receita primordial pelo mundo.

Subitamente, percebo na pele que o sabão se transformou em encantamento, e sinto renascer dentro de mim a infância que há muito havia se perdido.

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Por que os Pais Gostam Tanto de Fotografar os Filhos?

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Tudo começa com o vídeo da ultrassonografia feita no início da gravidez, e que é exibido animadamente para parentes e amigos, ainda que poucos consigam distinguir dentre as formas confusas, o perfil de um bebê. Mas isso é apenas o início de uma longa série de gravações que o pai fará ao longo da vida de seus filhos.

Sou do tempo que os registros eram feitos em rolo de filme em câmera fotográfica, de 12, 24 ou 36 poses. Sou do tempo que era impossível saber se o obturador já teria se fechado quando aquela pose memorável fora arruinada pelo movimento abrupto e sempre inesperado de sua criança. Sou do tempo em que era preciso esperar vários dias para saber se o momento mágico seria eternizado em papel fotográfico ou registrado na nossa memória, como toda mãe sempre fez.

Festas, eventos escolares, passeios, viagens, brincadeiras no play, dormindo, comendo ou mesmo sentado na privada. Toda uma vida registrada, como se fosse o Show de Truman, interpretado no cinema por Jim Carrey.

A família até que tolera a mania esquisita e raramente censura, salvo quando os esforços para que a fotografia saia boa supera os limites do bom senso, da boa educação e da civilidade.

– Para de fotografar e assiste!

Como se eu não estivesse vendo, ainda que através das lentes de minha inseparável câmera…

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Mas, porque temos tanta necessidade de guardar as lembranças dessa forma? Para explicar o motivo de meu estranho comportamento como pai, numa autocrítica rara, criei algumas teorias:

  • Por orgulho, adoramos mostrar as gracinhas de nossos filhos para quem não pôde testemunhar.

  • Por vaidade, queremos deixar evidências de nossos melhores momentos como pai para nossos descendentes.

  • Por insanidade, tememos esquecer o passado, e usamos as fotos para rememorar o inesquecível.

Como se fosse possível armazenar toda uma infância em uma simples caixa de sapatos…

Atualmente, a velha câmera de rolo foi substituída pela câmera digital, que está sendo substituída rapidamente pelo celular. Não imprimimos mais as fotos: as esquecemos na “nuvem”, em algum computador do Google em algum lugar do planeta. E esta facilidade alimentou o vício e multiplicou a níveis exorbitantes a quantidade de fotos que tiramos dos filhos. Não ficou bom? Apaga e tira de novo. Filmamos horas e horas, em alta definição, em slow motion, capturamos movimentos, momentos e emoções que nunca mais serão repetidos, mas raramente assistimos.

É duro perceber que os melhores momentos que me recordo ao longo de toda minha vida como pai são aqueles em que não estava com uma câmera na mão, porque ao constatar que as lembranças não poderiam ser eternizadas pelos neurônios artificiais, meu cérebro tratou de armazenar a ternura em forma de saudade, e sensibilizar minha alma e meus genes, perpetuando as lembranças da paternidade em sua mais verdadeira e pura essência.

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Dia de Apresentação na Escola

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As apresentações feitas pelas crianças na escola nunca são fora do horário comercial. Daí a correria que temos que realizar sempre que recebemos a convocação. Largamos reuniões no meio, corremos pelas ruas, pegamos táxis, para enfim chegarmos suados, esbaforidos, mas felizes por não nos atrasarmos.

Assisti às mais diversas apresentações: teatrinho, dia dos pais, carnaval, festa junina, balé, judô, música e até mesmo de dia das mães. E sempre de posse da indefectível câmera fotográfica, tão criticada pelas mães, mas companheira inseparável do pai coruja.

E então, no meio do imenso tumulto de pais, vislumbrei meu filho se preparando para a exibição. Enquanto vestia sua fantasia, recheada de papel crepom, procurava com olhinhos ansiosos a figura familiar na platéia.

O encontro dos olhares é um momento mágico! Como por encanto, o sorriso sereno brota em seu rosto enquanto suas ruguinhas de preocupação desanuviam. Como que imbuído de uma autoconfiança, assume o seu papel na pecinha teatral, certo de que estava sendo observado (e fotografado) pelo seu pai.

A vontade de acertar e corresponder às expectativas sobrepõe a ansiedade e o nervosismo, natural e compreensivo, enquanto olhares esguios a confirmar a presença do pai durante a apresentação são percebidos e correspondidos.

Ocorre que nem todos os pais podem (ou desejam) participar de todos (e são muitos) momentos de exibição. E as crianças sentem. Muito! Percebia várias delas buscando tristemente o pai na platéia até o final do ato, sem sucesso. Mesmo assim, se mantinham firmes, pois sempre havia uma testemunha de seu desempenho.

– Você gostou, papai?

A pergunta, feita em tom excitado, não esperava uma resposta crítica, lógica ou pragmática. É apenas uma formalidade emocional para que o abraço de gratidão encontre o abraço de felicitação.

O que importa se ele esqueceu a fala, se pisou na fantasia e a palmeira despencou, se trombou com o coleguinha e o cenário desabou ou se teve uma crise de choro e foi retirado do palco pela Tia cenógrafa-música-diretora-coreógrafa?

No final, damos parabéns, dizemos que estava ótimo e que ele foi muito bem!

Não estamos mimando, estragando ou impedindo seu amadurecimento como ser humano.

É simplesmente orgulho puro e simples de pai.

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Brincadeiras que Ensinam a Entender a Vida

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Viajar ajoelhado no banco do carro, virado para o vidro traseiro, é uma das coisas mais gostosas que boa parte de nós já fez quando éramos crianças. Experiências ingênuas, como estas, nos ensinaram muito mais do que poderíamos imaginar. E contribuíram de forma definitiva para a formação de nossa maturidade.

A aceitação inesperada das mudanças de rumo, os desvios entre os carros e pedestres, os prédios que surgem de repente, imponentes, e vão diminuindo de tamanho até sumirem na próxima esquina, o Sol bailando ao sabor das curvas, o reflexo das nuvens nas vidraças dos prédios, tudo isso enquadrado no para-brisa traseiro, formam um passatempo delicioso e inebriante.

Ao ter esta perspectiva inusitada do mundo que nos cerca, vivenciamos uma rebeldia inocente, e sempre mal compreendida pelos nossos pais. Enquanto estamos absorvidos e embriagados por esta vivência, a mãe com sua mão protetora ampara nossas costas, sem tocá-la, em um gesto carregado do pressuposto que uma freada brusca me acordaria subitamente de meu sonho, e me faria acordar em seus braços carinhosos.

Aceitar os caminhos por onde passamos sem ao menos esperá-lo, sem tempo para querer, sem espaço para escolher. Não poder ver vindo, e então passar. Não saber por que paramos e tampouco porque voltamos a andar. Não saber quem nos acena, e nem porque acenamos de volta.

Ter tempo de apreciar casais se enamorando, os passos cadenciados e solidários do casal de idosos, a migração em V dos pássaros que buscam o verão, o cãozinho que passeia na cadeira de rodas, uma folha seca na última valsa antes de tocar o chão, toda uma vida que passa onde somos coadjuvantes no papel de inocentes.

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Detalhes que passam totalmente desapercebidos quando estamos absortos pela rotina e pelas preocupações. Isto se chama viver!

Desde crianças, aprendemos que a imprevisibilidade é algo natural, e nos acostumamos a encarar a vida dessa forma. Aprendemos a confiar em quem está nos guiando e nos deixamos levar por caminhos que desconhecemos. Aprendemos enfim, que para chegarmos onde queremos, muitas vezes precisamos passar por desvios, bloqueios, atalhos e pontes surpreendentes.

Conduzindo a Vemaguet, voz firme, sem espaço para contestação, meu pai dá o ultimato:

– Senta direito, menino!

Obediente a ele, volto-me para a visão frontal, a tempo de presenciar uma previsível manobra, sem surpresa. Pena…. Tivesse passado mais meia hora na perspectiva reversa e eu teria aprendido bem mais cedo a reconhecer os sinais, mesmo sem vê-los, e aprendido a respeitá-los e agradecê-los pelos destinos que a vida nos traz.

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